domingo, 22 de outubro de 2017

FICÇÃO LITERÁRIA, FICÇÃO DOMINANTE E FICÇÃO DE GÊNERO 
MILTON MACIEL

Quem não é do ramo não tem obrigação alguma de perceber, mas, da mesma forma que na arte musical, existem diferentes manifestações na arte literária. Naquela temos a música erudita, a música popular de alto nível, com melodia e poesia de qualidade e a música tipo povão, de largo consumo e sem maior responsabilidade estética, tanto na melodia, quanto na letra. A disseminação, o consumo e o “sucesso” de cada uma delas dependem do grau de cultura do público consumidor. 

Em termos de música brasileira, especificamente, um breganejo trepidante, cuja letra fale de balada, cerveja e bunda grande, vai ser apresentado e vender (e isso define o “suce$$o”!) muito mais que uma composição de Chico Buarque; e esta, por sua vez, muito mais do que uma composição de Villa Lobos.

Forma-se, de forma muito natural e compreensível, uma pirâmide com a música erudita no topo e a música-povão na base, proporcionalmente ao nível intelectual e cultural das diferentes faixas de público consumidor.

A mesma coisa ocorre com a literatura de ficção, com a ficção literária no topo, mas uma distribuição bem diferente nos outros níveis. Em literatura e, ainda mais especificamente, em termos da realidade do mercado livreiro no mundo, a ficção pode ser dividida em:

Ficção literária, ficção dominante e ficção de gênero

Ficção literária é a de mais alto nível. É muito mais alicerçada no personagens e sua psicologia do que no enredo ou trama. A linguagem é a mais complexa e rebuscada possível, o grau de erudição do autor é máximo. Ele não tem preocupação em atingir o grande público, uma vez que sabe que este não tem nível cultural suficiente. De um modo geral, preocupa-se mais com seus pares, com a crítica acadêmica e com o pequeno nicho de seus leitores especiais. As editoras comerciais de porte não têm preferência por autores novos de ficção literária.

Ficção dominante (mainstream) é aquela que tem mais apelo comercial em um certo momento. É absolutamente episódica e ‘sazonal’. Chega, explode, domina, é imitada, declina e passa. Harry Potter, O Senhor dos Anéis e os vampiros e lobisomens de Crepúsculo são exemplo disso. Em grande parte, recebe o apoio do cinema e o sucesso comercial é tremendo. As grandes editoras sonham o tempo inteiro com essa ficção, pois sabem que é ali que vão ter o maior retorno para o seu investimento.

Ficção de gênero é todo o resto. Entre gêneros principais, seus subgêneros e endosubgêneros, podemos contar mais de 60 possibilidades. A ficção dominante sempre será de um desses gêneros, alçado subitamente ao alto do palco. Em meu livro “A Arte e a técnica do romance (Milton Maciel, IDEL, 2017), da série “Como Escrever Ficção”, eu mostro todos os 62 gêneros e subgêneros mais usuais, explicando um por um. Vou dar aqui apenas UM exemplo de gênero e seus diferentes subgêneros e endogêneros dentro de cada subgênero.

I - Gênero: SUSPENSE
Subgêneros: Mistério, crime e tríler (thriller)

I.1 - Subgênero MISTÉRIO
Predomina o enredo sobre os personagens, a narrativa e o protagonismo envolvem os agentes que atuam do lado da lei

Endosubgêneros do subgênero Mistério:
Sereno – O protagonista não usa violência, apenas sua capacidade de solucionar mistérios, como a Miss Marple, de Agatha Christie.
Policial agente – Aqui o protagonista é um tira ou um detetive particular, que age de forma heroica e com uso de violência quando necessário
Policial equipe – O Mistério é resolvido por uma equipe multidisciplinar de policiais, como na série CSI e outras.
Médico, científico ou forense – A solução depende do conhecimento de médicos, cientistas ou patologistas forenses, algo fora do alcance de policiais normais.
Juri – Uma forma clássica de resolver o mistério através da atuação brilhante de advogados e promotores muito talentosos.
Histórico – Aqui o crime praticado, ou o mistério histórico ocorreram no passado e os envolvidos, vítimas, perpetradores e testemunhas já estão todos mortos. Protagonistas vão desencavar a verdade através de evidências e documentos que são resgatados pelos protagonistas e analisados por peritos. É um dos mais promissores filões do subgênero Mistério atualmente.

