segunda-feira, 9 de abril de 2018

UM CONTO DE AMOR SEM DIÁLOGOS
MILTON MACIEL

O mais perfeito dos amantes! Como poderia ela pensar em viver sem esse homem?

Ainda há pouco ele a tinha amado como nunca. Ou seria melhor dizer... “como sempre”? Ah, cada vez que, ao final, ele levantava da cama, ela ficava com essa sensação: foi melhor, ainda melhor do que antes. Mas eram amantes há mais de 5 anos... Como podia?

Ele o gerente da Transportadora, o homem de máxima confiança, o braço direito do grande chefe. O grande chefe era também o grande corno, o esposo dela, seu maldito marido há mais de 15. Ela havia aguentado estoicamente o convívio com aquele troglodita. Porco, sem higiene. Violento, não poucas vezes havia batido nela.

Mas rico, riquíssimo, cada ano mais rico. Explorando seus caminhoneiros, seus funcionários, sonegando, corrompendo, lavando dinheiro. O cofre secreto em casa cheio de dólares e euros, de diamantes. E as contas no exterior, então! Porém, a essas, só o desgraçado tinha acesso.  

Mas tinha aquela que era a maior transportadora do Sul do estado. E imóveis sem fim. Aquele mundaréu de caminhões... Ela nunca tivera condições de saber a quanto montaria todo o patrimônio daquele orangotango. Nunca, até começar seu caso com o jovem gerente, que tudo sabia.

Era fatal que acontecesse. Ela tão bonita e tão mais moça que o marido primata. O rapaz ainda mais moço do que ela, elegante, sedutor. Ela com eterno nojo dos momentos em que o grosseirão a mandava preparar-se porque ia...usá-la! Uma vida amorosa nula, uma vida sexual horrorosa. Sabia-se irremediável prisioneira: tinha medo mórbido do marido violento. Divórcio? Como, se ele tinha poder de vida e morte naquela cidade: advogados, delegado, juiz – todos comiam na mão dele. Ele não perdoaria jamais a afronta; muito menos aceitaria dividir quaisquer bens com ela. Pedir o divórcio era o caminho mais certo para ser morta na hora.

Além do mais, como poderia ela viver sem saborear todos os dias o deleite de ser a mais bela e a mais rica mulher de toda a cidade? Impossível...

Mas o macaco gostava dela. À sua maneira esquisita, mas gostava. Embora tivesse mulheres fáceis à vontade e se espojasse com elas a toda hora, gostava de frequentá-la também. E gostava de exibir toda a sua beleza e classe pela cidade.

Faziam um estranho casal: ela uma ex-miss, uma beldade loira e alta. Ele um anão de jardim, um palmo mais baixo que ela, gordo, careca, simiesco, feio, sessentão. Ele a exibia como o animal mais exótico de sua coleção, o mais caro que ele podia pagar: cobria-a de joias e roupas de grife, proporcionava-lhe spas, salões de beleza, peelings, liftings, plásticas – qualquer coisa que ela inventasse para fazer-se ainda mais bela e invejada na cidade. O preço a pagar? A eterna fidelidade, a submissão por toda a vida.

Até o dia em que se viu nos braços do gerente. E descobriu o amor. Descobriu que a vida sexual podia ser maravilhosa, que aquele homem esbelto, asseado, atlético, era o cão em pessoa em cima de uma cama. Tirou-lhe ele todos os medos, todos os tabus, ensinou-lhe os roteiros de prazeres infinitos, a fez amaldiçoar os reverendos e a tia carola que a haviam castrado desde a infância.

O macaco não confiava em ninguém. Abria exceção apenas para sua fiel esposa e para seu devotado contador e gerente, que trabalhava para ele desde menino, há mais de 14 anos. Esses dois o conheciam bem demais para saberem que o menor deslize lhes custaria a vida imediatamente.

Resultou daí que a esposa fiel e o devotado gerente lograram o poderoso senhor durante mais de 5 anos. E sempre na própria casa do confiante senhor. Ele jamais suspeitou ou descobriu. Porque morreu antes.

