quinta-feira, 17 de agosto de 2017

LIVROS DE MILTON MACIEL 2017
Anunciando o lançamento da Série "Como Escrever Ficção"
Vols.1 e 2 disponíveis a partir de 20 de setembro:
Vol. 1 - A ARTE E A TÉCNICA DO ROMANCE - 280 pg
Vol 2 - A ARTE E A TÉCNICA DO PERSONAGEM  - 216 pg
Lançamento: Dia 20 de Setembro de 2017, na Academia Joinvilense de Letras, Salão Nobre da Sociedade Harmonia Lyra, às 19:30 hs, durante a FESTA GAÚCHA.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

QUANDO TEREMOS A PRIMAVERA DE ANNE E FARIDA?
MILTON MACIEL

Senhores da Guerra, morte e escuridão
fazem-nos a Terra toda em cova rasa.
Enriquecem, vendem armas, ambição
que destrói, sem piedade, a humana casa.
E a monstruosidade racista da opressão
lança a bomba que a tudo em volta arrasa.
Contudo,
A primavera que Anne Frank sonhou em seu porão,
É a mesma que a menina Farida sonha em Gaza
 
Quando chegaremos a viver, menina Anne, menina Farida,
A Primavera que vocês sonharam e não tiveram nesta vida?

sábado, 12 de agosto de 2017

ESCUTA-ME! 
MILTON MACIEL (rimas internas cruzadas)
 
Escuta-me.
Mas tem cuidado, por favor.
Todo meu ser está cansado:
Mal de amor! Como viver
com este fado? Entende-me.     
   
Mas tem paciência, te suplico.
Pois vago assim na impermanência
Onde fico, sem ter de mim
mais consciência. Apoia-me.
 
Mas tem firmeza, sê constante.
Pois que oscila, minha alma, na incerteza
 angustiante. E, sem força, atônita vacila
em sua tibieza. Ajuda-me! 
 

Mas tem carinho, por piedade.
Pois que, transido, cansei de lutar sozinho
contra a saudade e o abandono descabido
dos quais definho. Compreende-me!  
    
Oh, por favor, escuta-me!

sábado, 5 de agosto de 2017

NO CAIS, A ESPERA
MILTON MACIEL

Anseiam seios, no seu peito arfante,
Pelos lábios febris daquele amante
Que arrebatou, o mar, pro Novo Mundo.
Cavo sonido vem do peito ardente,
Mais um soluço, que num de repente,
Irrompe oriundo de um pesar profundo.


Vazias mãos, qual aves desnorteadas,
Em vão se agitam, sonham ser tocadas
Por mãos ausentes do seu bem-amado.              
Ele se foi,  arrrebatou-o a caravela,
No Tejo ele acenou, a despedir-se dela
E foi para os Brasis, a enfrentar seu fado.


Há mais de um ano, abisma-se ali ela.      
No cais de Lisboa espera a caravela,
Que traz seu homem pelo inferno aquoso.
Américo Vespúcio e Gonçalo Coelho
Levaram seu amado, nesse destrambelho,
A arrostar os perigos do Mar Tenebroso.


Cada nau de velas brancas a apontar no Tejo,
Faz seu corpo estremecer, agoniado arpejo,
Na esperança de que o rio devolva sua vida.
Por centenas de dias ela espera, aflita,
Que o mar e o rio encerrem sua desdita,
Que a volta do amado pense-lhe a ferida.


Hoje, mais uma vez, a espera deu em nada.
Amanheceu tensa no cais, com a madrugada;
Chegaram duas naus, escaleres aportaram.
“Vêm dos Brasis!” bradou alto um marinheiro.
Ela esperou descer o homem derradeiro
E seus anseios, novamente, se frustraram.


Nenhum era ele. Mais um dia... frustração.
Olhos ardendo, lágrimas, sono; a exaustão!
Desfaleceu ali, sobre uma pedra do cais.
Sonhou: ele viera; e, amoroso, ele a chamava.
Abriu os olhos. Deu um grito: ELE VOLTAVA!
E, abraçando-a, dizia: “Não parto nunca mais!


