domingo, 11 de fevereiro de 2018

UM QUASE-SOL 
MILTON MACIEL

Um quase-sol semidesmaia no horizonte,
Por trás de nuvens ralas, baixas, descabidas.
E um céu cinzento obscurece minha fronte,
Levando a doer, ainda mais, minhas feridas.

Em cada nuvem esboçada pelo vento,
Eu sempre acabo por prever sua figura.
Sou só saudade, só névoa, ressentimento,
Um triste amante a afundar-se em amargura.

No contraponto das esperanças perdidas,
Eu desespero e pressinto, em plena agrura,
Você inconstante, como as nuvens esbatidas.

No meu futuro vejo só agonia pura:
O sobressalto de suas voltas e partidas
E o insano amor que por você em mim perdura.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018


A MORTE MORA AO LADO
MILTON MACIEL
Capítulo V do livro  GUERRA DE JACQUES, de M. Maciel, Daniel e João C. Miedzinski.

          Quando o bombardeio cessou por completo, os caminhões retomaram sua marcha e se dirigiram, cada um, ao seu respectivo destino. Dentre as centenas de prisioneiros recém-chegados a Essen, alguns grupos foram levados para campos de trabalho, enquanto que outros partiram para descarregar sua carga humana em campos de concentração adjacentes. Os veículos com os franceses, um total de seis caminhões com cerca de duas centenas de trabalhadores “voluntários”, tiveram destino diferente. Foram levados para um alojamento precário, porém melhor que os campos de concentração. Seriam instalados num antigo galpão industrial, nas imediações de uma das aciarias da Krupp.
           Ao redor do alojamento, no amplo terreno, Jacques pôde ver as altas cercas de arame farpado, feitas de fios muito grossos e muito próximos uns dos outros. Havia diversas torres de vigia, do alto das quais os guardas armados de fuzis e metralhadores ficavam o tempo todo em vigilância, com o apoio de potentes holofotes que varriam toda a instalação. Do lado de fora das cercas, pequenos destacamentos de soldados revezavam-se em marcha normal. Provavelmente qualquer tentativa de fuga resultaria em morte imediata para os incautos.            
         Ao chegar, os homens foram levados para seus dormitórios coletivos, que tinham lugar para trinta camas cada um. Deixaram sobre elas as suas trouxas, com seus escassos pertences, e foram encaminhados para os chuveiros de água fria, onde puderam banhar-se finalmente, o que agradou bastante a Jacques, mas não teve o mesmo efeito sobre muitos dos franceses. Passaram então para um amplo refeitório onde devoraram, famintos que estavam, a insossa comida alemã com a qual teriam que se acostumar dali em diante.

         – Grand Dieu! – exclamou Luc Trintignant, indignado – Isso é lavagem de porcos!
          Jacques lembrou-se do que tinha compreendido horas atrás, conversando no caminhão com o Tenente Schadeck, e respondeu ao francês:
          – Mas nós, os porcos, vamos poder comer o suficiente todos os dias, Luc. Agradeça. Os outros, nos campos de concentração aqui perto, vão passar fome, ganhar migalhas até morrer. Pelo menos a gente vai poder sobreviver. Pense nisso. Coma essa comida como se fosse a ambrosia dos deuses, pois vai ser a diferença entre a vida e a morte para nós. Pode ter certeza.
           Luc baixou a cabeça e começou a comer lentamente, as lágrimas caindo grossas de seus olhos sobre o prato.... Enquanto comia, Jacques se lembrava da comida que era servida no restaurante em que trabalhava em Bruxelas. Mas, como ele próprio dissera sempre: “guerra é guerra”.

          Logo depois da magra refeição que lhes foi servida, todos foram conduzidos para os dormitórios e se deitaram imediatamente, pois já era muito tarde e o dia havia sido longo e extenuante. As luzes foram apagadas e quase não houve conversa, poucos estavam inclinados a falar alguma coisa. Finalmente começavam a tomar consciência da realidade desesperadora da situação em que se encontravam. 
         Ainda no início daquele dia, eram cidadãos livres em seus respectivos países. Tinham seus trabalhos, suas famílias, seus amores, suas esperanças. Menos de 24 horas depois, haviam se tornado escravos condenados ao trabalho forçado em uma terra estrangeira, sob o jugo perigoso de soldados inimigos, expostos aos bombardeios dos aviões aliados, que os poderiam exterminar como insetos de um momento para o outro.   
           Naquela noite quase ninguém teve sono, por maior que fosse o cansaço, Jacques percebeu. Com mais de vinte homens a seu redor, cada um daqueles míseros prisioneiros estava se sentindo completamente sozinho, ilhado, perdido. Não havia sequer com quem confidenciar seu pesar. O companheiro do leito ao lado finava-se no mesmo sofrimento, esvaía-se na mesma dor. Pela madrugada adentro ouviu-se um murmurar sem fim, dezenas de pessoas se revirando nas camas, suspiros, gemidos e, por mais que tentassem escondê-lo, o choro engolido de muitos daqueles homens acabou sendo ouvido por quase todos.  