Um dia o ricaço resolveu eliminar um concorrente perigoso. Convidou o dono de uma transportadora rival para um jantar em casa e envenenou-o. A esposinha, escondida, viu-o colocar o veneno no vinho. Os muito ricos podem pagar venenos muito especiais. Esse não deixava nenhum vestígio 12 horas depois de provocar um infarto fulminante. 

Nas primeiras 12 horas, a pele da vítima ficava avermelhada e, sob as pálpebras, surgiam estranhas manchas roxas. Deixaram o concorrente, no quarto de hóspedes, dormir toda a manhã; só então “descobriram” a morte do inconveniente. Chamados médico e delegado de confiança, a autópsia deu em morte natural e o caso foi rapidamente arquivado.

A única coisa que o macaco não imaginava é que sua doce esposinha fosse gostar tanto de ter aquele poder de vida e morte, que o marido bandido fazia questão de alardear o tempo todo. O líquido perigoso voltou para o cofre secreto. Mas a beldade loira tinha descoberto o papel com a combinação há um bom tempo. Copiara os números tremendo, mas sabia que jamais se atreveria a usá-los.

Até o dia em que compartilhou-os com o amante. Então os dois acertaram todos os detalhes e, um mês depois, a cidade toda rendeu tributo a seu cidadão mais rico: as mais impressionantes pompas fúnebres já acontecidas no município. Na flor da idade e da riqueza, um infarto fulminante levara-o desta para a pior, acreditavam todos, porque conheciam seu sórdido passado e presente. A esposa saíra cedo com as duas empregadas da casa, foram para a cidade vizinha, para acompanhar o concurso de miss local. Quando retornaram, no fim do dia, descobriram o patrão e marido ainda estirado na cama de casal. Estava bem frio e muito morto. Oh, dor!

Agora, 3 meses depois, ela estava em Paris. Esperaria pelo lento inventário. Mas o cofre secreto na casa, secreto continuou, apenas que vazio. O equivalente a 200 mil dólares dava para começar a fazer a festa na Cidade Luz. Os amantes dividiram o butim, ele se encarregou de lavar e transferir para o exterior a dinheirama. Ficou tomando conta da Transportadora e fazendo leilão de sua próxima venda aos concorrentes, o que tornaria ambos arquimilionários, tão logo concluído o inventário.

Agora ele tinha chegado a Paris. Foi para o apart-hotel onde ela vivia, fizeram amor como nunca. Ou como sempre. Depois renovaram seu votos de amor eterno e confirmaram seu plano de ação. Assim que se passasse um ano, haveriam de se casar no exterior. Brindaram com o melhor champanhe francês.

Duas horas depois a arrumadeira voltou ao apartamento da moça linda brasileira; havia esquecido seus óculos de leitura. Usou sua chave.

Gritou!

No chão, a senhora loira e o seu namorado jaziam inertes. Suas peles estavam incrivelmente vermelhas de ponta a ponta. E, sob os olhos arregalados deles, estranhas manchas roxas escureciam-lhes as pálpebras. Caídas perto das mãos de cada um, taças haviam vertido restos de champanhe.

A polícia brasileira descobriu depois: Ela amava demais seu amante, mas não o suficiente para ter que casar com ele e dividir toda a fortuna e liberdade recém-conquistadas. 

Na pasta dele e no seu cofre de banco, no Brasil, encontraram documentos com falsificações da assinatura dela, passando vários bens para o nome dele. Como procurador da beldade loira, ele já tinha vendido muitos outros bens. Amava-a. Mas...

Compartilharam apenas o segredo de um veneno. Cada um fez uso do segredo na hora que lhe pareceu mais adequada. Coincidiu de ser a mesma.