I.2 - Subgênero: CRIME
Predomina o enredo, mas aqui a narrativa e o protagonismo são, via de regra, dos próprios criminosos, como em “O Chefão”, de Mário Puzzo  ou em “Lúcio Flávio , o passageiro da agonia”, de José Louzeiro. Não existe Mistério, sabe-se quem são os criminosos desde o início.

O subgênero tem um único Endosubgênero estabelecido até o momento: o Noir. Nele o protagonista vive na fronteira entre a lei e a marginalidade, nunca se sabe se ele vai resolver ou cometer um crime e a grande surpresa final consiste exatamente em sua decisão e suas consequências.

I.3 - Subgênero TRÍLER (thriller)
Neste subgênero, de total predomínio do enredo, o suspense combina-se com ação, ritmo acelerado, surpresas, sustos, perseguições, grandes riscos, violência. Thrill, em inglês, quer dizer excitação e o thriller, aportuguesado já para tríler, tem que ser excitante. Às vezes pode chegar até mesmo à beira da porta de outro gênero, o terror.

Endosubgêneros do subgênero Tríler:
Psicológico
Político
Sobrenatural
Tecnológico (techno-thriller)
Erótico 

terça-feira, 17 de outubro de 2017

É POSSÍVEL ENSINAR ALGUÉM A ESCREVER BEM?
MILTON MACIEL

Muitos apregoam aos quatro ventos que não, abrindo exceção somente para os casos em que se usa um caderno de caligrafia, para melhorar a letra cursiva desse alguém. Como é óbvio que nossa intenção aqui é bem outra, nada tendo a ver com letra cursiva, vou dar minha resposta:

É possível, SIM!

Você só não pode ensinar, a rigor, uma pessoa a escrever melhor, porque melhor é superlativo de bom e você não ensina alguém a escrever mais bom, ensina a escrever mais bem. Mas esta construção fica imperfeita, porque implica em que essa pessoa já escreve bem e você a ensina a escrever mais bem ainda.

Voltemos, portanto, ao conceito inicial: escrever bem. Cujo oposto óbvio é escrever mal. E a primeira pergunta que coloco aqui é seguinte:

Alguém pode escrever bem, sem estudar a arte e a técnica da escrita?

Minha resposta é SIM, um acachapante sim.

Muitas pessoas possuem esse dom inato e, via de regra, porque intensas leitoras – donas, portanto, de um alentado vocabulário e de um conhecimento quase intuitivo de gramática prática – são capazes de escrever corretamente. Se conseguem completar esse dom mais básico com uma capacidade de observação/imaginação prodigiosas, podem chegar também ao cerne mesmo do ato de escrever, que é a concepção da IDEIA original sobre a qual vão escrever bem. Estas são as pessoas qualificadas como “diamantes em bruto”. Se chegarem a ser lapidadas, por esforço próprio de estudo ou com a ajuda de outros, viram gênios da literatura.

Só que tem uma coisa: os “diamantes em bruto” são exceção absoluta, não são a regra geral. O engraçado é que, de um modo geral, quase todos os principiantes se sentem diamantes previamente polidos, gênios em potencial, que aqueles cretinos dos revisores, editoradores e editores não sabem reconhecer, iluminados que não precisam aprender e praticar nada sobre as técnicas de sua profissão, as quais, obviamente, já nasceram sabendo!

