quarta-feira, 12 de junho de 2019

AS PESSOAS SÃO CONTAGIOSAS - 1: O CHATO
MILTON MACIEL

Pessoas, como os vírus e as bactérias, são altamente contagiosas. Se você ficar algum – não necessariamente muito – tempo exposto a certo tipo de gente, é absolutamente certo que você vai adoecer. Vejamos alguns exemplos: o Chato, o Crítico, o Tadinho, o Parasita, o Fanático, o Manipulador. Vamos começar com os mais fáceis de identificar, depois passamos aos mais ocultos e dissimulados, justamente aqueles que originam e espalham as piores epidemias. E acabamos com um que está tão escondido, mas tão escondido, que vive dentro de você.

Podemos dar a partida com o CHATO. Esse é um foco facilmente identificável e, depois de um certo tempo de atuação, todos tratam de se afastar dele o mais que podem. Mas acontece que nem todos podem. O Chato pode ser seu pai, seu irmão, sua filha, seu chefe, seu cônjuge, seu/sua colega de escritório. Nesse caso, você está exposto a doses diárias inevitáveis de chatice crônica concentrada, o que faz de você uma vítima potencial de alto risco.

O Chato acaba com o seu bom humor, a sua alegria de viver e trabalhar, é movido a picuinhas e pensamentos derrotistas. E é insistente como ninguém: nunca se cansa de ser chato! A praga da chatice, que ele propaga, é muito desagradável. Mas há chatos especializados, pessoas ainda mais contagiosas.

Vejamos o CRÍTICO, por exemplo. Esclareço que não falo aqui da pessoa que tem a profissão de crítico, avaliador de alguma coisa ou atividade humana. Falo do ser humano de temperamento hiper-crítico. Ah, agora temos aqui uma pessoa de mal com a vida e com o mundo, que ele vê com óculos de fundo de garrafa e lupa de detetive. Ambos de cor cinza-chumbo. O crítico é brevetado na arte de ver defeitos. Tudo para ele está errado, falho, incompleto. Tudo e TODOS, literalmente. O Crítico lembra um promotor que pudesse ter TPM, pedra no rim e úlcera gástrica, tudo ao mesmo tempo. Sempre ligado e atento, encontra perucas inteiras em um só ovo e tem um temperamento excelsamente sombrio.

Se você tem a infelicidade de estar frequentemente exposto um(a) crítico(a), você está condenado a adoecer seriamente. Essa criatura das sombras vai fazer o possível e o impossível para botar você para baixo, tão baixo quanto possível, no afã de atraí-lo para o nível amargurado em que ele vegeta. Nada do que você faz é bom o bastante, você é um candidato garantido ao fracasso, é inútil continuar se esforçando para acertar ou melhorar, é melhor que você pare e desista logo. E, quanto melhor você for, mais agudamente o(a) crítico(a) agirá sobre você com seu processo infeccioso, tratando de solapar-lhe a vitalidade e os êxitos já alcançados. Cuidado! O Crítico é altamente contagioso e o medicamento eficaz contra sua infecção é AUTO-CONFIANÇA, também receitado com o nome genérico de Amor-próprio.

Em resumo, o Crítico é um Chato que se especializou em fazer do mundo o lugar mais sombrio possível e dos seus habitantes uns míseros fracassados. Ou seja, já que ele não consegue, não realiza, não alcança, então você também não pode ousar.

Na sequência, vamos ter muitos outros tipos para examinar: o TADINHO (aquele que quer fazer você de penico do seu sofrimento e martírio eternos), o FANÁTICO (aquele da Bíblia de sovaco, que é o Chato que pega pagão a tapa), o PARASITA (aquele que acampa na sua vida e garante para si sustento e proteção perenes), o MANIPULADOR (insidiosíssimo tipo, que transforma você em marionete dele e você ainda se mata dando razão ao tipo). E outros mais, como veremos.

