sábado, 16 de maio de 2020

A  PEQUENA WANG LI  丽  
MILTON MACIEL

A pequena Wang Li empunhou com coragem o carrinho de mão. Pai tinha que trabalhar na lavoura de arroz. Mãe ainda tinha que ordenhar mais cabras. Mas o leite para entregar ao caminhão de Zhang Wei já estava ali no latão, quente dentro do carrinho.

Muito pesado para os seis anos de Wang Li! Muito longe para seus pezinhos, mais de um quilômetro empurrando aquele tambor de leite, a roda do carro de mão chafurdando no barro do caminho, época de chuvas. E de frio, muito frio. A pequena Wang Li largou o carrinho, soprou bafo quente em suas mãos duras de frio. Depois retomou a marcha, com o típico estoicismo que as crianças do campo aprendem com seus pais na China. 

Com as chuvas, o caminhão de Zhang Wei só podia chegar até aquele ponto tão distante. E ninguém mais podia levar o leite de Pai e Mãe para Zhang Wei vender. Só a pequena Wang Li. Consciente de sua importância no processo de ganha-pão da família, a garotinha apressou o passo e ainda conseguiu sorrir, apesar do esforço enorme que fazia. Pai ia ficar feliz com sua filha!

Foi quando passou pela beira do pequeno lago que viu a libélula. O animalzinho se debatia dentro d’água, batia as asas e as patinhas, de borco sobre a superfície. O coração de Wang Li apertou. A libélula parecia estar muito cansada. Ia morrer. Que dó! Tão bonita...

Não, o pequeno inseto não ia morrer! Não enquanto ela, Wang Li, estivesse ali. Apanhou um graveto, o maior que encontrou por perto, e se aproximou da água. Não, muito longe! A distância era três vezes maior que a altura dela. Já contando o graveto.

Então ela viu o pedaço de tronco boiando ali na beira. Wang Li não sabia nadar. Colocou os pés na água e ela estava gelo puro. Mas Wang Li achou que aprenderia a boiar com o pedaço de tronco. O lago era fundo. Mãe sempre dizia para ela ficar longe da beira. Mas agora ela não podia obedecer Mãe. O animalzinho ia morrer. E, assim como só ela podia levar o leite para Zhang Wei, só ela podia salvar a libélula agora.

E a pequena Wang Li entrou resoluta na água gelada. Perdeu o fôlego, se assustou porque afundava, mas agarrou-se com força no tronco que boiava. O tronco não afundou. Wang Li era muito pequena e muito magra, o tronco nem se deu conta que ela estava agarrada nele. E ela, intuitivamente, começou a mover suas pernas e o braço livre, precisava chegar na libélula antes que ela desistisse de viver.

Mas  Wang Li não tinha muita força nas pernas e nos braços. E não sabia o que fazer com eles, por isso demorou muito tempo até conseguir chegar onde estava o inseto. A pequena Wang Li não tinha força, mas era muito forte. Sua vontade era uma só e isso a fazia lutar sem parar: ela ia salvar a libélula!

E conseguiu chegar até ela, com o corpo todo quase congelando. Ela sentia muito frio, seus dentinhos batiam. Mas ela sabia que a libélula também sentia muito frio. E que a libélula só podia contar com Wang Li.

Os lábios roxos se abriram num sorriso, a mão direita mergulhou por baixo da libélula e a ergueu triunfante. Levou a mão perto da boca e começou a soprar bafo quente no bichinho. E a libélula começou a dar sinais que reagia, começou a mover suas asinhas com mais intensidade.

Wang Li pousou o inseto no tronco e começou a duríssima jornada de volta à margem. Não sentia mais as pontas do pés, as mãos estavam duras, o corpo todo tremia. E ainda tinha que cuidar para que o tronco não girasse, para não levar a libélula para a água de novo.