Sofri ataques de índios, traições e emboscadas.
Fui prisioneiro, tive minhas pernas fraturadas,
Estive por morrer bem mais do que uma vez.
Nada doeu-me, porém, mais que a tua ausência!
Mas, pensando em ti, encontrei força e resistência,
Tinha que voltar e esposar-te, salvar tua honradez.


Do bendito pau-brasil, está a nau toda abarrotada,
Ganhei muitos ducados, valeu-nos a empreitada,
Pois agora posso ser, finalmente, o teu marido.”


Ela estremeceu, sentiu-se flutuar, feliz e amada.
A longa espera estava enfim recompensada:
Ali em seus braços, de volta, o seu querido!



segunda-feira, 31 de julho de 2017

VIDA, VIDA, VIDA
MILTON MACIEL

         (Para Lucinda Clarita Boehm)


E o que é a Vida?

Não são estes escassos minutos cósmicos fendidos,
Que vivemos entre haustos sutis de eternidade,
Ilusão fugaz de quem olha pra Verdade
Obnubilado à pouca luz da vã Matéria.
Ao desmaterializar-se o Ser, à luz etérea,
Fulge a alma livre de qualquer passada escória.

A vida é isso:
A vida é só memória,
É sulco, é fenda, é trajetória.
A vida é isso:
A vida é história!

Não é o mal viver da humana queixa.
Não é o que se leva. É o que se deixa!


sábado, 22 de julho de 2017

FERNANDO PESSOA era ASTRÓLOGO PROFISSIONAL
MILTON MACIEL

O maior dos poetas portugueses contemporâneos, Fernando Pessoa, manifestava grande interesse por assuntos esotéricos. Revelações feitas pelo escritor português Paulo Cardoso no livro “Mar Português e a Mensagem Astrológica”, mostram um Fernando Pessoa muito mais envolvido com a Astrologia do que se supunha até então.

O longo e persistente trabalho de investigação de Paulo Cardoso foi possível a partir do momento em que os familiares de Pessoa doaram todo o espólio cultural do poeta ao governo português. Paulo foi uma das poucas pessoas a obter autorização para manusear o impressionante acervo de 30 mil documentos originais, manuscritos ou datilografados.

O que ele descobriu, boquiaberto, é que nada menos que 2700 desses documentos se referem a assuntos de numerologia, geometria sagrada e, esmagadoramente, de Astrologia. Aos olhos do pesquisador foi aparecendo aos poucos um Fernando Pessoa astrólogo. E um astrólogo profissional, que cobrava por consultas dadas, com uma tabela de preços encontrada em um manuscrito de próprio punho, com preços para interpretação simples, interpretação média e interpretação avançada.

Mas a coisa não parava aí. Paulo Cardoso descobriu que Pessoa definia seus heterônimos astrologicamente. Aplicava técnica eletiva até encontrar um mapa que mais se assemelhasse com o heterônimo que tinha em mente criar. Em seu livro, Paulo Cardoso reproduz o mapa, feito pelo poeta, de seu heterônimo Ricardo Reis, o médico. Este, Álvaro de Campos, o engenheiro e Alberto Caeiro, o pouco culto, são os três mais conhecidos heterônimos usados pelo poeta.

Mas o que mais impressionou Paulo foi descobrir o heterônimo Raphael Baldaya, que Fernando Pessoa apresentou como sendo o mais velho e o mais sábio de todos e que era astrólogo!
 
Sob esse nome fictício, Pessoa elaborou um projeto editorial que lhe era especialmente caro ao coração: a publicação de um livro técnico de Astrologia, com o nome “Essays in Astrology” – Ensaios de Astrologia. Na revista “Delphos Astrologia, Vol. 1 No. 2 foi publicado o fac-símile da página original, datilografada pelo próprio poeta, que é reproduzido no fim deste artigo.