Futebol e música

Para entender melhor esse processo de lapidação a que me refiro, proponho fazer uma pequena digressão pelos campos do futebol e da música. Comecemos, para arrasar, logo pelo rei do futebol: Pelé, o gênio da bola. Todos tendem a achar que Pelé foi um caso único no mundo, um prodígio, porque...  nasceu pronto! Bem poucos sabem que o menino Gasolina, 15 anos, moleque de recados dos jogadores adultos do Santos F. C., deu um duro danado nos treinamentos, tornando-se em pouco tempo o mais aplicado de todos, aquele que continuava em campo quando todos já tinham ido para casa e ficava sozinho no estádio apagado, treinando dribles e batidas de faltas, sob a escassa luz esparsa da noite da cidade, apoiada ocasionalmente pela benevolência da lua cheia.

Seu pai, Dondinho, que havia sido um bom jogador profissional de futebol, reconheceu muito cedo o talento extraordinário do filho. E, por isso mesmo, não deixava o moleque ficar usando seu dom só nas inúmeras peladas com os outros moleques, onde ele se divertia e se destacava. O pai obrigava o filho criança a fazer contínuos treinamentos e Pelé adulto relembra o quanto detestava isso. E que chegava mesmo a chorar, especialmente quando o pai levou mais de um ano forçando-o a treinar horas por dia, todos os dias, no corredor de casa, a chutar com o pé esquerdo até não aguentar mais de dor. Até que um dia, finalmente, o menino conseguiu fazê-lo sempre; e tão bem quanto fazia com o pé direito intuitivamente.

O maior talento inato foi também aquele que treinou MUITO MAIS do que os outros. O diamante em bruto foi lapidado à perfeição, até a mais ínfima das suas facetas. Esse é Pelé!

Pense agora em músicos, mais especificamente em COMPOSITORES. Lembre-se de vários deles, populares e eruditos. Traga-os de volta à sua tela mental, veja-os apresentando-se ao público. São diversos, mas a esta altura sua memória deverá ter detectado algo que todos eles têm em comum. Viu?

Pois é, com raríssimas exceções, quando você os relembra em suas apresentações, o que eles têm em comum é um INSTRUMENTO nas mãos. João Gilberto, Toquinho, Chico e Caetano têm um violão; Tom Jobim, Taiguara, Guilherme Arantes e Heitor Villa-Lobos, um piano.

Qualquer um deles poderia ter composto assobiando ou cantando, acompanhando-se com uma caixa de fósforos. Mas... você acha que teriam chegado tão longe quanto chegaram?

Caetano diz, no final de sua “Tigresa”:
“... E eu corri pro violão, num lamento,
E a manhã nasceu azul...
Como é bom poder tocar um instrumento.”

Pois é, o domínio do instrumento é a TÉCNICA, sejam os dedos no violão, sejam os dedos e os pés no piano, sejam os pés, as pernas, as mãos e a cabeça no futebol. Eles precisam ser capazes de obedecer com perfeição aquilo que a mente do artista da música ou da bola quer expressar.

Um pianista clássico ensaia em média 8 horas por dia. Uma bailarina também. Um jogador de futebol idem.

Vai daí a primeira recomendação: Você quer ser um grande escritor? Pois bem, ensaie 8 horas por dia. Como?! Escrever oito horas por dia?!!

Não, eu usei o verbo ensaiar! E o principal trabalho do escritor não é escrever. É LER.

Ler como um leitor e ler como um escritor. E ler sobre os segredos da sua profissão. Ler e estudar os processos de escrita. E escrever aplicando o que você absorve por osmose ao ler bons colegas; e o que você absorve por esforço, ao estudar as técnicas da nossa arte maior.

José Saramago, prêmio Nobel,
descreveu assim sua rotina a uma repórter:

– Escrevo todos os dias.

– Fantástico! Quantas páginas? – perguntou a moça, antegozando a resposta sobre as dezenas de páginas que o gênio lavraria num único dia.