Quanto tempo ela persistiu no seu esforço sobre-humano, a pequena Wang Li não podia saber. Mas Wang Li era uma lutadora. E ela e sua libélula chegaram à margem. E saíram as duas da água! Ficaram ambas sobre a relva, exaustas, enregeladas, o tímido sol que ameaçava sair não as podia aquecer. 

Foi quando a pequena Wang Li ouviu o barulho do caminhão de Zhang Wei, lá longe na estrada. O caminhão parou, esperou um minuto e foi embora!

Não, Pai não ia ficar contente com sua filha. A pequena Wang Li tinha fracassado! O leite estava perdido, Zhang Wei só passaria ali depois de dois dias. Os lábios roxos da menina se abriram para deixar sair muitos soluços. Wang Li chorava. Pai ia ficar triste. Mãe ia ficar brava. Wang Li merecia castigo. Ficou com medo. Mãe ia castigar Wang Li. Se pudesse, não voltaria mais para casa.

Mas não podia. Tinha que voltar e contar a verdade. Suportar o castigo. Que Mãe batesse não importava tanto. Que Pai ficasse triste por causa do leite perdido, por causa do dinheiro que ia faltar... isso deixava Wang Li desesperada.

Colheu a libélula outra vez na mão direita, encobriu-a com a esquerda, fez uma concha, voltou a soprar bafo quente nela. Achou que ao menos a libélula devia estar contente. Wang Li ficaria muito contente também, se não tivesse que voltar para casa levando a terrível notícia.

Fez um esforço inacreditável, ergueu-se do chão. Então lembrou que o leite no latão ainda devia estar um tanto quente, saia fumegante das tetas das cabras. Tirou a tampa do latão com enorme dificuldade, muito dura para a pequena Wang Li. Mas ela não desistia nunca e acabou conseguindo girar a grande tampa. O vapor fumegante saiu de dentro do latão.

Wang Li mergulhou ali suas duas mãozinhas enregeladas e sentiu o calor maravilhoso a lhe devolver os movimentos. Depois fez concha com as mãos e começou a beber o leite morno. Achou que isso lhe daria mais forças.

Abaixou-se, apanhou a libélula que ainda não tinha forças para voar e a afastou do carrinho mais um pouco. Não queria molhá-la. Então voltou ao latão e começou a tirar com as mãos em concha o leite morno e a jogar sobre seu corpo gelado e sobre seus pés endurecidos. Ah, que sensação maravilhosa!

Quando achou que havia esvaziado muito mais da metade do latão, experimentou erguê-lo. Não tinha forças para isso, mas tinha que tentar... Conseguiu! E, então, começou a verter vagarosamente o resto do conteúdo do latão sobre o resto do seu pequeno corpo sofrido,a começar pelo alto da cabeça.

Minutos depois, a pequena Wang Li caminhava vagarosamente empurrando o carrinho de mão. Agora estava leve, todo o leite tinha sido derramado!

Toda molhada, suja de barro e leite da cabeça aos pés, o cabelinho liso de leite empastado, os pezinhos nus sem os chinelos perdidos no lago, a pequena Wang Li chegou em casa. Chorava muito.

Mãe a viu primeiro. Entendeu que o leite havia caído do carrinho de mão, que a filha havia feito algo muito errado. Mãe começou a gritar com a pequena Wang Li, que chorou ainda mais. 

Mãe pegou a fina vara de bater, a garotinha tremeu ainda mais.

Mas Pai chegou por causa dos gritos. Mandou Mãe parar. O que tinha acontecido?

A pequena Wang Li contou a verdade. Mãe tinha lhe ensinado que não se deve mentir, mesmo quando a gente fica com medo. Então Wang Li não mentiu. Mostrou o monte de folhas que havia juntado no carrinho, ali dentro delas a libélula estava protegida, ainda não queria voar.

Mãe ficou mais furiosa ainda. Filha desobediente, tinha entrado no lago perigoso! E tinha perdido todo o leite por causa de um mísero inseto. Pegou de novo a fina vara de surrar.

