terça-feira, 8 de março de 2022

 MEU 8 DE MARÇO É PERMANENTE

MILTON MACIEL 

  

    Minha homenagem às mulheres não tem nada a ver com o 8 de março. Ela é PERMANENTE. Nos meus romances publicados (doze), o protagonismo é maciçamente das mulheres. Essa é a minha forma prática de manter minha luta como um feminista convicto e atuante desde 1984.

   Somente três dos meus romances têm homens como protagonistas: Jacques Rosen, de “A Guerra de Jacques”, que já ganhou versão em francês e em inglês. Ataliba, de “Ataliba um paulistano feliz. E João Ramalho, de “João Ramalho no paraíso”, onde a bela e generosa índia guaianá Bartira é sua esposa e ‘civilizadora’.

     Em todos os demais, como se pode ver na foto, protagonistas são sempre mulheres. Lolita, em “Lolita de Aracaju, a mais jovem dona de bordel do mundo”Ritinha e Gabi/Iracema, em “A Espera e a Noivinha”, que foi reescrito para a Amazon como “Escravizada” – são meus romances sobre o tema da prostituição infantil.

   Em “O Cerco” VéricaKina, e Alana são as sacerdotisas celtas que, junto com a belíssima Ilduara (na verdade um eunuco ostrogodo), são as protagonistas que resolvem as grandes batalhas na Gália, durante a invasão dos hunos, em 451 A.D.

     A pequena Aline, do romance histórico “Aline de Troyes”, é a jovem guerreira gaulesa que salva sozinha uma legião romana inteira da destruição pelo ataque dos alamanos. Um dos personagens é o general romano Flavio Jovino, o fundador de Joinville, em 354 AD.

     Larissa, que só não foi Miss Universo porque não quis, desfila sua beleza e sua transformação em líder e prefeita durante as 1088 páginas de “Lua Oculta”, onde muita gente é eliminada por dois serial killers. A impressionante Gládis de Rios, bailarina de flamenco e instrutora de autodefesa feminina, é sua coadjuvante e seu ídolo.

     Em “Os reflexos do peixe brilhante” é a professora aposentada sessentona Dahlia Riechelmann que resolve o mistério de um assassinato em Joinville, SC. E só então descobre o que é o amor!

    Helena Fumiko é a jovem médica que volta do Japão aos 23 anos para tentar a reconciliação com seu avô na cidade de Bastos, SP, em “Doutora Fumiko, um amor que vence o Não e a vida exorta”.

     “A Princesinha quer dançar” conta em versos de poesia infantil a saga da princesa Samantha, quando seu rabugento pai proíbe a música e a dança em todo o reino.

     E a maravilhosa Leocádia, em “Negra Leocádia”, uma escrava, é a protagonista de um romance histórico no Rio de Janeiro colonial. Onde luzem também Tiradentes e a inconfidência mineira. E a revolução que tornou o Haiti a segunda nação independente das Américas. Leocádia ainda não foi publicada. Por incrível que pareça, aguarda ser libertada pelos portugueses. Desta vez, editores. Outra hora eu explico.

   Também como ghost writer mantenho esse protagonismo feminino. Dentre os livros que escrevi para terceiros, na categoria não ficção seis deles tem mulheres no papel principal: são duas trilogias policiais internacionais, onde as detetives amadoras são duas mulheres brasileiras – uma compositora e uma fotógrafa de moda.

Em não ficção:  

   “A Bela morde a fera” é a versão em português do precioso ensaio “Beauty bites beast”, de Ellen Snortland, na qual participo como editor e como autor do capítulo final, “O machismo oculto”. O tema é a autodefesa feminina em todas as suas múltiplas facetas.

     E “Como é caro ser mulher” é meu ensaio de economia feminista, que escrevi nos Estados Unidos e depois adaptei para o Brasil. Está em processo de tradução para lançamento em inglês, voltando a seu país de nascimento.

     Lolita é paulista de Brotas, morena de cabelos castanhos.

     Ritinha é loirinha e Gabi/Iracema é uma típica índia amazonense.

     As sacerdotisas celtas são ruivas muito altas, naturais da Bretanha

     Aline, da cidade gaulesa de Troyes, é franzina e castanha.

     A Miss Amarante Larissa Silva é loirinha, descendente de italianos em Santa Catarina.

     Nossa professora Dahlia Riechelmann, de esfiapados cabelos brancos, é descendente direta de alemães.