– Uma. Ou duas, no máximo.

– Só!!! – escandalizou-se a moça – E o resto do tempo, o que o senhor faz, então?

– O resto todo do dia, eu LEIO. Senão, como é que eu seria um bom escritor?

Já Stephen King recomenda uma rotina diária mínima de seis horas de trabalho. Escrevendo o tempo necessário para gerar 10 páginas. E o resto do tempo todo dedicado à leitura. Todo santo dia! Leitura de, pelo menos, 80 livros por ano.

Faça aí suas contas:

Escrevendo uma única página por dia (10 minutos a meia hora, no máximo), todos os dias, dá mais de 360 páginas para revisar, editorar e publicar como um livro. Ou seja, um a dois livros POR ANO!

Escrevendo 10 páginas por dia (1 hora e meia a 5 horas – in extremis!), dá mais de 3600 páginas por ano. Um livro de 300 páginas POR MÊS! Ou, folgadamente, um livrão com algo como 900 páginas para você ir cortando na revisão e publicar com 600 páginas no fim, a la Stephen King. Isso a cada TRES MESES.

Logo, ESCREVER não é a parte difícil da profissão de escritor. ESCREVER BEM é que é.  Porque tempo você tem de sobra para ser um Saramago.

Mas, como no piano ou na flauta, só precisamos aprender COMO se toca o instrumento. Mais: como se toca BEM o instrumento. E isso é perfeitamente possível. LEVA ANOS, é bem verdade. Muitos, se você só faz exercícios e toca só de vez em quando. Muito menos, se você toca todo santo dia por paixão, horas a fio, e aprende um monte de músicas novas por puro prazer, puro deleite.

Para ser um bom escritor, você tem que fazer exatamente a mesma coisa: tocar o seu teclado ou caneta todos os dias, horas a fio, por puro deleite, puro prazer. Então escrever não cansa, não desanima, não satura. Pelo contrário, entusiasma, anima, você tem que se obrigar a parar porque é hora de comer, porque é hora de dormir, porque é hora de trabalhar em outra coisa ou lugar, se tal ainda for o seu caso.

E o resto do tempo você LÊ. Por puro prazer, por puro deleite, por duro – e delicioso – aprendizado. É como aprender músicas novas no piano.

(Adaptado de “A ARTE E A TECNICA DO ROMANCE” – Milton Maciel, IDEL, 2017, 280 pg)

domingo, 15 de outubro de 2017

O OLHAR DA PROFESSORA   
MILTON MACIEL  (Como posto aqui em todo 15 de outubro)

Tristonho e angustiado, o olhar da professora
Contempla, entre lágrimas, a visão assustadora
Das contas sobre a cama, abertas como um leque.
Ao lado, para honrá-las, o bisonho contra-cheque!

 (Um preito de gratidão a todas as heroínas e heróis que, através da mais dura realidade diária, imolam suas vidas na ara de sacrifício do ensino público brasileiro, construindo, às custas de si mesmos, a sobrevivência e o futuro de um país em que, mesquinhos e ingratos, governadores e prefeitos insistem covardemente em lhes seguir voltando as costas):

O OLHAR DA PROFESSORA

Tristonho e angustiado, o olhar da professora
Contempla, entre lágrimas, a visão assustadora
Das contas sobre a cama, abertas como um leque.
Ao lado, para honrá-las, o bisonho contra-cheque!

As pilhas a subir:
São roupas pra passar,
São louças pra lavar,
Provas pra corrigir!
E filhos a exigir,
Marido a reclamar,
Ninguém para ajudar,
Quem pode resistir?!

Alunos revoltosos, preguiçosos, barulhentos,
E, de uns anos para cá, cada vez mais violentos.
A sala de aula pobre, desprovida, abandonada,
E com risco de ser, mais uma vez, interditada.

