terça-feira, 28 de maio de 2013

MINHA AVÓ ERA HOMEM 
MILTON  MACIEL  

Pois é. Sim, é isso mesmo que vocês leram aí. Minha avó... era HOMEM. Já vou explicar. Sabe como é, todas as famílias têm seus segredos. Aliás, quando algum deles é descoberto, sempre é possível recorrer à velha justificativa:Isso acontece nas melhores famílias. Eu, infelizmente, não posso.

É que a minha não pode, de forma alguma, ser incluída entre as melhores famílias. Tenho uma irmã que deu o golpe da barriga num homem rico, já levando para a cama dele, na primeira vez, uma sementinha (Sabem, os bebês nascem de uma sementinha!) gentilmente fornecida por um namorado dela. Como ela fez o otário do meu cunhado acreditar que ainda era virgem (isso eu não vou contar hoje, outro dia eu falo), o cara nunca pensou em fazer um exame de DNA. Ele veio prontamente assumir a responsabilidade por ter feito mal à moça virgem de 20 anos (justiça seja feita, ela, de fato, foi virgem até os 13)  e casou logo, a tempo de a barriga não atrapalhar o casamento religioso. Véu e grinalda, é claro.

Mas não é por isso que eu estou excluindo a minha do rol das boas famílias. Tem muito mais coisa e a mau caráter da minha irmã, que continua aprontando das dela, não tem nada a ver com isso. Nós temos um segredo tenebroso, que é a razão maior da nossa vergonha. Não sei se vou ter coragem de contar aqui, mas pelo menos o lance da vovozinha eu não me importo que os outros saibam. Afinal, já faz tanto tempo e a velhinha já morreu mesmo. Bem, o lance foi o seguinte:

Um dia eu subi ao depósito de tralhas que a gente tem no segundo andar. É um bagunça familiar típica. Gerações de relaxados e porcalhões passaram por ali largando bagulhos e badulaques mil, sempre à espera do dia em que a grande faxina geral vai ser feita. Lá em casa deve haver umas mil camadas de sedimentos inúteis, só um bom arqueólogo poderia começar os trabalhos de remoção.

Bom, aquele era um dia de chuva e de tédio. De repente lembrei do museu dos Martini e resolvi dar uma xeretada. Assim do nada, não pensei em procurar coisa alguma, só xeretar mesmo. É claro que lá é escuro a qualquer hora do dia, amontoaram coisas até o nível do teto, lógico, lâmpada de luz fica sempre bloqueada. Então, quando eu entrei, no primeiro metro já dei uma chifrada de fazer gosto em algo suspenso do teto. Aí me desequilibrei e, pra não me estabacar no chão, deu um salto espetacular. Mas aí caí em cima de uma tábua solta, que girou pra cima e demoliu o meu joelho. Gastei todo o meu estoque de palavrões em questão de minutos, até a dor passar. Aí resolvi dar um jeito na maldita da tábua.

É, eu tenho que admitir aqui pra vocês que eu também contribuo para o mau nome da família. Por causa do meu mau gênio, sabe? Sou um ariano típico, fervo a 10 graus centígrados e quando me irrito, não consigo deixar de soltar as patas. Mas vamos voltar à tábua. Eu desci furioso, peguei uma lanterna grande e o machado. Eu estava tão enraivecido, que acho que passei uns quinze minutos dando machadada a esmo naquele piso. Ainda bem que a maior parte estava mesmo coberta de tralhas. Mas, onde havia um pedacinho de tábua de piso aparecendo, eu lasquei o machado com raiva um sem número de vezes.

Claro, tive que pagar o conserto, depois. O pessoal ficou uma fera comigo. Não por causa do estrago, mas porque tiveram que tirar toda aquela tralha mofada e fedida e espalhar pela garagem e pelas outras peças da casa. Minha irmã caçula não fala comigo até hoje, quase um mês depois. Mas isso não interessa, vamos voltar à tábua quebra-joelhos.

Pois é, quando eu fui obrigado a parar minha obra prima de demolição, porque estava tão suado e com tanta dor nos braços que não agüentava mais nem o peso do machado, eu sentei no chão, no lugar onde a agressora tinha estado. E aí, pra minha grande surpresa, eu vi uma caixa preta que estivera escondida debaixo daquela tábua. Apanhei-a com o coração na mão. Podia ter um tesouro lá dentro, jóias, moedas de ouro, sei lá! Pelo menos, nos filmes sempre tem. Que nada! Dentro só tinha um diário e um álbum de fotografias. Levei a caixa com seu conteúdo pro meu quarto, de qualquer forma aquilo era um descoberta arqueológica minha e, mesmo se não tivesse valor algum, não era idéia minha compartilhar meus achados com ninguém.