Pai arrancou a vara da mão de Mãe. Quebrou a vara. Abraçou a pequena Wang Li. Pai tinha lágrimas nos olhos. Sua filha podia ter morrido, isso o deixava agoniado. Mas sua filha tinha feito tudo aquilo para poder salvar uma vida, a vida de um serzinho indefeso que sofria e ia morrer. Isso o deixava emocionado. E orgulhoso, muito orgulhoso.

Sua pequena Wang Li era uma mulher de coragem e de compaixão! E de grande inteligência também. Pai mandou Mãe aquecer um monte de água, sua Wang Li agora ia ficar por muito tempo dentro da água morna, se limpar, se aquecer, parar de tremer para não ficar doente.

Mãe compreendeu que estava errada. Pela primeira vez na vida pediu perdão à pequena Wang Li. Correu para juntar a água e a lenha, ia ferver muitas panelas para sua filha. Pai pegou Wang Li no colo, pegou coberta, envolveu a menina colada nele, aqueceu-a com seu próprio calor, beijava-lhe os cabelos sujos de leite.

Wang Li estava feliz: Pai não estava triste! Pai não se importara com o leite perdido. Pai não deixara Mãe castigar Wang Li. Pai protegia e aquecia sua filha. Pai bom, Wang Li gostava muito de Pai. De Mãe também. Menos, porque Mãe muito gritona e nervosa, Mãe batia muito em Wang Li.

Mas Mãe veio e tirou Wang Li do colo de Pai. Levou-a para a grande tina de água quentinha. E lavou-a cuidadosamente. E desenredou seus longos cabelos negros e lisos. E abraçou sua filha, porque sabia agora que ela podia ter morrido no lago, afogada ou por causa da água gelada.

Mãe agradeceu em sua mente que Pai tivesse quebrado a vara. Não, sua Wang Li não merecia apanhar! Nem agora, nem nunca mais. Mãe tinha apanhado muito, muito, na infância, achava que era assim que se educava filha. Mas o sorriso surpreso de Wang Li, ali dentro da tina de água quente, lhe dizia que estivera errada. Ainda era tempo, tudo haveria de corrigir dentro de si mesma. Pai era um homem bom. Carinhoso, como mãe dele. Ela, Mãe, não sabia dar carinho, não tinha aprendido. Mas não ia mais ser bruta com sua menina.

Nesse momento, enquanto Mãe abraçava o corpinho de Wang Li dentro da tina, algo entrou pela fresta da janela.

Era a libélula, que tinha voado enfim. E voou ao encontro de sua salvadora. Pousou na beira da tina, depois no braço da menina. Ficou ali muito tempo, mexendo as asas lenta e ritmadamente.

E, enquanto duraram seus curtos dias de inseto, a libélula nunca mais se afastou daquela casa. Nunca mais se afastou de Wang Li.

terça-feira, 12 de maio de 2020


AFLUÊNCIA - Como o consumismo desenfreado erode nossas vidas. E mata mais em época de pandemia.
MILTON MACIEL 

Casas enormes, televisões cada vez maiores, mais carros ainda, rostos mais jovens a qualquer custo – estes objetivos são freneticamente perseguidos pelos workaholics de classe média. Ainda que, para lograr isso, tenham que se esfalfar (estranhamente SENTADOS* dezenas de horas por semana) em detrimento de sua saúde e de suas relações familiares.

Especialmente porque o nível de tensão é sempre mantido altíssimo, já que a maior parte das aquisições é conseguida através do uso do crédito, criando toda uma geração de devedores compulsivos estressados, eméritos e eternos pagadores de juros vitalícios.

Algo que é ainda mais tensionante para as mulheres que trabalham, uma vez que são obrigadas a gastar, ao longo de toda sua vida, duas a três vezes mais que os homens de sua mesma idade – porque sujeitas a custos muito mais elevados, causados pelo maior complexidade do organismo feminino (custos biológicos), pelo arsenal de consumo obrigatório de roupas, acessórios e produtos e serviços de beleza (custos comportamentais) e pelo denominado “imposto da vagina”, que impõe às mulheres preços mais elevados que os dos mesmíssimos produtos vendidos para homens (custos mercadológicos)**.