O texto está datilografado em inglês, a segunda língua de Pessoa, já que ele viveu muitos anos estudando na África do Sul. Uma grande parte dos originais de Pessoa é redigida em inglês, já que esse fantástico geminiano até nisso exibia sua dualidade: era absolutamente bilíngue.

Aliás, a manifestação da multiplicidade de talentos de Fernando Pessoa é uma exteriorização do seu multifacetamento interior. O que ele aprendeu a equilibrar com o auxílio da Astrologia, criando com ela os seus heterônimos, seus diversos eu-mesmo, seus personagens internos.

Fernando Pessoa tinha o Sol em Gêmeos e Mercúrio, seu dispositor, no sensível e poético signo de Câncer. Ali, na casa XI natal, recebia a dupla quadratura de Marte e Urano, conjuntos em Libra. Uma estrutura planetária que indica a existência de um possível hipertireoidismo em Pessoa.

Como escreveu Paulo Cardoso:

“A Astrologia vai-lhe ser uma filosofia de apoio, o fio que lhe permitirá habitar e viajar o labirinto de sua interioridade, enveredar por sua irresistível vocação de descobridor dos meandros do seu próprio processo intelectual, sem que corresse o perigo de cisão total com o exterior, com o mundo, o risco de ficar eternamente fechado, hipnotizado, extasiado, sucumbido no delirante ritmo de sua mente. A Astrologia foi pois, a partir dessa altura, a fórmula que respondia assiduamente às dúvidas que se lhe punham acerca de sua sincronia com a vida e com o mundo.”

Projeto do livro de Astrologia de Fernando Pessoa, que não chegou a ser publicado em razão da morte prematura do poeta:

ESSAYS IN ASTROLOGY
By Raphael Baldaya

I – The conventions in Astrology
1)      The intellectual zodiac
2)      The measures
3)      The attributions
II – The zodiac
III – Directional Astrology
IV – Symbolic directions
V – Prenatal figures
VI – Mundane Astrology
VII – Defense and justification of Astrology
VIII – Horary Astrology
IX – The sorts
X – The fixed stars  
XI – Transits and eclipses
XII – General reading of the nativity
XIII – The mundane houses
XIV – The foreign element in Astrology
          Rejection of the Occult Element, of the Symbolic element

 
 
















EU TAMBÉM USO ESSE MESMO RECURSO, MAS PARA A CRIAÇÃO DE MEUS PROTAGONISTAS. 

LOLITA DE ARACAJU, personagem do meu primeiro romance, é uma paulistinha, nascida em Brotas, interior de São Paulo. Quando tinha 16 anos, tornou-se dona de um bordel em Aracaju, ficando riquíssima em poucos anos. Era completamente paranormal. Fiz o mapa para essa mulher atraente, sensual e poderosa em 2008, quando escrevi, em 90 dias, o livro que tem o mesmo nome dela e que ficou com 320 páginas.

Muito anos depois, em Novembro de 2015, comecei a escrever, em um hospital onde estive internado por 2 dias apenas, em Timbó, SC (fica a  90 km da cidade onde vivo), o meu 9o. romance, LUA OCULTA. Criei a protagonista da história, a belíssima Larissa Silva, Miss Amarante (nome fictício que dei para Timbó, SC)  e fiz seu mapa astrológico. Ela estava com 23 anos quando de sua criação. Só muito tempo depois percebi que ela era coetânea da Lolita de Brotas, criada 7 anos antes. Surpreendentemente, as duas tinham nascido em 1992, com a diferença de apenas 1 mês, e quase na mesmo momento; Lolita é Escorpião e nasceu às 6:03 da manhã, em Brotas. Larissa é Libra, nascida às 6:02 em Timbó. Ambas nascidas no momento em que a Lua Nova cruzava o ascendente. Terminei LUA OCULTA em maio de 2016 e ele acabou ficando com impressionantes 1088 páginas.