Contudo, o pior de todos é o criador da doença AUTO-IMUNE. Sim, porque, nesse caso, o criador do foco infeccioso maléfico É VOCÊ MESMO. Vamos ter que gastar um bocado de tinta escrevendo sobre isso!

Por hoje já chega. Mas procure estar alerta, trate de ser mais observador. Em algum lugar muito perto de você pode haver alguém sugando sua vida, sua grana, sua energia, sua amizade, sua boa-fé, seu entusiasmo, sua alegria, sua saúde. É, amigo(a): PESSOAS SÃO ALTAMENTE CONTAGIOSAS.

Ainda bem que existem algumas cujo contágio é benéfico, são boas bactérias com as quais podemos viver em simbiose, pois elas melhoram nossa vida. Há vários tipos também. Felizmente.

CONTINUA...

quinta-feira, 9 de maio de 2019


REVISTA ESCREVER No. 1Maio, 2019                   
Lançamento, disponibilidade e assinaturas

Prezados colegas escritores, professores e aprendizes de escrita; e todos os demais players da cadeia do livro e da cultura:

Nesta segunda-feira, dia 13 de maio, está sendo lançada nacionalmente em São Paulo a Revista ESCREVER, em edição impressa com 64 páginas em cores sobre papel couchê, com tiragem mensal.

A primeira revista destinada especificamente a essa faixa de leitores comprometidos com o mundo do livro é uma joint venture entre nossa editora no Brasil e parceiros portugueses; e tem acordos editoriais com autores, instrutores e revistas similares de outros países.

Na revista de maio/2019, você encontrará:

 
Apresentação
Palavra do editor
Sumário
TEMA DA EDIÇÃO: DIÁLOGO
            1) O personagem é o dialogo
            2) A comunicação oculta:
                        Subtexto. Silêncio.
Diálogo interno.
Comunicação verbal
ENTREVISTAS
Mary del Priore – Historiadora e autora de 51 livros de sucesso
Marcos Pedri – Diretor comercial do Grupo Livrarias Curitiba
Cássia Carrenho – diretora da LAB PUB, empresa de EAD com foco no mercado editorial
ARTIGOS
Ficção ou não ficção: quem paga as contas?
O fechamento de livrarias
Tudo o que precede a publicação
Plataforma do escritor
O que faz uma editora?
Machado de Assis era negro
O ovo do cuco (ou: Das delícias de escrever romance histórico)
Você é um planejador ou um intuitivo (um plotter ou um pantser)?
A psicologia da construção de mundo na ficção (de “The Writer”)
11 anos de Kindle: como vai o eBook?
SEÇÕES
Escrever.com: As matérias da revista impressa têm continuidade no site
Última flor do Lácio: Metáfora – Direito ou dever do escritor?
Agenda de eventos: Feiras, festas e bienais do livro em 2019
Marketing livreiro: Vender é que são elas!
Dica da redação: O Jornal Rascunho de maio
No próximo número de ESCREVER
Lançamentos
Ensino:
É possível ensinar alguém a escrever bem?
            Cursos para escritores

Uma explicação importante

Embora seja o editor responsável, não sou o dono exclusivo da revista. Nossos sócios portugueses não autorizam doações de exemplares, abrindo exceção exclusivamente para bibliotecas públicas.

A partir de 15 de maio a revista irá chegar às livrarias e bancas de revista do país, com o preço de capa de 18 reais. Caso sua livraria ou banca não a tenha recebido ainda, avise-nos pelo e-mail delphos09@yahoo.com e nós lhe indicaremos onde obtê-la.

Para assinantes o preço é de 12 reais apenas, com a comodidade de receber a revista em casa, sem gastar com estacionamento e garantindo prioridade por 6 meses. A assinatura é semestral e o valor é de 72 reais. Se você tiver interesse na assinatura, deve entrar em contato com T. Riechelmann, pelo e-mail delphos09@yahoo.comdelphos09@yahoo.com , para garantir sua reserva. Pagamentos podem ser feitos por cartão de crédito, débito, boleto ou depósito bancário. A partir do dia 15/05 as assinaturas poderão ser feitas diretamente no site www.revistaescrever.com , mas é altamente recomendável reservar antes por e-mail.