          Jacques também mergulhou na angústia de sua própria situação, em tudo similar à dos franceses. Mas, ao mesmo tempo, sabia que possuía algo que o deixava em uma posição um pouco melhor que as dos outros. Em primeiro lugar, ele era o tradutor do grupo. Os alemães precisavam dele para se comunicar com os franceses e com os poucos técnicos holandeses, que tinham sido praticamente raptados da fábrica de lâmpadas em seu país. E os prisioneiros também precisavam dele, o que o fazia naturalmente o porta-voz de todos eles ante os nazistas. E isso significava certamente uma posição de maior segurança para ele. E também detinha uma certa ascendência sobre eles e sobre os próprios alemães.
          Saberia se comportar como um representante dos oprimidos, ao mesmo tempo que se esforçaria para manter a melhor relação possível com os opressores. Naquele momento, percebia que se representasse bem o seu papel, não só a sua situação seria privilegiada, mas, principalmente, ele poderia de várias formas procurar minorar os seus sofrimentos e os de seus colegas franceses e holandeses. Em segundo lugar, tinha algo ainda mais importante, algo que nem os alemães com suas metralhadoras, nem os aliados, com suas bombas poderiam tirar-lhe jamais.

          Tinha o seu amor por Marie Louise. Isso o fazia diferente. E forte! Sim, porque isso lhe dava uma razão enorme para ficar vivo e voltar para casa.  Ali, imóvel em sua cama, de olhos abertos no escuro, foi sentindo sua tensão diminuir, enquanto monologava: 

Não, não importa se eu tenho o amor dela ou não. É possível que o tenha, quem sabe. Mas o importante é o amor que eu tenho por ela. É esse amor que me faz querer continuar vivo e resistir a qualquer desgaste ou sacrifício

Lembrou-se de um trecho de um poema, sem lembrar quem era o autor:

"Para que saber se amado sou ou não,
se o que conta é somente o amor que eu sinto,
que me guia como um fio num labirinto
que extrapola a própria lógica e a razão.

É um amor imune ao Tempo que se arrasta,
É um amor que vence o Não e a Vida exorta.           
“Sou amado? Sim. Talvez. Ou não. Que importa? 
Que importa, seu EU amo, isso é tudo o que me basta." 

"Que importa a distância. 
Se para ter você aqui é só fechar os olhos. 
Então vejo seu rosto, vejo você inteira. 
E sinto até o seu perfume”.

A lembrança e a compreensão do significado do poema o fizeram ainda mais forte:
Não, não estou só, eu tenho você aqui comigo. Dentro de mim. Então que venha a Alemanha, que venha Essen, que venha a Krupp e o que mais vier. Eu sobreviverei! E voltarei para você. Então nada mais poderá nos separar. Vamos viver juntos pelo resto das nossas vidas. Eu juro!