     A Doutora Fumiko, neta do patriarca de Bastos, é sansei, está na cara.

     A princesinha Samantha, branquinha e vegana, tem cabelos modernos de cor variável, depende do mês.

     “A bela morde a fera” é um ensaio, mas escolhi para sua capa uma bela e forte guerreira africana.

    E nossa Leocádia é preta, pretíssima, brasileiríssima, filha de escravos iorubás trazidos para a Bahia, mas vendida na infância para um senhor do Rio de Janeiro.

     Para terminar, a bela loira de “O filho da empregada” é uma transexual. Um jovem seminarista que foge do seminário para seguir seu amante padre. Quando este é abatido por grileiros de terras no Mato Grosso, o jovem vai para a Itália e faz operação para mudança de sexo. Retorna ao Brasil para graduar-se em duas faculdades e acabar, aos 40 anos, como a Primeira Ministra do primeiro governo parlamentarista do Brasil. Faz um governo ímpar, limpa o país da corrupção, tem 90% de aprovação. É quando dois policiais corruptos da Polícia Federal descobrem que ela é (foi) homem! E que é o filho da empregada da casa onde eles cresceram. Podem ficar milionários com a revelação. E agora?

     Todas essas mulheres não são apenas personagens auxiliares nesses livros de ficção. Elas são as grandes personagens heroicas e as detentoras reais do poder em todas as tramas. Das meninas prostitutas à sumo-sacerdotisa celta, da generosa e pura índia à benemérita Fumiko, é através dessas mulheres notáveis que eu homenageio na prática todas as mulheres, que, independente de títulos ou posições, são todas heroicas ‘per se’, por existirem e persistirem como mulheres num mundo que lhes é tão injusto e desigual.

  ‘Minhas’ mulheres são de todas as cores e de todos os ...sexos. São as donas das minhas letras, dos meus 365 dias de escritor.

 

domingo, 26 de dezembro de 2021

 UM MILAGRE DE NATAL  - conto 

MILTON MACIEL   

Lita e Carmen Lúcia eram mãe e filha. Lita, a mãe;  43 e 18 anos. O marido e pai deixara as duas há mais de 10 anos. Nunca mais deu notícias. Viviam da mão para a boca, numa pobreza de Jó, numa minúscula casinha alugada na periferia. 

Lita costurava para pequenas confecções e ateliês, Carmen Lúcia arranjava as costuras, buscava os tecidos, levava as peças prontas, o resto do tempo ajudava a mãe. Eram sós no mundo, nenhum parente em São Paulo, nada.

Uma manhã, quando voltava para casa com tecidos, Carmen Lúcia viu um rapaz com uma mochila bem no fundo do ônibus quase vazio. Ele tentava esconder que chorava. Carmen Lúcia era boa demais para ver aquilo e não fazer nada. Foi sentar ao lado do moço.

 Ao poucos conseguiu extrair dele sua história. Otávio. Estudava, pagava seus estudos e a pensão, o dinheiro que ganhava como garçom não dava para tudo. Acabava de ser mandado embora da pensão. A faculdade era muito cara, mas ele disse que preferia viver na rua a parar os estudos.

Quando chegaram ao ponto mais próximo à casinha delas, Carmen Lúcia fez o jovem descer com ela e levou-o até à mãe. Naquele mesmo dia o rapaz começou a morar com elas. Ele estudava de manhã e de tarde, trabalhava à noite todos os dias, sem descanso algum. Elas também não tinham descanso. 

Um dia, cinco meses depois, o rapaz chegou radiante: tinha conseguido transferência para uma faculdade em outra cidade, onde teria bolsa de estudos integral. Despediu-se, escreveram-se umas poucas cartas e, meses depois, quando elas tiveram que mudar de casa, perderam todo o contato.

A custo, Carmen Lúcia completou o colegial. Depois, não pôde seguir os estudos. O trabalho era muito, a paga era pouca, entravam madrugadas adentro. O aluguel subiu muito, a paga diminuiu ainda mais, precisaram trabalhar ainda mais. Tiverem que mudar várias vezes de casa, sempre para mais longe. Os anos passando, Lita não aguentou.

Seu coração fraquejou, foi internada às pressas  em um hospital público distante. Carmen Lúcia ficou com todo o fardo sozinha. O dia tinha só 24 horas, ela dormia só 3. Mas conseguia ir levando a vida, com a mãe sempre internada. 