Tristonho e angustiado, o olhar da professora,
Contempla, entre lágrimas, a visão assustadora
Da escola que se afunda, em decadência lenta,
Nas mãos da gestão pública, inepta e/ou fraudulenta.
E pensa no absurdo, o paradoxo tão profundo:
Economia: Sexta. Educação: Terceiro... Mundo!

O que fazer, então,
Se essa é sua profissão?
Se pra ganhar a vida
Foi essa a escolhida
Por sua vocação?
E se somente ela,
Em que pese a mazela,
Lhe fala ao coração?

Então, mais uma vez, o olhar da professora,
Procura ver além da imagem assustadora.

Tem a vida pra levar,
Tem filhos pra criar,
Não pode desistir,
Forçoso é resistir.
Tem que continuar:
Tantos a precisar
Da sua resistência,
Da sua eficiência
Da sua devoção,
Da sua imolação!

E, cheio de esperança, o olhar da professora,
Mais uma vez contempla a visão alentadora:
Um futuro diferente, em que outras criaturas
Poderão levar em frente jornadas menos duras:

As novas professoras, de uma nova geração
De crianças, tendo enfim, no Brasil uma Nação.

Ela compreende que não sonha, apenas, tal futuro,
Mas que o constrói, a cada dia, com seu trabalho duro.
E que, para educar, ela não mede sacrifício,
Pois essa é a dor e a glória do seu Sagrado Ofício.  (MM)

sábado, 14 de outubro de 2017

“COM TODAS AS LETRAS” - ALBUM DE KLEITON E KLEDIR 
MILTON MACIEL

Sou escritor. Mas, músico afeito aos teclados e à harmônica, também sou compositor; e sou letrista para terceiros. Mais: dentro do meu curso de formação de escritores, tenho uma oficina especial denominada “A Poesia da Música Brasileira”, dentro da qual tocamos músicas e desconstruímos as suas letras, feitas pelos grandes poetas da MPB. Em seguida invertemos o processo e passamos a construir novas letras para aquelas mesmas melodias, cada participante aprendendo a fazer isso com métrica, prosódia e rima, criando sua própria letra, com outro tema, para uma música de, por exemplo, Chico Buarque. 

Além de poetas, escritores e estudantes em geral, temos tido músicos participando dessas oficinas, cuja grande dificuldade é exatamente escrever letras para as músicas que compõem. Agora mesmo em São Paulo, no início de Dezembro, vamos ter mais uma dessas oficinas no espaço da escola de música Clube da Música, do Ipiranga.

Por isso fiquei muito feliz ao ler depoimentos de escritores importantes do Rio Grande do Sul, quando descrevem suas reações ao pedido que Kleiton e Kledir lhes fizeram para escreverem letras para composições que os irmãos Ramil lhes submetiam.
Participaram desse trabalho, que virou depois um album musical notável, os escritores Caio Fernando Abreu (póstumo), Claudia Tajes, Luis Fernando Veríssimo, Letícia Wierzchowski, Daniel Galera, Martha Medeiros, Alcy Cheuiche, Fabrício Carpinejar, Lourenço Cazarré e Paulo Scott, com participação especial de Adriana Calcanhotto.

Transcrevo aqui dois desses depoimentos:
Luis Fernando Verissimo:

Letra de música não é prosa nem poesia, é outra coisa. Não me perguntem que outra coisa é essa, passei muito tempo depois que o Kledir me pediu uma letra tentando descobrir como se fazia. Consegui, finalmente, mas não sei o que fiz. A experiência só aumentou minha admiração pela dupla K&K e outros letristas como o Vinicius, o Chico, o Aldir Blanc, o Caetano e outros mestres da outra coisa. Poesia pode ser musicada, claro. Em Nova York vi um espetáculo extraordinário, a cantora e atriz Audra McDonald interpretando Billie Holiday e cantando, entre outras músicas, numa imitação perfeita, “Strange fruit”, canção que nasceu como um poema de protesto contra o racismo no Sul dos Estados Unidos, inspirado na imagem de corpos de negros linchados pendendo de árvores como frutos estranhos. Há outros exemplos de poemas que viraram música, mas acho que a tese se sustenta. Letra é outra coisa.
Leticia Wierzchowski: (A Casa das sete mulheres)