As revistas serão disponibilizadas nas livrarias e bancas e o site tornado acessível para leitura e assinaturas só a partir de 12 hs do dia 15 de maio.

Milton Maciel
Editor responsável
IDEL EDITORA
Revista ESCREVER
www.revistaescrever.com 
WhatsApp 47 9 9268 8610 – RevEscrever (Vivo)






terça-feira, 30 de abril de 2019

Revista ESCREVER
MILTON MACIEL

Lançamento nacional em 13 de maio. Informações e assinaturas: delphos09@yahoo.com

quarta-feira, 17 de abril de 2019

REVISTA ESCREVER
MILTON MACIEL

Vem aí, em maio, a Revista ESCREVER, a primeira publicação IMPRESSA periódica no Brasil destinada especificamente a escritores e aspirantes a escritores. E aos demais players envolvidos na cadeia do livro impresso e do e-book.

ESCREVER é um empreendimento da IDEL Editora, de São Paulo, em joint venture com parceiros portugueses. A editoria e redação final ficaram a cargo do escritor e editor brasileiro MILTON MACIEL.

A revista, com 60 páginas impressas em cores sobre papel couché,  chegará às livrarias e bancas mais importantes do país a partir de 13 de maio, ao preço de capa de 15 reais. (Pedidos e informações: delphos09@yahoo.com )

ESCREVER não é uma revista literária, é uma revista didática e de informação, nos mesmos moldes das congêneres norteamericanas Writer's Digest, The Writer, Writer's Forum, Writer's Journal, Poets and Writers e outras publicações com as quais temos acordos editoriais.

Assim, em nossas páginas aparecerão artigos de autores americanos e, nas de revistas deles, artigos nossos, de autores brasileiros. A primeira autora norteamericana publicada em ESCREVER é a novaiorquina GABRIELA PEREIRA, titular do sistema de ensino para escritores DIYMFA (Do It Yourself Master of Fine Arts), que se torna assim nossa colunista constante. Seu artigo "A psicologia da construção de mundo" (em tradução brasileira de J. Riechelmann) foi originalmente publicado na revista The Writer.

Para dar uma ideia do nosso atraso no tempo, a pioneira norteamericana The Writer teve seu primeiro número publicado em 1887 e está há 132 anos ininterruptos no mercado. A segunda, Writer's Digest, completa 100 anos no ano que vem. Já nós estamos partindo apenas para o nosso primeiro número no Brasil!

No edição de maio temos entrevistas com a historiadora e escritora MARY DEL PRIORE, com MARCOS PEDRI, diretor comercial do Grupo Livrarias Curitiba e com CASSIA CARRENHO, diretora do LAB PUB, de São Paulo, uma escola de EaD para o mercado livreiro.

E muito material de aprendizagem para os leitores, igualmente dividido em temas de Escrita Criativa e de publicação, marketing e comercialização de livros. Para nós, em ESCREVER, ensinar os caminhos para a publicação e a venda parece muito mais crucial e útil para os escritores do que restringirmos nossos esforços apenas ao aperfeiçoamento de escrita, embora tenhamos sempre um grande investimento nesta etapa da formação do escritor profissional. A matéria de fundo deste primeiro número é DIÁLOGO. Veja alguns dos temas na capa:



sexta-feira, 15 de março de 2019

AURÉLIO NÃO TEM BUCETA (que não é palavrão!)
MILTON  MACIEL
(Cap. 19 do livro 'COMO É CARO SER MULHER" - Milton Maciel, 3a. ed. IDEL, 2018, à pg 91)

Que Aurélio não tenha buceta pode parecer óbvio, pensarão muitos, por tratar-se, evidentemente de um homem. Mas não é a qualquer Aurélio que quero me referir aqui. É ao Buarque de Hollanda, o Pai dos Burros, o dicionário Aurélio. Esse Aurélio não tem  buceta porque a grafia correta, em idioma português, é boceta – com O.