Precisava transplante, estava na fila, muita a necessidade de cirurgia, pouca a esperança de consegui-la. A morte também esperava e, na fila dela, Lita tinha uma posição muito mais próxima do começo.

Carmen Lúcia só podia visitar a mãe uma vez por semana. Hospital muito longe, condução muito cara, mais caro ainda um dia quase inteiro sem trabalhar, sem ganhar. Sorriam-se as duas. Tentavam enganar uma à outra, como se pudessem ter esperança. Não tinham.

Um dia, era 24, véspera de Natal, a filha chegou e não encontrou a mãe na enfermaria. Entrou em pânico, mal conseguia respirar: o pior?!... Da última vez Lita estava tão fraca!...

Mas Lita estava viva. E estava na UTI. E estava bem, garantiu-lhe a enfermeira da UTI. E tinha um coração novo! Carmen Lúcia mal podia acreditar. Um milagre! Mas como? Milagres não acontecem com gente como elas, há muito desaprendera de acreditar neles.  Aí quis saber de tudo, a enfermeira chamou sua chefe, as duas tentaram explicar, em meio à excitação total da filha:

O hospital tinha mudanças importantes, um novo subdiretor assumira na semana passada, parece que vinha com as costas quentes, com mais poderes. Decidia as coisas muito rápido, arranjava recursos, remanejava todos os setores, um fenômeno!

– Veja o caso de sua mãe, por exemplo. Nem bem conversou com ela, o homem saiu da enfermaria feito um azougue, mandou fazer os preparativos para a cirurgia enquanto ele ia pessoalmente atrás de um coração. E, inacreditável, poucas horas depois tinha arranjado um. Sua mãe foi operada imediatamente. Por ele mesmo, que é cirurgião cardíaco. Ele vem várias vezes por dia ver a paciente. E agora que ela já pode, eles conversam e riem que nem velhos amigos, você não pode fazer ideia.

Carmen Lúcia recebeu permissão para entrar na UTI. Sua mãe não estava entubada. Estava recostada, podia falar normalmente. Recebeu a filha com um sorriso de júbilo. Carmen Lúcia se aproximou exultante, mas com medo de provocar uma emoção muito forte na mãe, tão violenta como a que estava sentindo.  Falou com cuidado, quase sussurrando:

– Mãe!... Mãe, um milagre, mãe! Um milagre...

– Foi ele, minha filha. Ele. Com a graça de Deus, ele me encontrou aqui, jogada naquela enfermaria. Foi ele, filha.

– Ele, quem, mãe? Ele quem?

Lita limitou-se a apontar o homem alto, de jaleco branco, que olhava sorridente da porta de entrada. O novo subdiretor, o cirurgião, o milagre!

Carmen Lúcia voltou-se para ver e, apesar da pequena barba loira, que era nova, o rosto lhe era extremamente familiar. Só conseguiu dizer:

– Sim, é ELE! É ele. Otávio!!!

O Dr. Otávio Magalhães continuava sorrindo, imóvel na porta, esparramando em cima de Carmen Lúcia um olhar enternecido. Sim, era ele, o moço do ônibus, o hóspede gratuito que dividira a miséria com elas por cinco longos meses.

Então o médico entrou, anunciou a Lita que amanhã ela deixaria a UTI, que iria para um quarto particular. Particular?! Mas quem iria pagar, se elas não podiam?

– Como, quem vai  pagar? Ora, já está tudo pago. Tudo isso e tudo o que ainda vier pela frente.

– Mas como? – quis saber Carmen Lúcia? Tudo pago, como?

– Tudo pago por cinco meses maravilhosos, os melhores da minha vida, que eu vivi na casa de vocês, filando a comida de vocês, recebendo a bondade de vocês. Eu, um completo estranho. Isso não tem preço, por mais que eu tente, nunca vou poder retribuir à altura.

– Ora, meu filho, que bobagem...

– Eu perdi o contato com vocês, quando consegui voltar aqui, depois de uns meses, vocês tinham se mudado. Procurei como um louco, mas nunca mais. E aí acontece essa coisa maravilhosa, de repente eu entro naquela enfermaria e o que vejo: o rosto da minha santa protetora. Isso sim é que é milagre.

Então ele avançou alguns passos, estacou em frente a Carmen Lúcia, tomou-lhe as mãos nas suas:

– E hoje o milagre está completo: além da minha santa protetora, aqui está o meu anjo salvador!