Os desafinados também têm um coração Se tivessem me perguntado qual dom eu gostaria de ter, lá na grande repartição das almas ainda não-encarnadas, eu teria dito que gostaria de saber cantar. Durante a adolescência, flertei com a música e, por fim, ganhei um violão dos meus pais. Fiz uns dois anos de aulas, mas o problema todo era que, quando chegava em casa, ao tocar para minha plateia ansiosa, ninguém reconhecia a música. O professor era um hábil diversionista, enganando-me quanto à minha total falta de ouvido e ao meu desafinamento atroz. Aquele mundo charmoso do "um banquinho e um violão" não era mesmo pra mim, e aposentei o instrumento que, anos depois, virou fetiche dos meus filhos pequenos. Depois, comecei a escrever, enveredando pela vida de personagens ficcionais com muito mais afinação do que pelas cordas do meu violão esquecido no quartinho de guardados. Mas sempre admirei o poder de passar uma ideia, um sentimento, com uma letra de música. A precisão cirúrgica de provocar uma emoção em poucos minutos, e o que deve ser a energia de gerar uma emoção coletiva, vendo as pessoas cantarem em coro uma música - nós, escritores, escrevemos na solidão, esperamos meses, talvez anos, que o livro seja publicado, e depois dá-lhe solidão de novo, enquanto o leitor, lá na sua casa inimaginada, lê o nosso livro e experimenta as suas próprias emoções. Tudo exige muito tempo, e muita solidão. E não vou mentir que desgosto... Mas então os guris do K&K vieram com esta ideia de fazer música com escritor. Eles vieram com a sua alegria - não existe baixo astral com esses dois - e foram pacientes com os meus medos, com a minha timidez escorregadia e com as minhas pequenas e inúmeras bobagens - e então, dessas paciências todas, mais um pouco de cloro e tardes de sol, outro tanto de humor e de boas conversas, pois mate não teve, já que sou uma gaúcha de araque, foi que nasceu “Piscina”.

Esse material e toda a história do desenvolvimento do álbum está aqui:

Encontrei o pacote de CD + DVD + álbum ao preço de 50 reais em vários lugares da Internet.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

AGORA ELA VAI VOLTAR   - SAMBA
MILTON MACIEL  - Letra e Música

RECORDANDO o 9 de janeiro de 2015:
Hoje tive a felicidade de receber em casa o talentosíssimo músico paulista FIO JOSÉ (foto). Trabalhamos duro e no meio da tarde já tínhamos as duas primeiras gravações deste samba que compus apenas dois dias atrás. Na voz privilegiada de Fio José e com sua primorosa execução ao violão e ao cavaquinho, "AGORA ELA VAI VOLTAR" ganhou sua perfeita roupagem de samba autêntico.
AGORA ELA VAI VOLTAR – samba
MILTON MACIEL (letra e música)
É hoje que eu tô feliz,
Tô feliz,
Tô feliz!
Agora ela vai voltar,
Vai voltar,
Vai voltar!
É hoje que eu tô feliz,
Tô feliz,
Tô feliz!
Agora ela vai voltar,
Vai voltar,
Vai voltar!
A nega ficou injuriada,
Com tanta presepada,
Que eu aprontei por aí.
Arrumou os seus teréns,
Foi, me disse parabéns,
Me deixou sozinho aqui.
Confesso fiquei na pior,
Eu sofri barbaridade,
Bebi pra ficar na melhor,
Mas descobri a verdade:
Cachaça não mata saudade,
Cachaça não mata saudade,
Cachaça não mata saudade,
Cachaça não mata saudade...
Só que ela também penou,
Ficou sem o seu chamego,
Sentiu falta do seu nego,
Resolveu me perdoar.
Também bateu nela a saudade,
Saudade é coisa que arrasa,
E tá voltando pra casa.
E tá voltando pra casa,
E tá voltando pra casa,
E tá voltando pra casa,
E tá voltando pra casa.
É hoje!
É hoje que eu tô feliz,
Tô feliz,
Tô feliz!
Agora ela vai voltar,
Vai voltar,
Vai voltar!
É hoje que eu tô feliz,
Tô feliz,
Tô feliz!
Agora ela vai voltar,
Vai voltar,
Vai voltar!
FOTO: Fio José no cavaquinho e Alan no pandeiro. Muito talento reunido.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