          A doce lembrança da figura serena de Marie Louise a envolvê-lo, seus olhos de um azul intenso, seus cabelos castanho-dourados, seu perfume de rosas, a certeza de que algum dia voltaria para ela, infundiram-lhe uma tal serenidade, uma calma tão grande, que Jacques foi o primeiro naquele alojamento a dormir profundamente até que o toque estridente da corneta os despertasse a todos, às 5 horas da manhã do dia seguinte. O primeiro dia de trabalho em seu cativeiro.
          Estavam todos no refeitório, para o café da manhã, quando ouviram o matraquear muito próximo de uma metralhadora. Muitos chegaram a se assustar. A maior parte deles, no entanto, apenas olhou para os lados, interrogativa. Depois do brutal batismo de fogo do bombardeio na noite anterior, o pipocar de metralhadora parecia, de fato, muito pouco. Mas o cozinheiro, que ajudava servir e controlar as mesas, explicou para Jacques, que sabia ser o único a entender alemão:
          – É no campo de concentração, aqui ao lado. Mais um infeliz foi executado, com certeza. Vocês não sabem a sorte que têm, estando aqui neste acampamento. Vocês são material de interesse de Herr Von Krupp, estão mais protegidos. Os outros, no campo ao lado, vão morrendo pouco a pouco como insetos que são exterminados.
          – Muitos? – arriscou Jacques.
       – Quase todos, intérprete. É só uma questão de tempo. Pouco tempo, aliás. Esses aí não trabalham em coisas que exijam muita inteligência ou formação. Fazem só trabalho braçal nas tarefas do campo. Junto com eles tem outros que vieram apenas para serem eliminados. São alemães dissidentes do regime, comunistas, ciganos, homossexuais e também russos e judeus. Principalmente judeus. Todos são considerados raças inferiores. Portanto, não se assustem com tiroteios do lado de lá da cerca. Não são tiroteios, são fuzilamentos. Volta e meia um pobre diabo dá adeus a esta vida e se livra do pior, que é viver ali.
          – E é verdade que a comida deles é muito pouca?
     – Pouca? É quase nada, belga, rações mínimas. É tudo pensado para debilitar os caras e economizar o dinheiro do Reich. E a qualidade então! Vocês podem se queixar aqui da minha comida, mas isto aqui é um restaurante de luxo perto do que dão para aqueles lá.
          Quando se levantaram para sair para a fábrica, Jacques conseguiu dar uma rápida olhada pela ampla janela do refeitório. Lá embaixo, a cerca de setenta metros de distância do alojamento, divisou o sinistro campo de concentração a que se referiu o cozinheiro. Este tipo de instalação era bastante comentado na Bélgica, mas poucos conheciam o seu funcionamento e as atrocidades que nele se perpetravam. Era constituído por conjuntos de dezenas de barracões enormes e compridos, que pareciam ter sido construídos apenas com tábuas, rapidamente e de forma provisória, do modo mais precário possível.
          Ficava em meio a um enorme campo cercado por fios de arame farpado; e estava todo enlameado em razão da chuva e da neve derretida de início de inverno. A cada 50 metros era encimado por altas torres de observação, munidas de potentes holofotes e com guardas armados apontando suas metralhadoras para baixo. Cada bloco parecia ter uma dimensão suficiente para abrigar uns 150 detentos. E, ao que parecia, não deveria haver mais de uma latrina para os detentos de cada bloco, havendo apenas a pequena casinha instalada em uma extremidade.

          Naquele local de sinistro aspecto, grupos de homens com uniformes listrados, com números às suas costas ao invés de nomes, marchavam lentamente, tangidos por guardas também armados de metralhadoras, acompanhados por cães pastores alemães aparentemente nada amistosos. Os judeus do campo eram facilmente reconhecíveis, pois portavam um triângulo amarelo que os identificava claramente. A intenção de todo este esquema não podia ser mais explícita! Então aqueles eram alguns dos “pobres diabos” mencionados pelo cozinheiro. Comparado com o que havia visto no campo ao lado, o alojamento onde estavam parecia um hotel cinco estrelas!  Que Deus ajudasse seus companheiros judeus do trem para que não os tivessem mandado para algo semelhante.

A GUERRA DE JACQUES - 408 pg. Idel, Dez 2017. Disponível nas grandes redes:
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terça-feira, 16 de janeiro de 2018

A KRUPP E A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL
MILTON MACIEL


Jacques Rosen, protagonista do romance “A GUERRA DE JACQUES”, era “O Belga”, um dentre os milhares de prisioneiros usados pelos nazistas como escravos na Alemanha e países ocupados, durante a Segunda Guerra Mundial. Jacques foi levado para a cidade alemã de Essen, para trabalhar na grande siderúrgica Krupp. Ali serviu como tradutor e intérprete, uma vez que falava fluentemente o francês, o alemão e o flamengo. Sem qualquer remuneração, evidentemente.

A Krupp era a maior empresa do seu ramo na Europa, sendo dona de minas e fábricas em dezenas de países. Mas sua sede, seu lugar de fundação, foi a cidade de Essen. Ali a Krupp surgiu em 1811, pelas mãos de Friedrich Krupp, como uma pequena fundição com 4 empregados. 76 anos depois, quando Alfred Krupp, filho e sucessor de Friedrich faleceu, em 1887, a Krupp tinha já 20 mil funcionários!

Todo esse grande progresso deveu-se ao desenvolvimento de aros de roda inteiriços para trens, que a Krupp passou a exportar para o mundo todo. E a sua nova tecnologia de fundição de enormes canhões de aço, que deram à então Prússia superioridade bélica total sobre a Áustria e a França. E deram à família Krupp o domínio total sobre a indústria de armas do império germânico.