Nós é que temos o costume de, ao falarmos, trocar muitas vezes o o pelo u, mormente se o coitado do o é a última letra: ensino vira ensinu, caderno vira cadernu, e assim por diante. Da mesma forma, bochecha vira buchecha, boceta vira buceta e por aí vai. Logar virou oficialmente lugar, inclusive. Com o tempo, o mesmo vai acontecer com a dita cuja.

Então fica comprovada minha primeira afirmação: Aurélio não tem buceta.

Vamos agora à segunda: Buceta não é palavrão; Aliás, também não é nome feio. Senão vejamos:

Para mim palavrão e anticonstitucionalissimamente, é oftalmotorrinolaringologista ou, pior ainda, a maior de todas as palavras registradas em dicionário de português (Houaiss) até hoje, a maior palavra de nosso idioma, um termo técnico com 46 letras, que descreve o portador de um tipo de silicose: 

pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico.

Pois o pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico é um coitado que desenvolveu uma silicose por inalar repetidamente fumaça com cinzas de vulcão. Vai ver cansou de cheirar pó, não fazia mais efeito.

Ora, convenhamos que pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico é mesmo um palavrão! Lembra até um daqueles enormes vocábulos que, em todo o planeta Terra, só podem existir em idioma Alemão – vocábulos que, para serem pronunciados até o fim, exigem que o pobre mortal tenha que parar para tomar fôlego pelo menos umas quatro vezes, se não quiser cair duro, roxo, cianótico ou, quiçá, até mesmo para-vulcanoconiótico.

Boceta é palavrinha, é pequena e é delicada, com 6 letrinhas, não tem a nada a ver com o gigantismo de um oftalmotorrinolaringologista, de pantagruélicas 28 letras, um inegável, um ineludível palavrão.

Por outro lado, o machismo dominante de nossa cultura pespegou-nos a peça de que boceta é nome feio. Discordo. Para mim nome feio é Valdicrêisson, Anderssocreitão, Um-Dois-Três-de-Oliveira-Quatro, Hermenengarda Filisbinda, até mesmo o inocente nissei T. Oku Kaganawara.

Já boceta é linda.  Tanto como inocente palavra, não afetada pelos machismos e falsos-moralismos da cultura hipócrita, quanto na sua estética exterior da parte física feminina, mormente quando envolvida por seus naturais pelos, capazes de esconder eventuais excessos. Aí ela é o Delta de Vênus e seu inconfundível formato de escuro triângulo tem inspirado os artistas pelos séculos sem fim.

Ora, é fundamento da Filosofia, na Estética, que “belo é aquilo que se deseja”. Pois se mais de 3 em cada 4 homens e mais de 1 em cada 4 mulheres passam a vida inteira atrás de um (ou vários!) Deltas de Vênus, como conceber que ele não seja lindo, se é assim tão desejado?

Boceta etimologicamente parece provir de bouceta, uma pequena bolsa ou caixa. Ou seja, é uma bolsinha. Em Portugal ainda é comum que se use a expressão Caixa de Pandora e, mais raramente, Boceta de Pandora, para designar o recipiente do qual Pandora deixou escapar todos os males que afligem a humanidade.

O mito grego de Pandora tem paralelo no de Eva e a Serpente, de origem sumeriana. Em ambos o mesmo nojento machismo dos religiosos da Antiguidade (não muito diferente do dos fanáticos religiosos de hoje) dá um jeito de colocar a culpa na mulher por todos os males humanos.

Quando Zeus (Júpiter, para os usurpadores romanos) empreendeu sua longa guerra contra seu pai Kronos (Saturno, para os romanos usurpadores), todos os Titãs, da mesma estirpe de Kronos, aliaram-se a ele. Com exceção de um só: o Titã Prometeu. Ele preferiu trair sua estirpe e manter-se aliado de Zeus, porque tinha o dom da profecia, sabia ver o futuro. E, nesse futuro, ele viu Zeus vencedor.