ESCUTA-ME! 
MILTON MACIEL (rimas internas cruzadas)

Escuta-me.
Mas tem cuidado, por favor.
Todo meu ser está cansado:
Mal de amor! Como viver
com este fado? Entende-me.        

Mas tem paciência, te suplico.
Pois vago assim na impermanência
Onde fico, sem ter de mim
mais consciência. Apoia-me.

Mas tem firmeza, sê constante.
Pois que oscila, minha alma, na incerteza
angustiante. E, sem força, atônita vacila
em sua tibieza. Ajuda-me! 

Mas tem carinho, por piedade.
Pois que, transido, cansei de lutar sozinho
contra a saudade e o abandono descabido
dos quais definho. Compreende-me!      

Oh, por favor, escuta-me!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

MIRAGEM
MILTON MACIEL

“Não fossem os quases,
eu teria encontrado
o meu oásis”    (Cairo de Assis Trindade, em “Miragem”)


Decíduo,
Ambíguo,
Conspícuo,
Fui tudo isso pra chamar sua atenção.

Tímido
Crédulo
Trêmulo
Ante seus pés rastejei adoração.

Frívola
Trêfega
Pérfida
Revelou-se você só um desvario:

Aragem,
Miragem,
Vazio!...


segunda-feira, 9 de outubro de 2017

QUANDO O MUNDO QUER TE DERRUBAR
MILTON MACIEL

Não discuto
com o destino.
O que pintar,
eu assino.  (Paulo Leminski)

Momentos há em que este bruto Mundo
nos precipita em abismo tão profundo
que parece dizer-nos:

Ah, exploda-se!

Eu reajo, enfrento luto, não sossego,
mesmo perdido em tiroteio cego!

E se não consigo,
Apesar do meu esforço distrófico,
Dou de ombros e desligo, filosófico.
E ao tal Mundo digo:

Ora, foda-se!

domingo, 1 de outubro de 2017

ESSES  OLHOS  DISTANTES   
MILTON  MACIEL   

Se meus olhos tementes
Ousam mirar os teus olhos distantes,
É que existem correntes
Que os meus, suplicantes,
Prendem aos teus muito mais do que antes.

Se ainda mais do que antes,
Prendem-me a ti teus olhos envolventes,
É que os meus são amantes,
São cativos, coerentes
Com o amor que os faz de ti dependentes.

E, se são dependentes
Os meus olhos... também é o meu coração.
É que existem correntes
De inabalável coerção,
Que me fazem escravo desta devoção!

E aqui eu declaro, entre minhas correntes,
Que eu amo e que eu temo esses olhos distantes
E ante eles deponho vencido este meu coração.

sábado, 30 de setembro de 2017

O CAVALARIÇO 
MILTON  MACIEL 

Naquela noite gelada, William Mac Eth quase não conseguiu dormir. O frio do inverno, depois da primeira nevasca do ano, era cruel para quem tinha que dormir naquele monte de feno, que funcionava como sua cama – ali no estábulo onde Torneo era cuidado dia e noite. O cavalo de batalha de Sir Henry Comin recebia mais cuidados do que um nobre da corte. "Maldito Sir Henry! Que breve os vermes roam sua carcaça!"