Esse predomínio cresceu ainda mais quando a Krupp comprou o grande estaleiro em Kiel e renomeou-o “Friedrich Krupp Germaniawerft”, que fabricou navios de guerra, cruzadores, U-boats, submarinos e torpedeiros para primeira e a segunda grande guerra.

Gustav Krupp foi o grande fornecedor de armas para o III Reich, incluindo aí uma nova linha de canhões gigantescos, munição e diversas linhas de tanques de guerra.

No seu esforço de produção em massa, a Krupp fez uso intensivo de mão-de-obra escrava, havendo pesquisadores que afirmam que o número de trabalhadores forçados chegou à casa dos cem mil. De fato, de uma só feita, a SS autorizou Gustav Krupp a usar o trabalho forçado de 45 000 prisioneiros civis soviéticos. Eram usados prisioneiros de guerra, populações civis e prisioneiros dos campos de concentração, nos mais diversos países ocupados.

Com o final da guerra e a derrota dos nazistas, o Tribunal de Nuremberg julgou os donos da Krupp por sua associação ao nazismo e pelo uso de mão de obra escrava. O velho Gustav Krupp, que já estava demente e fora do comando desde 1943, foi poupado, mas seu filho Alfried Krupp foi considerado criminoso de guerra e condenado a 12 anos de prisão e teve todos os seus bens confiscados. Alfried, em 1943, fora nomeado por Hitler seu Ministro da Economia de Guerra.

Mas era MUITO dinheiro! Poucos anos depois, esse dinheiro logrou acordos secretos com os norteamericanos, que levaram à libertação de Alfried em 1951 e à restituição de grande parte do seu patrimônio industrial. A Krupp recuperou a hegemonia no setor siderúrgico e voltou a crescer muito, antes que Alfried falecesse em 1967.

Em 1999 a Krupp fundiu-se com sua principal concorrente, a Thyssen, formando a grande empresa Thyssen-Krupp, que é hoje a quinta maior da Alemanha. 

Na foto, em primeiro plano, o engenheiro Alfried Krupp, durante o julgamento em Nuremberg.
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=5368752

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

SAUDOSISMO
MILTON MACIEL

Norteville, 15 de Janeiro de 2048. Caramba, hoje acordei esquisito. O dia todo com uma saudade, uma nostalgia de infância que não tem pé nem cabeça. Minha mente teima em voltar ao início do século, lá pelos anos 2017, 2018, quando eu era um molequinho de 7 anos e ainda existiam aqueles monstros de ferro que engoliam oceanos de petróleo e rodavam sobre rodas de borracha sobre o solo, engolfando-se em congestionamentos monstruosos. Algo que hoje só podemos ver em documentários de época. 

Aliás, o mais inconcebível é que esses veículos trogloditas tinham que ser manobrados por um ser humano (insano, não é?), o que resultava em incontáveis erros e acidentes fatais. Naquele tempo, é claro, ainda não existia o TAUA, o trânsito aéreo urbano automatizado.

Lembro que eu, como toda criança, tinha um daqueles negócios esquisitos da época, um tal de “telefone celular”, que a gente usava para se comunicar lendo, escrevendo e até falando. Sei que vocês vão ter dificuldade de entender do que estou tratando, mas emitam o verbete “telefone celular” e logo vão aparecer em suas mentes todos os multimodais dessa tema, inclusive vocês vão poder ter a exata experiência de usar um desses artefatos primitivos em suas mentes, basta seguir as instruções. É claro que vocês vão morrer de rir da tecnologia e da extrema dificuldade de inserir letras com as pontas dos dedos, como nosso avós faziam então.

No multimodal de imagens móveis, vocês vão inclusive ver como nossos antepassados passavam horas a fio magnetizados em massa às telas dessas carroças eletrônicas, dificultando a comunicação direta entre eles. Aliás, se alguém quiser ver algumas dessas peças fisicamente, aviso que podem encontrar e, pagando a taxa, inclusive pegar nas mãos e manipular alguns desses raros exemplares.

No Museu de Sambaqui, na seção Eletrônicos, há dois aparelhos da antiga marca Samsung. Você pode ir com um amigo ao museu e vocês podem passar pela experiência incrível de conversar através dessas máquinas rudimentares, tendo porém o cuidado de encostá-las nas orelhas antes. Depois vocês podem se dar o prazer indescritível de escrever usando as pontas dos dedos, é impagável. Bem, na verdade você vai ter que pagar, sim, mas vale a pena mesmo, custa 135 Yuans.