Quando isso de fato se concretizou, Zeus resolveu recompensar o aliado, dizendo-lhe para pedir o que bem entendesse. Ora, Prometeu o que fez, pegando o novel chefe dos deuses olímpicos pela palavra, foi pedir a Zeus que livrasse de punição a seu irmão Titã, Epimeteu. Zeus havia condenado todos os Titãs, exceto Kronos e Rea, seus pais, ao banimento para o Tártaro, nas entranhas da Terra (Gaia). Apanhado pela palavra, Zeus ficou furioso, pois queria de toda forma se vingar de Epimeteu.

Contudo, já que era forçado a perdoá-lo, arranjou outra forma de puni-lo. A forma foi ardilosa e... belíssima. Pois foi então criada uma mulher “artificial’ (o mito não é muito claro quanto a este artificialismo, posto que Pandora era uma perfeita mulher, uma obra prima de Hefesto). Essa mulher, de incrível beleza, foi oferecida por Zeus a Epimeteu como esposa, como prova de que não havia mais ressentimentos.

Só que Pandora chegou trazendo consigo uma boceta (é a outra!). Essa boceta de Pandora era um misterioso repositório, dentro do qual havia algo guardado que NUNCA poderia ser revelado. Ou seja, Pandora JAMAIS poderia abrir a boceta. O mito aproveita para aludir à proverbial curiosidade humana, é claro que a travestindo de curiosidade feminina. E o que acontece é que Pandora não resiste e, um dia, bem escondida, ela abre uma pontinha de sua boceta.

E aí acontece a desgraça, tal qual planejada por Zeus: de dentro da bolsa, (ou caixinha, ou vaso, conforme a versão) saem todos os males que vão afligir a humanidade: a intemperança, a ambição, a cobiça, os ciúmes, a velhice e a doença. Pandora fecha a boceta rapidamente e lá ainda fica a Esperança: a última que sai, por isso a última que morre.

Ou seja, deram um jeito de botar todas as culpas numa boceta (em duas, para sermos mais exatos) pelos males dos homens. Da mesma forma culparam a coitada da Eva de ser uma tapada, que é enganada pela Serpente (Lilith), cedendo – também por causa da curiosidade. Aí ela tentou o homem e o desgraçou, resultando daí a expulsão do Paraíso. Ou seja, a boceta é culpada pelos males dos paus!

Ah, sim podemos dizer pau, sem problemas. Afinal, isso é coisa de homem, é coisa de macho. Não é palavrão! Começa que tem só 3 letras. Depois, pau é pau; é pedaço de madeira, antes de mais nada. Nem pode ser arrolado como nome feio, veja só!

Então o establishment machista fixou a coisa assim: pau pode, boceta não pode. Pau não é nome feio, boceta é nome feio. Pau não é palavrão, boceta é palavrão. E o pior é que fizeram as mulheres acreditar nisso! Ou seja, os cretinos machistas, que foram os que impuseram isso, vivem correndo atrás delas, quando não vai por bem vai por mal, e elas têm que acreditar que a coisa é feia, que é palavrão, que é inferior. Pois o Freud não inventou até a tal da inveja do pau, veja se pode! E as histéricas, lembram? Hister= útero. Psicologia machista, um portento do início do século passado. Que depois evoluiu, é justo reconhecer.

Então está na hora de encerrar este texto. O Aurélio não tem, mas ainda vai ter, a língua evolui. Não é palavrão, nem é nome feio. Na verdade, é Delta de Vênus, tem a beleza do desejado, fora a beleza anatômica em si. Então que as mulheres tenham orgulho de suas bocetas e parem de falar aquilo alilá em baixoxana, xoxota, periquita, pixirica e outros substitutivos que são, de um modo geral, palavras menos bonitas e soam mais como desculpas por serem portadoras de uma.