Isso numa sociedade onde as mulheres têm jornada dupla de trabalho, ganham menos do que os homens para fazer o mesmo trabalho e são, em 50% dos casos, as únicas que sustentam a família, é muito mais do tensionante – é cruel.

“Estudos conduzidos em diversos países mostram que se você coloca um alto valor nessas coisas, você está muito mais sujeito a sofrer de depressão, ansiedade, dependências e desordens de personalidade. Pessoas nos países de língua inglesa têm o dobro da possibilidade de desenvolverem doenças mentais do que as pessoas que vivem na Europa continental.

Cuidado com o vírus da AFLUÊNCIA! Uma epidemia de consumismo descuidado está varrendo o mundo com a perseguição compulsiva de mais dinheiro e mais posses, tornando as pessoas mais ricas e mais... tristes!”

Este é o aviso cabal dado pelo psicólogo inglês Oliver James, em seu best seller “AFFLUENZA”*** (Afluência, em português, com o significado de abundância, fartura). O nome faz trocadilho com o vírus da influenza (gripe) e a palavra inglesa para afluência, que é affluence.

“Nós ficamos mais viciados em ter do que em ser e passamos a confundir nossas necessidades com nossas vontades”, conclui o autor.

E este é o caminho garantido para a INFELICIDADE.


É também o caminho para nos transformarmos numa sociedade que não apenas vive e ´se mata´ no trabalho em busca da afluência, mas também uma sociedade que literalmente se mata durante processo, porque de fato MORRE por causa da afluência.
Mesmo em tempos de pandemias, quando as moléstias infecciosas voltam a ter participação sensível no número de óbitos totais, ainda assim as chamadas “doenças da civilização” ou “moléstias da afluência” seguem sendo aquelas que mais matam no mundo. Doença cardiovascular, hipertensão, obesidade, intolerância à glicose, diabetes, dislipidemia e câncer seguem sendo os grandes aflitores e maior preocupação para as autoridades mundiais da saúde.

MOLÉSTIAS DA AFLUÊNCIA E COVID-19

As doenças acima citadas estão na base daquilo que torna agora os infectados pelo coronavírus particularmente suscetíveis ao desenvolvimento de casos críticos e fatais. Análises feitas com 5 700 casos de internação em Nova Iorque**** revelaram que as ditas COMORBIDADES  são exatamente as citadas acima: hipertensão, obesidade, síndrome metabólica, resistência à insulina, diabetes e doença cardiovascular prévia puxando o trágico cordão. Basicamente doenças metabólicas, resultantes de uma alimentação errada e excessiva e de uma sedentariedade cada vez mais patológica.

Ter uma ou mais dessas moléstias da afluência dobra a possibilidade de internações e mortes em pessoas com menos de 60 anos. E 88% dos pacientes internados, mostra o estudo, tinham pelo menos DUAS dessas comorbidades ao mesmo tempo.
Constatou-se que níveis elevados de glicose no sangue desempenham um papel importante na replicação do vírus e no desenvolvimento das tempestades de citocina.
Isso sem falar que já está comprovado que a obesidade é um fator de risco para qualquer moléstia infecciosa, pois faz baixar o nível geral de imunidade da pessoa.
É, amigo, cuidado! Afluência mata e pode matar um pouco mais agora.

REFERÊNCIAS
* Livro “SITTING KILLS, MOVING HEALS”, Dra. Joana Vernikos, pesquisadora e treinadora de astronautas da NASA - How modern sedentary lifestyles contribute to poor health, obesity, and diabetes, and how health can be dramatically improved by continuous, low-intensity, movement that challenges the force of gravity. 