Naquele tempo Norteville ainda não existia e eu vivia na parte que chamavam então de Joinville. Com o tempo, como todos sabem, essa parte foi se alastrando e se fundindo com outras em expansão ainda mais acelerada, como Araquari, Barra Velha, Barra do Sul, Garuva, Schroeder, Guaramirim e Jaraguá. Até mesmo São Francisco, que antes era uma ilha, com o atual bairro Mega Aterro virou parte da grande conurbação de Norteville, onde contamos agora com uma população de 3 600 000 habitantes.

A administração desse complexo, por incrível que pareça, é dezenas de vezes mais fácil, eficiente e honesta do que no tempo da antiga Joinville. O nosso governo central, em Shangai, nos dá extrema autonomia de gestão. 

E nosso Administrador Geral para a América do Sul, o benemérito Zhang Jiao, que prefere manter seu corpo nas Ilhas Virgens Brasileiras (antigas Britânicas), nos visita sempre, pelo menos uma vez por mês, por projeção iônica transversa. Inclusive essa sua projeção costuma devorar sempre dúzias e dúzias de bananas ouro, que considera “um verdadeiro néctar dos deuses”.

Ah, esqueci de dizer: quando vocês forem usar o tal de telefone celular dos antigos, para conversar entre si, não esqueçam de anular momentaneamente o emissor do lobo frontal do cérebro, senão vocês vão estar conversando da forma normal, pela telepatia orgânica. Não, vocês precisam escutar a voz do outro entrando pelo tímpano do ouvido, uma experiência hilária e inesquecível.

sábado, 13 de janeiro de 2018

EMPRESAS BENEFICIADAS PELO TRABALHO ESCRAVO DE GUERRA NAZISTA,
na Alemanha, países ocupados e em países neutros
MILTON MACIEL

SETOR SIDERÚRGICO, metalúrgico e armas
KRUPP – MANNESMANN

VEÍCULOS MILITARES E CIVIS, MOTORES, Máquinas
VOLKSWAVEN BMWDAIMLER BENZ - MAN – BOSCH – STHIL

QUÍMICA E FARMACÊUTICA
Ig Farben (BAYER) – BASF – HENKEL – HOECHST – BEJESDORF - DEGUSSA

VESTUÁRIO (Uniformes)
HUGO BOSS

ELETRÔNICA, TELECOMUNICAÇÕES
SIEMENS

AVIAÇÃO
LUFHANSA

ALIMENTOS
Dr. OETKER

BANCOS E SEGURADORAS
Commerzbank - Deutsche Bank – Allianz

EMPRESAS ESTRANGEIRAS:
NORTEAMERICANAS:
IBM
Kodak
General Electric
Ford
Coca cola
Chase Bank (hoje J. P. Morgan)
MGM estúdios de cinema

SUÍÇA:
Nestlé

CONTINUA...  (Foto: Prisioneiros judeus, em trabalho escravo, montam motores) 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

JACQUES FOI UM TRABALHADOR ESCRAVO em Essen, na Alemanha.
MILTON MACIEL

Quase todos sabem que houve um trágico Holocausto judeu na II Guerra, vitimando 6 milhões de seres humanos. Mas QUASE NINGUÉM SABE que houve um outro holocausto de número praticamente equivalente, também perpetrado pelos nazistas: 5 milhões e meio de seres humanos que morreram como TRABALHADORES ESCRAVOS durante a Segunda Guerra.

Ao escrevermos o livro A GUERRA DE JACQUES, o drama dos prisioneiros escravizados veio à tona. Meus colegas coautores, os irmãos João e Daniel Miedzinski são os filhos de Jacques. O pai deles foi escravo na Alemanha! 

Por isso tomamos como questão de honra mostrar, junto com a divulgação do nosso trabalho, essa mácula histórica horrenda, pouco divulgada e, por isso mesmo, quase desconhecida. Esta série de artigos que hoje começa tem essa finalidade. Mais adiante traremos à baile outro assunto muito pouco conhecido, o das barbáries praticadas contra as mulheres e meninas em todos os países em conflagração, da Europa à Ásia e à África.

ESCRAVOS
Durante a II Guerra Mundial, cerca de 15 500 000 de civis e militares foram usados pelos nazistas como mão de obra escrava na Alemanha e nos países ocupados. Ao final da guerra, um pouco mais de 10 milhões foram repatriados pelos aliados. Os outros, mais de 5 milhões, morreram nesses menos de 5 anos.