O médico retirou sua carteira do bolso, dela extraiu uma fotografia e uma mecha de cabelos castanhos, entregou-as à moça.

– Aqui estão, roubei do seu álbum, não tive coragem de pedir. Cortei o cabelo quando você estava dormindo. Durante estes anos todos, isso me manteve sempre conectado com vocês. Você, Carmen Lúcia, não saiu um só dia do meu pensamento. Estou solteiro até hoje porque sempre tive a esperança de reencontrá-la.

Completou-se o milagre de Natal!

Casaram-se três meses depois. Hoje Carmen Lúcia está a três meses de concluir a faculdade de Psicologia. E Lita, que mora com eles, toma conta do casal de netos. 

Máquina de costura? Nunca mais. O doutor não quer saber... Diz que faz muito mal para pessoas santas.

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

CONCEIÇÃO EVARISTO é a entrevistada de hoje no RODA VIVA

MILTON MACIEL

 Esta fofura aqui no meio da foto, ao lado dos escritores Maria Valeria Rezende e Milton Maciel, é CONCEIÇÃO EVARISTO, 74 aninhos bem vividos. Ela vai ser a entrevistada HOJE, daqui a pouco, às 22 hs, no programa RODA VIVA, da TV Cultura de São Paulo.

Esta menina nasceu e cresceu numa favela de Belo horizonte, cursou o ensino médio trabalhando como empregada doméstica, entrou para a faculdade de Letras somente aos 40 anos, já no Rio de Janeiro. Depois fez mestrado, doutorado e deixou de ser professora do ensino fundamental para tornar-se professora do ensino superior.

Começou a escrever: ensaio, poesia, conto, romance. Até que, em 2015, ganhou um Prêmio Jabuti. Tem livros publicados em inglês e francês.

Em 2018 candidatou-se à Academia Brasileira de Letras: teve 1 só voto – os imortais elegeram o cineasta Cacá Diegues.

Hoje, às 22 horas, você pode conhecer muito mais coisas sobre esta mulher admirável.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

 


O AUDIOLIVRO É MAIS QUE UMA OPÇÃO - é uma necessidade

MILTON MACIEL

O audiobook avança vertiginosamente sobre o campo do livro impresso e, em alguns casos, até sobre o campo do livro digital de leitura, o eBook. Por isso, ao publicarmos um livro, não podemos mais prescindir de sua forma áudio. Temos que publicar nas três versões: impresso, ebook e audiobook.

Quem não fizer isso, perde participação no mercado, até mesmo num país de avanços mais lentos como o Brasil. Cada vez mais as formas digitais avançam sobre a fatia do mercado antes ocupada somente pelo livro físico. Publicar um livro apenas na sua versão impressa pode ser uma perda de até 70% de um mercado potencialmente mais moderno, tal qual se configura após a pandemia.

Assim, se você é autor ou autora, considere seriamente gravar você mesmo(a) os seus livros - ou, ao menos, faze-los gravar e editar por terceiros. E mantenha as publicações em forma de impresso e de ebook também.


terça-feira, 31 de agosto de 2021

 O LASTRO SUBJACENTE DA ESCRITA: TEMA, simbolismo e premissa

Nem sempre de imediato perceptível pelo leitor (e, muitas vezes, pelo próprio escritor!) o TEMA que permeia uma obra de escrita é o seu grande norte, a bússola que impede que o criador se perca durante o longo e laborioso processo de criação. Aqui, uma série de vídeos da Escola Brasileira do Escritor leva o profissional e o aprendiz numa viagem pelos meandros mais ocultos e inconscientes do processo criativo na literatura.

terça-feira, 17 de agosto de 2021

 QUANDO TEREMOS A PRIMAVERA DE ANNE E FARIDA?

MILTON MACIEL

Senhores da Guerra, morte e escuridão
fazem-nos a Terra toda em cova rasa.
Enriquecem, vendem armas, ambição
que destrói, sem piedade, a humana casa.
E a monstruosidade racista da opressão
lança a bomba que a tudo em volta arrasa.