** Livro “COMO É CARO SER MULHER!”, Milton Maciel - Custos biológicos, sociais e mercadológicos como barreiras à independência econômica das mulheres

*** Livro “AFFLUENZA”, Dr. Oliver Jones - There is currently an epidemic of 'affluenza' throughout the world - an obsessive, envious, keeping-up-with-the-Joneses - that has resulted in huge increases in depression and anxiety among millions.

**** High prevalence of obesity in severe respiratory syndrome coronavirus-2 requiring invasive mechanical ventilation - https://onlinelibrary.wiley.com/doi/epdf/10.1002/oby.22831

ERRAVA  EU  
MILTON  MACIEL  

domingo, 10 de maio de 2020

DANTE'S PRAYER
Loreena Mckennit

When the dark wood fell before me
And all the paths were overgrown When the priests of pride say there is no other way I tilled the sorrows of stone I did not believe because I could not see Though you came to me in the night When the dawn seemed forever lost You showed me your love in the light of the stars Cast your eyes on the ocean Cast your soul to the sea When the dark night seems endless Please remember me Then the mountain rose before me By the deep well of desire From the fountain of forgiveness Beyond the ice and fire Cast your eyes on the ocean Cast your soul to the sea When the dark night seems endless Please remember me Though we share this humble path, alone How fragile is the heart Oh give these clay feet wings to fly To touch the face of the stars Breathe life into this feeble heart Lift this mortal veil of fear Take these crumbled hopes, etched with tears We'll rise above these earthly cares Cast your eyes on the ocean Cast your soul to the sea When the dark night seems endless Please remember me Please remember me

segunda-feira, 27 de abril de 2020


COVID-19: UMA COMPARAÇÃO ENTRE BRASIL E RÚSSIA EM 27/04
MILTON MACIEL

Escolhi a Rússia por ter uma população só 30% menor que a do Brasil. E por terem os dois países apresentado o primeiro óbito no mesmo dia - 17 de março.

  Esta comparação serve para comprovar duas coisas:

1) QUE O CALOR SOZINHO NÃO PROTEGE NINGUÉM
A propagação começou no inverno russo e no verão brasileiro. E, aqui, é menor no Sul mais frio do que no Norte/Nordeste mais quente.

2) QUE O BRASIL TEM UMA ENORME SUBNOTIFICAÇÃO POR FALTA DE TESTES
O número de casos aqui é muitíssimo maior do que o relatado diariamente. Só isso pode justificar tanta letalidade no Brasil.

Embora não apareça nas estatísticas oficiais brasileiras, O número de casos é muito maior no Brasil do que na Rússia. É por isso que a letalidade parece tão mais alta aqui. Se trabalhássemos com números reais, mais altos, para os casos confirmados, ela seria menor e mais próxima à da Rússia.

TESTES SALVAM VIDAS

POR OUTRO LADO, a assistência médica russa não é assim tão superior à brasileira a ponto de conseguir salvar muito mais pacientes depois que eles são internados em UTIs, pois são seguidos os mesmos protocolos, com os mesmos tipos de equipamentos.

O que acontece é que, como na Alemanha e na Coreia do Sul, um grande número de testes permite separar e direcionar ou o isolamento ou o tratamento hospitalar de pacientes em fase ainda pré-crítica, o que controla a transmissibilidade e dá maior eficiência ao tratamento hospitalar. É ISSO O QUE SALVA MAIS VIDAS!

A Rússia faz mais TESTES POR MILHÃO DE HABITANTES do que os próprios Estados Unidos:

RÚSSIA – 21 000   EUA – 17 000   ALEMANHA – 25 000   BRASIL – 1 400 !!!!

LETALIDADE = Número de mortes dividido por número de casos confirmados:

RÚSSIA: 1BRASIL: 7 EUA: 6

MORTES POR MILHÃO DE HABITANTES:

RÚSSIA: 5 – BRASIL: 20 –  EUA: 170




sexta-feira, 24 de abril de 2020


PANDEMIA NÃO PASSA COM O PICO. ELA CONTINUA.  
MILTON MACIEL

Uma pandemia não ACABA quando a transmissão chega ao PICO. Ela apenas atinge o máximo. Daí em diante a curva começa a declinar MAIS LENTAMENTE do que subiu. É um fenômeno chamado HISTERESE epidemiológica, que se dá quando o sistema reage e muda seu comportamento face ao infectante.