E não precisa falar vulva. É um nome mais sem graça ainda. Boceta tem vulva e vagina, é completa e é digna. E é bonita, como uma criação perfeita de Deus que é. Chega de hipocrisia! Fim de papo!

"Como é caro ser mulher" - Milton Maciel - 3a. edição, IDEL 2018 - 200 pgs)
https://amzn.to/2FeD7F5


                                                                       PANDORA

sexta-feira, 8 de março de 2019


MEU 8 DE MARÇO É PERMANENTE
MILTON MACIEL

     Minha homenagem às mulheres não tem nada a ver com o 8 de março. Ela é PERMANENTE. Nos meus romances publicados, somente três têm homens como protagonistas: Jacques Rosen, de “A Guerra de Jacques”, que já ganhou versão em francês; João Ramalho, de “João Ramalho no paraíso” e Ataliba de “Ataliba um paulistano feliz”.
     Em todos os demais, como se pode ver na foto, protagonistas são sempre mulheres. Lolita, em “Lolita de Aracaju, a mais jovem dona de bordel do mundo”; Ritinha e Gabi/Iracema, em “A Espera e a Noivinha”, que foi reescrito para a Amazon como “Escravizada” – são meus romances sobre o tema da prostituição infantil.
     Vérica, Kina, e Alana são as sacerdotisas celtas que, junto com a belíssima Ilduara (na verdade um eunuco ostrogodo), são as protagonistas que resolvem as grandes batalhas na Gália, durante a invasão dos hunos.
     A franzina Aline de Troyes é a jovem guerreira gaulesa que salva um legião romana da destruição pelo ataque dos alamanos. Um dos personagens é o general romano Flavio Jovino, o fundador de Joinville, em 354 AD.
     Larissa, que só não foi Miss Universo porque não quis, desfila sua beleza e sua transformação em líder e prefeita durante as 1088 páginas de “Lua Oculta”, onde muita gente é eliminada por dois serial killers. A impressionante Gládis de Rios, bailarina de flamenco e instrutora de autodefesa feminina, é sua coadjuvante e seu ídolo.
     Em “Os reflexos do peixe brilhante” é a professora aposentada sessentona Dahlia Riechelmann que resolve o mistério de um assassinato em Pirabeiraba.
    “Doutora Fumiko” é a jovem médica que volta do Japão aos 23 anos para tentar a reconciliação com seu avô na cidade de Bastos, SP. Um amor que vence o Não e a vida exorta.
     “A Princesinha quer dançar” conta em versos de poesia infantil a saga da princesa Samantha, quando seu rabugento pai proíbe a música e a dança em todo o reino.
     E a maravilhosa Leocádia, a “Negra Leocádia”, uma escrava, é a protagonista de um romance histórico no Rio de Janeiro colonial. Onde luzem também Tiradentes e a inconfidência mineira. E a revolução que tornou o Haiti a segunda nação independente das Américas. Leocádia ainda não foi publicada. Por incrível que pareça, aguarda ser libertada pelos portugueses. Desta vez, editores. Outra hora eu explico.
     “A Bela morde a fera” é a versão em português do precioso ensaio “Beauty bites beast”, de Ellen Snortland, na qual participo como editor e como autor do capítulo final, “O machismo oculto”.
     E “Como é caro ser mulher” é meu ensaio de economia feminista, que escrevi nos Estados Unidos e depois adaptei para o Brasil. Está em processo de tradução para lançamento em inglês, voltando a seu país de nascimento.