Contudo,
A primavera que Anne Frank sonhou em seu porão,
É a mesma que a menina Farida sonha em Gaza
 
Quando chegaremos a viver, menina Anne, menina Farida,
A Primavera que vocês sonharam e não tiveram nesta vida?

domingo, 11 de julho de 2021

 ET DIEU CRÉA LA FEMME   

(E Deus Criou a Mulher)
MILTON MACIEL 
                                                                            (Na Foto:Rachel Welch)



Estou me apropriando aqui do delicioso título do filme francês de Roger Vadin que, em 1956, catapultou a carreira de Brigitte Bardot e a inseriu para sempre na posição de grande símbolo sexual. Eu, molequinho de todo, não podia entrar no cinema, o filme era proibido para menores, é claro!

Mas o que me fascinava não era a Bardot (a foto aqui é da Rachel Welch!) Era o TÍTULO do filme! Sou de ascendência francesa por parte de pai (minha avó paterna era descendente direta de um marechal de Napoleão) e uruguaia por parte de mãe. Em casa eu falava três idiomas: espanhol, português e francês. E o francês me encantava. Então, quando li no cartaz do cinema aquele  ET DIEU CRÉA LA FEMME, fiquei extasiado. Por quê? Não tenho a menor idéia. Simplesmente bateu fundo. Vai ver bateu foi premonição, foi por causa do dia 8 de Março.  Então vou me apropriar desse título maravilhoso para homenagear uma maravilha  especial  da Criação: o ser humano de sexo feminino.

Então com licença, Vadin. Vamos lá:

Deus olhava contrafeito para aquele estranho boneco de argila a quem ele infundira vida horas atrás, com um sopro bem dado em suas narinas ainda ocluídas. O pneuma divino, abrindo-as, deu vida imediata à bizarra criatura. O Criador estava pensando que não fora uma boa idéia inspirar-se no macaco como modelo para sua criação. O resultado acabara ficando muito feio e muito peludo. E tivera que voltar várias vezes à etapa de produção, por causa de óbvios defeitos. Na última vez, porque ia escapando o rabo de macaco na nova criatura. Foi retirado a tempo, por inútil, segundos antes do sopro vivificador.

Copiando ora partes de um gorila, ora partes de um orangotango, o Criador foi fazendo sua escultura de barro, com evidente prazer. Adorava moldar criaturas e infundir-lhes vida depois. Teve o cuidado de corrigir um detalhe ainda: a bunda de orangotango, vermelha, tinha ficado horrorosa na nova criatura, trocou-a pela de um bonobo que passava ocasionalmente por ali. Ah, isso haveria de ser um problema depois! Pois veio junto o incrível apetite sexual dos bonobos. Mas, na hora, o Criador não se apercebeu disso.

Mas o tal ser, a quem ele resolveu classificar de HOMEM (Arcanjo Gabriel balançou a cabeça, detestando o nome: por ele, aquela aberração teria sido no máximo um princzalt, mas, afinal, o boneco era de Deus, paciência!), ficou com o gênio dos macacos também. Nem bem levantou do solo de criação, já começou a coçar a cabeça e reclamar de tudo: que o Paraíso era muito quente, que os outros bichos olhavam para ele com olhares esquisitos, que se sentia discriminado e perseguido, coisas assim. No segundo minuto entrou em crise existencial da braba: tinha acabado de ver um casal de pacas transando, teve compreensão instantânea do que aquilo significava e imediatamente sua porção bonobo se manifestou.

Foi assim que, mesmo estando só como manifestante, o homem realizou sua primeira passeata de protesto. Começou a caminhar pra lá e pra cá na frente dos arcanjos e de Deus, fazendo gestos que hoje seriam considerados obscenos, manifestando assim seu inconformismo com a ausência de uma fêmea para fazer com ela aquele animado ritual das pacas.

Deus confabulou com seus arcanjos e considerou seriamente desmontar aquele encrenqueiro imediatamente. Ora, era claro que ele ia criar uma fêmea da espécie também, afinal fazia-o sempre, criava-os aos casais, ora bolas! Mas resolveu ter um pouco mais de paciência e dar ainda uma chance ao grosseirão que tinha criado.

– Gamaliel, ponha o homem para dormir imediatamente com seu bafo. Vamos fazer uma fêmea para ele, mas eu vou usar um atalho, não estou mais a fim de trabalhar tanto de novo. Afinal já vem aí o sétimo dia e eu vou ser obrigado a descansar.

Arcanjo Gamaliel aproximou-se do bizarro peludo, escancarou a bocarra e deixou sair seu bafo mefítico, causado por uma incontrolável proliferação de tártaro angélico nos dentes amarelados. O bicho caiu duro no chão. Então os anjos operários, indivíduos de menor hierarquia, que ficavam com o trabalho sujo de limpar as galáxias, vieram apanhá-lo e o colocaram sobre uma pedra chata, que serviria de mesa cirúrgica.