Enfim, como dizem los hermanos, “Es la história de um amor”.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

domingo, 1 de abril de 2018


MANOEL DA NÓBREGA: O FUNDADOR de São Paulo é o CRIADOR do Rio de Janeiro
MILTON MACIEL
(Excerto do livro VILLEGAIGNON NO INFERNO – 
Vol. 4 da Série de “DE FRANÇA E BRASIL”) 

... O jovem Estácio sentia-se mais abatido do que nunca. Que cruz tomara sobre seus inexperientes ombros! Voltara de Portugal com a específica incumbência de fundar uma vila bem no coração das terras tamoias. Ou seja, no meio de milhares de ferozes inimigos. E com suas poucas centenas de homens em armas! Agora, fundeado em São Vicente, encetara a difícil subida da serra até Piratininga, para se aconselhar com Padre Nóbrega, como lhe exigira seu tio Mem de Sá, o governador geral.

– Não posso, padre! É responsabilidade demais para mim. Tenho só 21 anos. Se eu fracassar... Não somente eu estarei acabado antes de começar, mas serei responsável pelas mortes de todos estes bons homens que lidero agora.

O padre Manoel da Nóbrega, forte e rijo nos seus 44 anos, apesar das excruciantes dores nas varizes das pernas – ainda hoje o jovem José de Anchieta tivera que ajudá-lo, carregando-o duas vezes sobre suas costas corcundas – era um verdadeiro rochedo de determinação. Nada o faria desistir do seu plano de dar segurança à vila de São Paulo de Piratininga. E isso significava atacar o inimigo tamoio na baía de Guanabara. Fixou seus olhos com inconteste autoridade no jovem comandante português, de apenas 21 anos:

– Você pode meu filho! Não só pode, como deve. Deve essa atitude e essa ação a todos nós, os que vivemos e nos arriscamos nestas terras do sul. Deve aos abnegados de São Paulo de Piratininga, de São Vicente, de Cananéia, que a toda hora sofrem os mortíferos ataques desses tupinambás que se confederam como tamoios. E deve-o a sua rainha, que o encarregou pessoalmente de fundar essa vila fortificada lá no coração do território inimigo.

– Mas, padre, Se eu falhar... Como poderei me defender perante Sua Majestade?

– Você não precisará se defender. EU o defenderei, eu falarei por você. Eu assumo toda a responsabilidade. Deus estará com você e seus homens. E eu e José de Anchieta estaremos também. Subiremos para a Guanabara com todos os bergantins, galés e canoas que conseguirmos juntar aqui no sul. Cheios de bravos combatentes. E de Ilhéus virão mais naves grandes, virão os irmão italianos Bartolo, grandes capitães, à frente delas. Teremos uma grande força, poderemos fazer face aos tamoios, você vai ver.


Estácio de Sá deixou-se ficar alguns instantes com os olhos perdidos no infinito, sem nada ver, apenas pensando em sua espinhosa missão: tomar a baía de Guanabara para Portugal. Tomá-la em definitivo dos milhares de tamoios que a cercavam e dos remanescentes franceses.

Ali mesmo, poucos anos antes, o almirante francês Nicholas Durand de Villegaignon havia constituído sua débil França Antártica em 1555. Sem apoio do rei francês, cansado e desgastado, ele havia voltado para França em 1559 e, um ano depois, em 1560, seu tio, Mem de Sá, com a sólida ajuda deste mesmo inquebrantável padre jesuíta Manoel da Nóbrega e de forças que acorreram de Santos e de São Vicente, havia conseguido derrotar os 300 franceses remanescentes e destruir completamente o forte de Coligny na ilha e todas as edificações da praia do Flamengo.

Mas cerca de 30 franceses permaneceram no lugar, escondidos nos matos e vivendo com os índios. Eles mantinham aceso o comércio do pau-brasil com as naves francesas. E mantinha-se também, acirradíssimo, o ódio dos tamoios aos portugueses invasores. Rompida a débil paz de Iperoig, os ataques recrudesceram de parte a parte.