     Lolita é paulista de Brotas, morena de cabelos castanhos.
     Ritinha é loirinha e Gabi/Iracema é uma índia amazonense.
     As sacerdotisas celtas são ruivas muito altas.
     Aline, da cidade gaulesa de Troyes, é franzina e castanha.
     A Miss Amarante Larissa Silva é loirinha, descendente de italianos de Santa Catarina.
     Nossa professora Dahlia Riechelmann, de esfiapados cabelos brancos, é descendente direta de alemães.
     A Doutora Fumiko é nissei, está na cara.
     A princesinha Samantha, branquinha e vegana, tem cabelos modernos de cor variável, depende do mês.
     “A bela morde a fera” é um ensaio, mas escolhi para sua capa uma bela e forte guerreira africana.
    E nossa Leocádia é preta, pretíssima, brasileiríssima, filha de escravos iorubás trazidos para Bahia, mas vendida na infância para um senhor do Rio de Janeiro.
     Para terminar, a bela loira de “O filho da empregada” é uma transexual. Um menino seminarista que foge do seminário para seguir seu amante padre. Quando este é abatido por grileiros de terras, o jovem vai para a Itália e faz operação para mudança de sexo. Retorna ao Brasil para graduar-se em duas faculdades e acabar, aos 40 anos, como a Primeira Ministra do primeiro governo parlamentarista do Brasil. Faz um governo ímpar, limpa o país da corrupção, tem 90% de aprovação. É quando dois policiais corruptos da Polícia Federal descobrem que ela é (foi) homem! E que é o filho da empregada da casa onde eles cresceram. Podem ficar milionários com a revelação. E agora?

Minhas mulheres são de todas as cores e de todos os ...sexos. São as donas das minhas letras.

8/3/2019 (MM)


quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A MENINA PROSTITUTA          
MILTON MACIEL

Av. Robert Kennedy, a beira-mar da praia de Ponta Verde, Maceió – 1999. O último de meus quatro anos em Alagoas, onde assumi uma Secretaria de Agricultura. Paro meu carro num sinal. Uma mãozinha pequena bate no vidro, do meu lado.

Dou esmolas por princípio, sempre tenho notas no carro para isso (Desde 2007 faço isso aqui em Miami também, onde – sinal dos novos tempos – não é mais incomum encontrar pedintes nos sinais: os homeless, os desempregados e os veteranos de guerra, geralmente com sérios problemas mentais).

É uma menina pequena, franzina. Ela bate no vidro e me faz um sinal que decodifico como sendo para eu parar: a mãozinha aberta, mostrando todos os dedos estendidos. Baixo o vidro, dou-lhe uma nota de 2 reais. Ela faz sinal com a cabeça que não. Então escuto a frase que vai mudar minha vida para sempre:

 – Tio, me queira. Por favor! Tô com fome... Eu cobro só CINCO.

Então a brutalidade da compreensão me entra mente adentro: a mãozinha espalmada mostrava o preço do programa: cinco reais! Cinco reais para vender seu corpinho que, vim a saber pouco depois, tinha só DEZ anos de vida!

Fecho-lhe então a pequena mão, agora com uma nota de dez dentro, e lhe digo, disfarçando o nó na garganta:

– Se você está com fome, vá comer. E levanto o vidro, restaurando o ar condicionado, para que ela entenda que não quero o programa.

O sinal abre enfim e eu a observo pelos dois retrovisores. Ela corre, pula, grita algo para o rapaz que atendia na barraca de praia ao lado do sinal. Meu espírito de escritor me faz parar bruscamente. Desço, falo com o guarda ali perto, peço-lhe cinco minutos de carro mal estacionado, é uma emergência. Ele concede.

Sento na barraca seguinte à da menina, meio escondido por uma coluna de madeira. Observo-a. Vejo que ela pede comida e refrigerante, vejo-a comer avidamente, desesperadamente. É verdade que estava com fome! Mas noto algo estranho também. Ela tem uma bolsa sobre o colo e, a cada vez que o rapaz atendente lhe volta as costas, ela joga algo, que parece com a comida que tem no prato, dentro da bolsa.