Mas quando comecei a ler o diário e a olhar as fotografias, eu levei o maior susto. Cara, a minha avó Tereza era HOMEM! É isso aí, no duro. A velhinha que eu conheci e da qual lembrava com tanto carinho, era um velhinho. A manobra aconteceu quando ela e o meu avô chegaram ao Brasil, vindos da Itália. Vinham fugidos da segunda guerra mundial, que tinha feito um arraso total na vila deles. Os dois eram muito amigos e embarcaram como clandestinos no mesmo navio. Aí sabe como é, meses de viagem, os dois juntinhos escondidos,  amontoados em baixo das lonas no porão de cargas, acabou rolando um clima. Você precisam ver como o sacana do meu avô contou isso no diário dele, páginas e páginas de apimentadíssima pornografia gay, com desenhos que ele fazia a toda hora, pra explicar melhor. 

No dia do desembarque, eles tinham que se misturar com o povo e mostrar os documentos de imigração. Que eles não tinham, é claro. Mas aí o mau-caráter do meu avô conseguiu roubar os passaportes de um casal de genoveses da 3ª. classe, deixando o cravo pros coitados, bem típico desta minha família de safados. Aí o carinha que ia ser a minha avó conseguiu surrupiar uma mala de mulher e aproveitou para se vestir com um dos vestidos que estavam lá dentro. Ficou de chinelas mesmo, lascou um lenço na cabeça, e os dois conseguiram desembarcar.

Assim começou a história da minha família no Brasil, os Martini. Que era o sobrenome dos genoveses, vejam só! Por aí você vê como essa família começou mal, com esses dois boiolas pilantras, não podia dar em boa coisa! Vê também que meus avós foram os pioneiros do casamento gay no Brasil. E eles mantiveram a farsa por todo o sempre. Vovô Albino e Vovó Tereza, nascidos, criados e casados em Gênova, Itália - Que mentirosos!

Com o tempo, como vovó fosse estéril, coitadinha, eles adotaram uma menininha (minha mãe) e dois menininhos gêmeos (meus tios). Que nunca souberam que eram adotivos, o que é incrível, porque tanta gente sabia das adoções.  E a coisa andou bem, vovozinha querida na cozinha e cuidando da casa, dos filhos e depois dos netinhos (olha eu ali!), e vovozão trabalhando na cidade.

Foi bem até o dia que a velha bateu com as dez de repente, coração. O velho estava viajando, os filhos já adultos tinham se mudado pra outra cidade, minha mãe sozinha ali não aguentou o rojão. Sempre teve medo de defunto, mesmo sendo a mãe não quis saber de chegar perto. Pediu que o cara da funerária viesse, levasse o corpo e tratasse de tudo, até dos documentos. O que ele fez, é claro, por uma boa grana. Agora imagina a surpresa dele quando tirou as roupas da velha para lavar o cadáver e deu de cara com aquele pacotão no lugar errado. A velha era HOMEM!

O agente funerário era esperto o bastante para saber que tinha tropeçado numa mina de ouro. Ficou bem quieto, esperando meu avô voltar. O velho nunca que ia querer que a família e a cidade toda ficassem sabendo daquele escândalo velho de décadas. De fato, depois que ele mostrou a meu avô as fotografias que fez, com a vovozinha vestidinha de mulher, com parte de baixo exposta e com a vovozinha peladinha, aparecendo em primeiro plano aqueles penduricalhos murchos, o velho Albino ficou nas mãos dele. Começou a extorquir o vovozinho toda semana. Mas ele não sabia que vovô não era genovês coisa nenhuma, era um calabrês de sangue quente. Na terceira semana, ele marcou com o papa-defunto num lugarzinho mais conveniente e despachou o cara com dois tiros nas fuças. A polícia nunca ficou sabendo quem era o assassino.

Pois é, agora vocês sabem: O assassino foi meu avô! Meu avô era assassino e homossexual. Já minha avó era bichona mesmo. Me diga se não é um baita segredo de família, desses que, quando se joga no ventilador, espalha coisa pra tudo que é lado. Pronto, contei tudo!

Bem, tudo não. O maior e o pior segredo da nossa família bem poucas pessoas conhecem. Eu vou contar pra vocês aqui em particular, porque confio na discreção de vocês. É um segredo de lascar, a gente tem a maior vergonha dele. Mas, bom, paciência, eu estou cansado de carregar essa cruz sozinho, peço que vocês me ajudem a levá-la um pouco. Mas seja discretos, pelo amor de Deus. Senão eu vou ter que mudar de cidade, mais provavelmente eu opte por sair do Brasil. Não, é muita vergonha mesmo, até pra um cara de pau como eu. Sabem o que é?

Bem, meu irmão é DEPUTADO FEDERAL! É, é horrível mesmo, eu aceito a piedade de vocês. É muito vexame mesmo! O filho da puta (desculpe, mãe, é jeito de falar) já se reelegeu duas vezes, portanto é dos piores que existem naquele covil de Brasília. A gente faz que não conhece, quando a imprensa procura alguém da família, nós todos negamos, ameaçamos processar, damos umas porradas nos caras, tomamos o maior cuidado pras crianças não descobrirem. Sabe como é, traumas de infância são coisas que a gente carrega pelo resto da vida.

É isso, desabafei. Mas agora, por favor, mostrem que são meus amigos. Não contem essa barbaridade pra ninguém! Pelo amor dos seus filhinhos! Jurem pelo que há de mais sagrado. Eu NÃO SOU irmão de DEPUTADO FEDERAL. NÃO SOU!!!

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