Como aconteceu em 2009, com a pandemia de influenza H1N1 (gripe suína) e acontece em 2020 com a atual de Covid-19, com o uso de máscaras, higienização de mãos e roupas, fechamento dos negócios, transporte público e isolamento da população, a curva de contaminação sobe mais lentamente no início, o chamado achatamento, quando comparada a uma distribuição normal – com a diferença que, neste caso, o pico pode ser atingido com um número dezenas de vezes maior de casos.

   Uma vez atingido o pico, contudo, com a progressiva liberação do confinamento e maior exposição das pessoas, a curva de contágio não declina tão rapidamente como subiu, retardando a volta à plena normalidade.

Se a liberação não for conduzida tecnicamente, baseada em testes rigorosos suficientes, a curva prolonga-se ainda mais, podendo acontecer novos picos de reinfestação, o que pode forçar novos episódios de distanciamento social.



quarta-feira, 22 de abril de 2020

ENTENDENDO COVID-19: SANTA CATARINA x SÃO PAULO
MILTON MACIEL


É mais do que evidente que quanto maior é a população de um lugar e quanto maior a sua densidade demográfica, maior a facilidade para a propagação de moléstias infectocontagiosas.  
Estabeleço aqui uma elementar comparação entre as condições de Santa Catarina e São Paulo, para que as pessoas entendam como o fato de a população catarinense ser pequena e esparsa beneficia muito Santa Catarina em termos de COVID-19.
Para sua grande sorte nesta hora crucial, Santa Catarina não tem nenhuma metrópole grande. Sua maior cidade, Joinville, é apenas uma cidade média, com 600 mil habitantes, população igual à do bairro paulistano Grajaú. A capital, Florianópolis, com 500 mil habitantes, só tem população maior que as capitais Rio Branco (AC), Boa Vista (RR), Vitória (ES) e Palmas (TO). Joinville supera, além dessas cinco, só as capitais Porto Velho (RO) e Macapá (AP).
E na hora da COVID-19 isso conta muita a favor, assim como conta muito a melhor renda per capita e a melhor estrutura de serviços médicos da Região Sul. Nesta, Santa Catarina tem a pior posição em número de mortes por milhão de habitantes, atrás de Paraná e Rio Grande do Sul.
As situações mais dramáticas neste momento são vividas pelas megalópoles das Regiões Metropolitanas de São Paulo e do Rio de Janeiro. E por regiões densamente povoadas, como a Grande Manaus (2,4 milhões de habitantes), a Grande Belém (2,1 milhões), Grande Recife (1,9 milhões) e Grande Fortaleza (4,0 milhões). Estas são Regiões Metropolitanas com estoques de estrutura de serviços de saúde escassos para enfrentar uma moléstia de propagação tão explosiva.
São Paulo, capital, tem, numa área de apenas 1 500 km2,12 milhões de habitantes, uma população maior que a de todo o estado do Paraná, que tem 200 000 km2 de área. Uma enorme densidade demográfica, com favelas intersticiais e periferias de baixa renda e más condições sanitárias.
Assim, desde que em Santa Catarina se tomem todos os cuidados – ainda mais em Florianópolis – para evitar facilitar a transmissão, uma fase de relaxamento da quarentena pode ser conduzida tecnicamente. O maior problema para isso é a evidente subnotificação pela exígua aplicação de testes específicos até agora – e no horizonte imediato; testes sem os quais não há segurança no processo de liberação, ficando sempre um risco elevado de ter que voltar a quarentenar algumas localidades, enfrentando novas mortes e novos entraves econômicos.
Basta observar a figura para ver que São Paulo, Rio e as outras regiões metropolitanas citadas acima não poderão fazer a mesma coisa tão cedo.
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