Por outro lado, Manoel da Nóbrega, um político de raríssima habilidade, tinha certeza que não poderia haver tranqüilidade enquanto a resistência dos tamoios persistisse. Na sua concepção, era essencial golpeá-los colocando um núcleo fortificado bem no centro de suas terras, que se estendiam de Cabo Frio até Bertioga. E esse centro nevrálgico, para ele, era na baía de Guanabara. Era ali, exatamente ali onde os franceses haviam tentado fixar sua malograda França Antártica, que deveria ser erguida a cidadela que embasaria a criação de uma verdadeira cidade européia.

E essa cidade, que ele e somente ele, com sua habilidade diplomática e sua persistência incansável,  havia conseguido convencer a própria rainha a criar, essa cidade era fundamental para que São Paulo pudesse existir. Paradoxalmente, uma cidade que seria criada por paulistas e portugueses, no que seria o Rio de Janeiro, haveria de ser o baluarte que garantiria a sobrevivência de São Paulo.

O hábil e visionário Manoel da Nóbrega foi assim, o grande cérebro por trás da fundação das duas maiores cidades do Brasil contemporâneo. Louvam-no por isso os paulistanos de hoje; esquecem-no, por desconhecimento histórico, os cariocas em sua maioria. Homenageiam apenas Estácio de Sá, cuja passagem pela Guanabara, depois da fundação da vila foi meteórica, abatido logo a seguir que foi pela flecha tamoia envenenada que o atingiu no olho e levou-a à morte lenta e sofrida dias depois.

Nóbrega a Anchieta estiveram com ele até o fim.

"A morte de Estácio de Sá - Óleo sobre tela - Antonio Parreiras, 1911)


sexta-feira, 16 de março de 2018


JOÃO RAMALHO EM DOSE DUPLA
MILTON MACIEL

Vem aí a segunda edição, bastante ampliada, de JOÃO RAMALHO NO PARAÍSO. E a sua continuação, JOÃO RAMALHO FUNDADOR, em sua primeira edição.

Esses romances históricos, criados com dinâmica de roteiros de cinema, contam, de forma original e divertida, a história desse que foi um português fundamental para a colonização do sudeste do Brasil. Aportado nas costas da atual São Vicente em 1512, quanto tinha apenas 19 anos, Ramalho foi acolhido pela tribo dos guaianazes, liderada pelo cacique Tibiriçá, de Inhapuambuçu, no planalto de Piratininga.

João casou com a filha do cacique, Bartira. E converteu-se em um perfeito índio. Aprendeu a falar tupi e passou a andar sempre nu, como todos os guaianazes. Era o verdadeiro ai-jesus das índias: teve 9 filhos com Bartira e mais 48 com diversas outras indígenas, tendo casado também com algumas delas  por serem filhas de caciques de outras tribos. Esses casamentos, segundo os costumes dos tupiniquins em geral, estabeleciam alianças estratégicas, passando João a ser considerado membro da família de cada novo cacique-sogro.


Os costumes sociais dos tupiniquins, a grande liberdade sexual das índias e a naturalidade de sua manifestação colorem as páginas da saga de Ramalho com cenas de muita sensualidade e com muita coisa realmente surpreendente.

Com seus filhos mestiços, à medida que eles cresceram, João Ramalho formou o primeiro exército legitimamente brasileiro. Comprava arcabuses e pólvora dos contrabandistas franceses e espanhóis, para armar seus soldados-filhos, completando o destacamento com centenas de indígenas armados de arco e flecha. Foi com tal exército que João Ramalho e seu sogro Tibiriçá salvaram a ainda infante São Paulo de Piratininga da destruição pelos tamoios invasores.

Foi João Ramalho, com seu exército, que permitiu que Martim Afonso de Sousa, em 1532, convertesse Tumiaru, o Porto dos Escravos, na São Vicente de casas de alvenaria. Foi João Ramalho quem fundou Santo André da Borda do Campo. E foi ainda João Ramalho que conseguiu a autorização de Tibiriçá para que os jesuítas de Manuel da Nóbrega erguessem, numa choça da aldeia de Tibiriçá, o Colégio de São Paulo de Piratininga, de onde se originaria nada menos do que a maior cidade do Brasil.