Isso acontecia diariamente, por causa das péssimas condições a que os escravos eram submetidos: excesso de trabalho, alimentação insuficiente, péssimas condições de calefação, instalações e higiene, tratamento médico quase inexistente. Condições sanitárias cruéis, com uma ou duas dezenas de privadas para mais de 1000 prisioneiros, excrementos correndo pelo chão dos alojamentos, aliadas à falta de repouso e jornadas exaustivas de trabalho e à subnutrição crônica levavam os escravos a morrer em quantidades impressionantes, “como moscas”. 

Os acampamentos de trabalho eram na verdade verdadeiros campos de concentração, mantidos pela SS ou pelas grandes indústrias alemãs. Dos campos da SS, as indústrias “alugavam” os escravos pelo preço de um marco por dia cada um. Os bombardeios aéreos por parte dos aliados era constantes e os escravos quase não tinham acesso aos abrigos antiaéreos, reservados para defender os cidadãos alemães. E os escravos morriam em grande número vitimados, muitas vezes, pelas bombas de seus próprios compatriotas.

Mas isso fazia parte da estratégia de conseguir o máximo de trabalho com o mínimo de custo, sendo os escravos que morriam rapidamente substituídos por novos prisioneiros capturados nos países da Europa invadida. Muitos trabalhadores, ao atingirem o nível de exaustão ou adoecerem seriamente, era simplesmente executados.

(Foto Wiki Commons: Civis sendo colocados num caminhão à força e deportados para a Alemanha, para trabalharem como escravos: Varsóvia, Polônia, 1941)

CONTINUA:
Parte 2: AS INDÚSTRIAS KRUPP

Parte 3: OSTARBEITER, os trabalhadores escravos do Leste europeu.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

TRABALHO ESCRAVO DURANTE A II GUERRA MUNDIAL
(Do primeiro capítulo de A GUERRA DE JACQUES):
"A fria noite do inverno de dezembro de 1943 já tinha caído quando, depois de várias horas de um sacolejar barulhento e irritante, o trem finalmente parou. Que lugar seria aquele? O rapaz do fundo do vagão conseguiu esticar-se todo, contorcendo-se, para poder espiar através da minúscula abertura que aparecia para a noite, agora que o Cabo SS tinha aberto a porta do vagão e descido com sua metralhadora na mão. Do chão da plataforma, apontando a arma para dentro,ele vociferou ameaçadoramente:
– Qualquer engraçadinho que pensar em descer leva chumbo!
Falou isso em alemão e poucos o entenderam lá dentro. Mas o gesto que aquilo significava, não deixava a menor dúvida. Pelo escasso vão de menos de um metro aparecia uma placa de estação ferroviária. Nela via-se, em letras garrafais marrons, sobre um fundo palha, um nome. O jovem pronunciou-o em voz baixa, para seus companheiros de viagem mais próximos, dois passageiros mais velhos, entre os mais de setenta seres amontoados no vagão:
– Roermond!
Gaston, o homem da agência do correio da Rue des Invalides, esticou o pescoço e confirmou:
– É mesmo. Conheço o lugar, já estive por aqui, antes. É um grande entroncamento ferroviário.
– Já estamos na Alemanha, então? – Perguntou Samuel, o judeu ourives de Bruxelas, arregalando os olhos e apertando nervosamente o chapéu escuro sobre seus parcos cabelos brancos, o que acentuava ainda mais sua expressão de perple-xidade e de medo.
– Não, isto aqui ainda é a Holanda. Mas se você seguir por menos de 10 quilômetros para o leste, você já estará na Alemanha.
– E é aí que eles vão nos deixar?
– Não, Samuel. Se você andasse em linha reta naquela direção, você chegaria a Dusseldorf, depois de algumas horas. Mas nós estamos sendo transportados para outras cidades alemãs, mais ao norte. Nós vamos para algum lugar no vale do Ruhr. Ou melhor dizendo, para as minas de carvão daquela região – O velho agente dos correios mantinha sempre sua calma e seu ar professoral.
– Ah, sim – observou com amargura o ourives – nós somos os trabalhadores “voluntários”. Quer dizer, os mais novos escravos do Ministro Speer. Vão nos fazer trabalhar como umas bestas nas minas de carvão, até nos acabarmos. Da mesma forma como esses coitados do trem que acabou de parar aí do lado. Veja só a cara de desespero dos sujeitos.
De fato, uma outra composição acabara de estacionar no mesmo entroncamento