Uma digressão aqui se impõe, tenham paciência os leitores e leitoras. É que os anjos estavam furiosos com seus superiores hierárquicos, cogitando entrar em greve e até a aliar-se com seu antigo colega Lúcifer. E a razão era mais do que compreensível: tinha acabado de entrar em vigor a nova lei criada por Arcanjo Assexuel: Daquela semana em diante ANJO NÃO TEM SEXO!  Isso foi, mais tarde, mal compreendido pelos humanos ignorantes. NÃO TEM aqui significa que NÃO PODE FAZER, não é que não tenha os órgãos competentes. O Senhor acabou dando força para a Lei daquele arcanjo sempre de mal com a vida, sempre a fim de, com o perdão da má palavra, infernizar a vida dos anjos seus subalternos. Em vão Arcanjo Sensuel tentou argumentar que aquilo criava um precedente perigoso, que a adoção do celibato e da castidade forçados ainda ia acabar acarretando sérios problemas entre os anjos. Mas não foi ouvido! De mais a mais, o sistema de governo ali não era uma democracia. O Patrão decidia, estava decidido!

Aí o Lúcifer liderou uma revolta e foi embora para Lanticiel, levando um monte de anjos e anjas com ele. E agora viviam fazendo as maiores orgias, para revolta e inveja dos anjos que tinham ficado no Céu. Estes foram obrigados, pelo mesmo azedo Assexuel, a abandonar seus instrumentos musicais favoritos, agora proscritos: cavaquinho, pandeiro, cuíca e agogô. E foram obrigados e começar a estudar Lira, uma terrível chatice.

Bem, digressão encerrada, voltemos ao homem anestesiado. Pois Deus resolveu cortar caminho, criando a fêmea para o encrenqueiro peludo sem rabo a partir de um pedaço do próprio corpo dele. O Senhor acabara de inventar a CLONAGEM e ia fazer sua primeira experiência. O duro foi decidir que parte do corpo ele retiraria. De início cogitou usar um daqueles ridículos ovinhos que estavam ali de fora, muito mais fácil de tirar. Mas a equipe argumentou que aquilo era para reprodução e, como era um alvo muito fácil para os animais predadores, por isso mesmo é que tinham sido criados em duplicata, quando da invenção dos macacos. Deus concordou. Seguiram-se momentos tensos de discussão, em que cada um defendia a retirada de uma parte diferente. Por fim Deus se impacientou e disse: uni-duni-tê-salamê-mim-güê. E assim, ao acaso, a escolhida foi a costela.

Aí foi rápido: costela retirada, fêmea criada. Mas ficou horrível: igualzinha ao macho encrenqueiro, inclusive nos pelos. Ora, o Criador achava aquilo muito  feio e resolveu que estava na hora de dar uns retoques pra valer e aperfeiçoar muito mais a criatura, antes de soprar-lhe vida. Mas que modelo copiar agora? Olhou longamente o bicho peludo deitado sobre a pedra, puxando o maior ronco e se sentiu um escultor fracassado. Mas mais um momento e todos se surpreenderam com a enorme gargalhada que Ele estava soltando.

– O que foi Senhor? – perguntou Arcanja Gabriela.

– Nada, nada minha filha. É que, para me distrair um pouco enquanto pensava, usei minha capacidade de tudo ver e fui rapidamente dar uma olhada no futuro dessa espécie. E até que não vai ficar tão ruim assim, esses pelos ridículos vão cair quase todos com o tempo. Mas o que me deu vontade de rir, foi que meus olhos caíram, ao acaso, num texto de revista desses humanos (depois eu explico o que é revista, agora não temos tempo) e ali estava escrito, assinado por um certo Millor Fernandes, o seguinte:

“Quando Deus leu que criou o homem à sua imagem e semelhança, Deus morreu de rir!”

Aí, lógico, todos explodiram na maior gargalhada, Gabriela teve um ataque de riso difícil de controlar, chegou a ficar sem fôlego, precisou um soprinho de Deus para ajudar. Imagine-se só, aquele bicho estranho, feio e desconjuntado ser a imagem de Deus!