A imensa maioria dos orgulhosos paulistas quatrocentões tem o pé na taba, são descendentes de Ramalho, Bartira e das outras índias.

JOÃO RAMALHO FUNDADOR conta a saga dessas fundações e defesas, bem como do comércio de escravos indígenas com navegadores, portugueses, espanhóis e franceses. Apresenta Antonio Rodrigues e o Bacharel da Cananéia, o bombardeio de São Vicente por navio liderado por este último personagem, então aliado dos espanhóis. Ali em Cananéia passava o meridiano de Tordesilhas e, dali em diante, todas as terras mais ao sul pertenciam à Espanha. E vai, através da interação de Ramalho com Manuel de Nóbrega e José de Anchieta, até a baía da Guanabara, onde os franceses tentavam consolidar sua França Antártica, o que é narrado no terceiro volume da série, que se chama, com muita propriedade, "VILLEGAIGNON NO INFERNO", atualmente em editoração.

Essa série de livros tem o nome geral “DE FRANÇA E BRASIL” e se encerra com o quarto e último volume, “MONSIEUR LE PRINCE ESSOMERICQ”. Que é a história – contada sempre por ele mesmo – do indiozinho carijó de 14 anos levado para a Normandia pelo navegador Binot Paulmier, de Goneville, em 1504. Essomericq – maneira como os franceses conseguiam pronunciar o nome do indiozinho, que era Içá Mirim (ou seja, Formiguinha) acabou adotado por Binot, que lhe deu seu mesmo nome e o tornou herdeiro principal dos seus bens. Casando com uma parente de Binot e tendo com ela 14 filhos, Formiguinha foi o primeiro brasileiro que conquistou a Europa, morrendo aos 93 anos como um abastado comerciante normando. Seus descendentes propalaram que ele era um príncipe, posto que filho de um rei do Brasil, isto é, o cacique de uma tribo carijó.

quarta-feira, 14 de março de 2018

Um belo evento o lançamento de
"A GUERRA DE JACQUES", ontem, no Círculo Militar, em São Paulo.

As pessoas nas filas de autógrafos
















Os três autores



















A outra fila
















terça-feira, 13 de março de 2018

É hoje o LANÇAMENTO NACIONAL de
A GUERRA DE JACQUES

Às 19,30 hs, no CÍRCULO MILITAR em São Paulo
Rua Abílio Soares, 1285 - Vila Mariana - São Paulo, SP


sexta-feira, 9 de março de 2018


EXISTE UMA CRISE NA MÚSICA BRASILEIRA?
MILTON MACIEL, escritor

Sim. E não. Já explico.

Existe, SIM, uma brutal crise de qualidade na música brasileira industrializada. Essa que passa pela grande indústria fonográfica, pelas TVs, pelas rádios, pelos jornais e revistas. Indústria e mídia, na cruel luta pela sobrevivência ante a tempestade digital que as atingiu, nivelaram por baixo e investiram na mediocridade. Já volto a este assunto. Mas primeiro quero dizer que...

NÃO existe, não, uma crise na música brasileira produzida pelos músicos. Continuam existindo compositores geniais às toneladas. O mesmo se pode dizer de potenciais letristas. O problema é que eles, mais do que em qualquer outra época, têm duas grandes dificuldades. A primeira é a de se encontrarem, letristas e compositores, para formar suas duplas miraculosas a la João Bosco e Aldir Blanc, Milton Nascimento e Fernando Brant, Ivan Lins e Vitor Martins. A verdade é que os letristas escassearam muito mais do que os compositores. Há uma maré baixa na poesia e, em especial, nos poetas que se aproximam da música popular. A segunda dificuldade, obviamente, é que a música industrializada e a mídia fecharam as portas para todos eles.