Prato esvaziado, garrafa também, a menina dá ao rapaz a nota de dez e espera pelo troco. Sai outra vez pulando, agora num pé só, como uma criança. Mas volta ao “ponto”. Param outros carros no sinal, ela anda pelo calçadão junto a eles, bate nos vidros outra vez. O terceiro carro que ela aborda, com sua mãozinha espalmada, abre-lhe a porta de trás. E ela entra, vai mais uma vez fazer seu trabalho humilhante, desesperado, sofrido, cruel.

Vou ao guarda, excedi em muito meus cinco minutos, explico-lhe francamente o que quero. Ele me dá uma força, diz para eu ir em frente. Então vou à barraca onde a garota comeu e converso com o rapaz. Peço-lhe que me informe sobre a menina. Por sorte ele havia prestado atenção quando ela me abordou e lembrava bem de mim, foi solícito.

Assim fiquei sabendo que a criança tinha só dez anos e que se “virava” naquele sinal umas três vezes por semana. Então perguntei ao moço se ele havia notado que ela jogava comida na bolsa sobre o colo, enquanto comia. Ele fez sinal que sim. Apresentei-lhe minha brilhante conclusão:

– Ela leva comida para comer mais tarde, não é? Só não sei por que o faz escondida.

 – Mais tarde o que, seu moço! Eu me viro de costas a toda hora porque ela tem vergonha, faço que não vejo. Mas ela leva comida é pros IRMÃOZINHOS dela. Tem mais quatro em casa e só ela é que garante a bóia pra todos. A mãe é variada, lesa das idéias, num sabe? Some no mundo e as crianças... Vixe!

Eu não podia saber, mas naquele momento estavam nascendo meus romances sobre prostituição infantil. No livro “A Espera e a Noivinha”, coloquei as mesmas palavras da menina de Maceió na boca de outra criança da mesma idade, Ritinha, com a cena ambientada na cidade de Barbalha, no Ceará, localidade que conheci quando, consultor do SEBRAE no Nordeste, dei consultoria a engenhos de açúcar em várias áreas rurais da região.

Nunca mais soube da menina, embora tenha passado a prestar muita atenção àquele sinal da Ponta Verde. Por alguma razão, ela mudou de ‘ponto’. Pouco depois acabou meu mandato e voltei para o Sul, desta vez não para São Paulo, mas para Santa Catarina. E foi ali, na praia da Enseada, em São Francisco do Sul, e em Joinville, que nasceram meus livros sobre a saga das meninas prostitutas em Sergipe, Alagoas, Ceará e nos garimpos do Pará. Dentro do gaúcho da fronteira que retornava ao Sul, vinha inteiro o Nordeste, que aprendi a respeitar e amar profundamente.

Mas eu estava inteiramente impregnado, indelevelmente marcado por uma mãozinha espalmada, sinalizando um preço absurdo em todos os sentidos. E por uma vozinha suave, tímida, quase sussurrada, inesquecível, que me disse:

 – Tio, me queira. Por favor! Tô com fome... Eu cobro só CINCO.

Bendita hora em que eu aprendi, anos antes, que devia dar esmolas! (MM) Miami, Fev 10 2012

NOTA ATUAL:
Hoje, passados exatos  20 anos desse evento seminal em minha vida, os livros "Lolita de Aracaju, a mais jovem dona de bordel do mundo", "A Espera e a Noivinha", "A Bela Morde a Fera, autodefesa feminina" e "Como é caro ser mulher!" marcam os efeitos da pequenina mão espalmada no vidro do meu carro. "A Espera e a Noivinha", reescrito, é hoje "Escravizada", meu best seller na Amazon. E "Como é caro ser mulher!", ao ser lançado em breve em inglês (How expensive to be a woman!) celebra, como uma efeméride, a lucidez que aquela mãozinha trouxe à minha mente: minha conversão à causa do feminismo, que havia começado em 1984, quando organizei em São paulo o evento "Uma Nova Mulher para uma nova era", tornou-se densa, sólida, concreta, persistente, assumindo a forma dos livros, seminários e treinamentos que venho produzindo ao longo destes anos. (MM)