Ter os mapas astrológicos "natais"  de meus personagens me permite saber porque eles fazem o que fazem e quais serão suas reações ante as mais diversas circunstâncias. Também posso saber de antemão as aspectos de suas Sombras (no sentido junguiano, psicológico, do termo) e, portanto, quais seus medos, bloqueios e processos de autossabotagem. E, importantíssimo, quais seus anseios e desejos maiores e quais os preços que terão que pagar para poderem passar pela transformação e  crescimento que são o cerne mesmo da cada história. Também ajuda demais saber qual o perfil de relacionamentos de cada personagem, tanto amorosos, quanto familiares.

Anexo aqui os mapas de LOLITA DE ARACAJU, a mais jovem dona de bordel do mundo e de Larissa Silva, a Miss Amarante de LUA OCULTA.

Nos meus 10 romances publicados, os protagonistas são sempre mulheres. A exceção corre por conta  dos históricos "João Ramalho no Paraíso" e "A Guerra de Jacques", de 2017, recentemente lançado. 

Mapa de LOLITA DE ARACAJU

Mapa de LARISSA SILVA



terça-feira, 18 de julho de 2017

POR UMA MASCULINIDADE SADIA – 2a. parte
MILTON  MACIEL
AS RAÍZES PSICOLÓGICAS DO MACHISMO 
        “Homens e mulheres já nascem machistas. Isso é o que muito pouca gente percebe. Enquanto se desenrola a luta secular das mulheres por emancipação, tremendas forças inerciais resistem ao seu avanço, apresentadas por homens e, paradoxalmente, por mulheres também. São forças inconscientes e coletivas, são os arquétipos da sociedade patriarcal e machista, formados ao longo dos últimos dez mil anos, que se impõem, irresistíveis, desde o fundo do inconsciente de meninas e meninos, minando toda possibilidade de harmonia e cooperação entre os gêneros, desde a mais tenra infância. Arquétipos são figurações multimilenares do inconsciente coletivo.
     Estamos literalmente programados, tanto homens quanto mulheres, para sermos machistas. Essa programação brutal precede o nosso nascimento. Somos, portanto, machistas de nascença. Por muito tempo ficaremos dominados por essas forças incoercíveis. As mulheres tomam consciência delas muito cedo, porque serão, desde meninas, vítimas permanentes desse machismo latente, oculto, que se exterioriza para submergi-las em um mundo de medo e de exploração. Os homens tardam mais a perceber seu papel opressor. Eu, um gaúcho típico da fronteira com o Uruguai, onde vivi até os 14 anos, precisei de quase cinco décadas para cair na real e perceber que o pior no machismo é o fato de ele ser atávico e oculto, inconsciente.” 
Excerto extraído de: [Milton Maciel -  O Machismo Oculto, in: “A Bela Morde a Fera” (IDEL, São Paulo, 2009 – pg. 288)]
   As mulheres, embora vitimadas pelo machismo, não conseguem perceber que são, ao mesmo tempo, suas propagadoras de geração a geração. Compelidas pela força inconsciente do arquétipo, criam suas filhas para serem A Bela, para serem submissas; e seus filhos, para serem dominadores. Ensinam a elas que elas são fracas e que não são capazes de defender a si próprias quando agredidas ou desrespeitadas, que só um homem poderá defendê-las. Nada pode ser menos verdadeiro. O homem será, quase sempre, o agressor!
   Já mães e pais criam seus meninos para serem A Fera,  para serem agressivos, fortes, competitivos, ferozes até. E, dessa forma, castram completamente a possibilidade de um crescimento em que exista respeito e integração verdadeiros entre meninas e meninos, o que vai perpetuar a raiz da futura infelicidade conjugal, de lares emocionalmente desequilibrados, berço para uma nova geração de crianças emocionalmente desbalanceadas, incompletas afetivamente, futuros agressores e agredidas, a ferirem-se uns aos outros inapelavelmente, infelizes no amor, insatisfeitos no sexo. 
O machismo é a nossa grande chaga coletiva, a gênese da nossa infelicidade amorosa.