Existe, portanto, um crise de qualidade, mas ela não é devida à falta de bons músicos. É devida à falta de oportunidade que esses bons músicos experimentam hoje, muito mais do que nos áureos tempos de glória da MPB e do rock brasileiro, dos festivais de música e das bandas pioneiras. Essa fase dourada nos legou Caetano, Chico, Gil, Taiguara e, depois, Guilherme Arantes, Legião Urbana e Cazuza. E duplas compositor/letrista como aquelas a que me referi acima.

Hoje o “deus Mercado” não nos permite sucedâneos aos grandes gênios envelhecidos. Axé, pagode, sertanejo ‘universitário’, rap, laivos de forró... É isso o que restou. Um mercado florescente de pessoas pouco cultas, milhões de consumidores ávidos de músicas rápidas, dançantes e de letras simplórias, picantes, eróticas quando não pornográficas, até mesmo violentas. Com o machismo e o desprezo à mulher mais explicitados do que nunca. Aliás, a mulher inculta consumidora desse tipo de música, letra, dança e espetáculo, não chega a entender o que se passa em frente às suas coxas roliças. Mais o culto à cerveja e ao álcool em geral, nas letras que celebram a masculinidade como a capacidade de ostentar-se bêbado.

Para simplórios, letras simplórias, músicas primárias. É muito mais econômico, é muito mais garantido o retorno para o capital investido, é material produzido para e consumido pela base da pirâmide cultural do país, incomparavelmente mais numerosa. Dessa forma a indústria e a mídia, que um dia já investiram na qualidade e viveram bem, hoje apelam solenemente para a mediocridade rentável. Não vou me dar ao trabalho de citar nomes dos artistas mais bem sucedidos economicamente hoje. Basta que o leitor olhe, durante uma semana, o que a TV, por exemplo, oferece às telas dos espectadores em casa.

Ao artista de maior qualidade sobrou o circuito alternativo: a pequena gravadora, a gravação própria, a produção independente (indie), que o converte em mais do que artista, o converte em camelô de sua arte. A Internet e os bares da vida estão por aí, felizmente. E toda uma geração de novos artistas musicais pode ao menos arranhar uma dura sobrevivência, alijada que está dos milhões do grande mercado.

Foi então que nós concebemos uma ideia simples: ir de encontro aos compositores solitários, que exsudam uma música de qualidade, mas encontram, na imensa maioria dos casos, uma barreira inicial quase intransponível: a falta de uma letra, de uma poesia verdadeira, que vista sua música de palavras e a torne uma canção de ainda mais alta qualidade, que a torne vívida, incomparável, inesquecível, imortal.

Num país que não consome música instrumental, não ter uma letra muito boa para uma música muito boa mantem o compositor completamente paralisado. Acumulam-se no computador, no gravador ou na cabeça dezenas e mais dezenas de temas musicais geniais. E daí?

Daí que, se investirmos em instrumentar esses músicos com uma capacidade genuína de gerar suas próprias letras, vamos resgatar dezenas, centenas, milhares de canções de seus baús paralisantes. E um número equivalente de bons compositores emergirão do ostracismo para as beiradas de um mercado que não poderá mais ignorar o sucesso que eles estarão fazendo em seus circuitos alternativos cada vez mais expandidos.

Qualidade chama qualidade. Bons compositores, de posse de boas letras, produzirão canções fora de série, inesquecíveis, que atrairão o público que hoje está marginalizado por falta de boa música nos circuitos comerciais.

Não tenho dúvida alguma que o resgate da poesia na nova música brasileira acabará provocando o renascimento de que tanto necessitamos. Um pouco do grande capital investido hoje, por indústria e mídia, só no mercado primitivo, começará a ver possibilidade de bom ganho nos novos artistas diferenciados. E o público de melhor nível responderá a isso, dando retorno financeiro aos investidores e vida melhor aos artistas criadores.

Vale igualmente o esforço de buscar poetas e diletantes e procurar interessá-los em criar letras para músicas, em instrumentá-los e prepará-los para isso, em estimulá-los a formar parcerias com os bons compositores.