Mas Deus voltou a seu problema: que modelo usar para aperfeiçoar a fêmea da espécie humana? Pensou, pensou, até que, de repente, sua atenção foi chamada por um diálogo em sussurros, o que é de todo inútil perto de quem tem clariaudiência absoluta. Deus ouviu:

– Não, Sapatiela, agora acabou! É fim mesmo. Eu me decidi a continuar no céu e vou me submeter à nova Lei de Assexuel. Acabou! Não tem sexo mais, desista! Foi bom enquanto durou, mas agora é fim!

Arcanja Sapatiela olhou Arcanja Gabriela, aspirando seu suave perfume de cravo (mastigava-o sempre, para não ter o horrível tártaro de Arcanjo Gamaliel), admirou sua cor de canela, suas suaves e generosas formas, cheias de curvas, onde seu olhos derrapavam inebriados. E consolou-se. Já que estava acabado mesmo, deu meia-volta e foi-se embora em passo acelerado. Se se apressasse, ainda pegaria o expresso das 5 horas para Lanticiel, em menos de duas horas estaria com a turma do divertido do Lúcifer. Isso se ainda pudesse comprar passagem para hoje! Desde a entrada em vigor da nova Lei, os expressos para Lanticiel partiam lotados de anjos e até dois arcanjos tinham sido vistos embarcando, disfarçados de anjos comuns.

Aquele rápido diálogo iluminou a mente do genial Criador. Era isso! Por que não pensara antes? Olhando atentamente para Arcanja Gabriela, Deus viu que ali estava o modelo perfeito para criar a MULHER (já tinha decidido classificá-la com esse nome e Arcanjo Gabriel o achara lindo!). Então o Celeste escultor e modelista pediu para Gabriela posar como modelo e começou o seu trabalho de correção das inúmeras imperfeições da boneca de costela. Começou por arredondar-lhe e suavizar-lhe as formas simiescas do rosto, até deixá-las idênticas às do rostinho perfeito de Gabriela. Aí mandou a própria Gabriela passar as mãos a uns cinco centímetros do corpo da mulher ainda sem vida e emitir aqueles raios azuis dos arcanjos e arcanjas. Perfeito, foi a primeira depilação da história celeste! Lá se foram todos os pelos do corpo da mulher. Exceto de uma pequena parte, porque Gabriela ficou com receio que passar a mão ali fosse considerado infração à nova Lei do Anjo Não Tem Sexo. Em compensação, ao olhar a horrível pelagem no alto da cabeça da boneca de costela, a própria Gabriela teve um lindo gesto de desprendimento: removeu de seus longos e perfumados cabelos uma madeixa inteira e aplicou-a na cabeça da boneca. Imediatamente a pelagem escura foi substituída por uma maravilhosa cabeleira idêntica à da arcanja. Deus adorou o gesto e o resultado!

Mas quando viraram a mulher para depilá-la do outro lado, foi que todos se deram conta do horror que era aquela abunda reta e peluda, igual à do macho. Os pelos foi fácil remover, mas a nova modelagem, inspirada nos glúteos esculturais de Arcanja Gabriela, levou muito tempo até que o Divino Escultor conseguisse reproduzir. Mas no fim, todos balançando a cabeça afirmativamente e se cumprimentando, realmente valeu a pena: uma perfeição de traseiro, lisinho, brilhante, cheio de beleza.

Como último detalhe, viraram a boneca de frente novamente e Deus começou a esculpir nela o busto perfeito de Gabriela. Foi preciso tirar muito material da cintura, que era tosca e larga como a do homem, para ter o que colocar no novo par de seios, lindos, torneados, muito mais volumosos que os mamilinhos de gorila fêmea que estavam antes ali. Mamilos foram deixados, é lógico, mas foram também torneados com extrema arte e delicadeza pelo Senhor.

No final, todos ficaram extasiados com a obra-prima do Criador. E Ele mais do que qualquer outro, é claro:

– Me superei! Melhor do que isso não consigo fazer nunca mais! Então declaro encerrada minha carreira de criador. É bom saber parar quando a gente está por cima! Amanhã é feriado, pessoal. Todo mundo descansar!

E DEUS CRIOU A MULHER! Não a partir do rústico macaco, mas a partir de um ser angélico perfeito: uma arcanja! Et Dieu Créa La Femme!

(Foto inicial: Rachel Welch, 1968) -  Ver outras fotos abaixo:




                                                                Ah, ela, Brigitte Bardot!


                                            (Na foto:EU, em 2 503.722 Antes de Cristo)