Para ele, William Mac Eth, um herói da guerra de independência da Escócia, só havia aquele canto gelado numa estrebaria, um monte de feno úmido como cama e duas escassas refeições por dia. Ele, que havia dado seu sangue pela Escócia, que havia lutado ao lado de Sir William Wallace(*) até a covarde traição que o levou à prisão, à tortura e à execução em Londres, em 1305, por ordem do cruel Edward I – "Que sua alma continue a arder no inferno por todo o sempre, desgraçado!"

Para ele, William Mac Eth, que havia perdido os movimentos de uma das pernas na batalha de Stirling Bridge, quando William Wallace havia desmoralizado os bastardos ingleses, só havia agora o lugar de cavalariço de um nobre traidor, que se alinhara sempre com seus parentes, os Comins, contra Sir Robert Bruce, agora o rei de todos os escoceses leais.

Para ele, William Mac Eth, que, mesmo coxo e com dores permanentes, não deixara de lutar em Bannnockburn, em 1314, ao lado de Sir Robert Bruce, quando os escoceses haviam finalmente expulso de suas terras os diabos ingleses e feito correr o seu assustado reizinho Edward II, restava um tratamento humilhante, muito pior do que aquele que era dado a um cavalo.

Poucos escoceses sabiam que ele, William Mac Eth, tivera um papel fundamental na batalha que havia garantido a conquista da independência da Escócia. Ele, o Coxo, como passara a ser chamado, tinha sido o responsável pela fabricação e uso dos ESTREPES (caltrops), os grampos de quatro partes pontiagudas, uma das quais ficava sempre apontando para cima, e que desde os tempos de antes de Cristo eram usados para bloquear o avanço de cavalaria e de infantaria inimigas.

Em Bannockburn, ele havia coordenado o trabalho de sete ferreiros, que passaram dia e noite fabricando milhares e milhares desses grampos para usar no campo de batalha. Depois, com toda a sua dificuldade de locomoção e das dores atrozes que o acompanhavam há dez anos, desde Stirling Bridge, ele fizera questão de comandar os soldados que realizaram a distribuição dos estrepes naquela parte por onde os cavaleiros britânicos seriam obrigados a passar na hora da batalha.

Ali, ocultos pela grama alta, milhares de estrepes ficaram esperando os cascos dos cavalos dos malditos ingleses. Quando estes finalmente chegaram e o reizinho deles, Edward II, ordenou a carga de cavalaria contra os escoceses, o pandemônio produzido na tropa inimiga havia sido total. Os estrepes de Mac Eth haviam feito um estrago tremendo: cavalos saltavam relinchando, derrubavam seus cavaleiros que, caindo estrepitosamente com suas pesadas armaduras, não conseguiam mais levantar. Muitos tinham morte instantânea, quebrando pescoço ou a espinha. Inúmeros daqueles demônios invasores morreram pisoteados por seus próprios cavalos, enlouquecidos de dor e incontroláveis, com aqueles espinhos metálicos de 10 centímetros cravados profundamente nos cascos.

Com a cavalaria inutilizada inesperadamente, a infantaria inglesa ficou à mercê dos valentes homens de Sir Robert Bruce, que avançaram sobre eles e lhes impuseram uma humilhante derrota. Os ingleses bateram em retirada e seu rei decidiu que voltassem todos para Londres imediatamente. Isso equivalia a reconhecer a independência dos escoceses, finalmente.

Mas, no último momento, aquele maldito inglês o havia alcançado com uma flecha, enquanto fugia, o covarde. William Mac Eth tombou em terra, entre a vida e a morte. Foi dado como morto. Mas voltou a si dois dias depois, encontrando-se em meios a milhares de cadáveres em decomposição. Arrastou-se como pôde, esvaído em sangue, com sede, fome e febre. Desmaiou à beira de uma estrada, onde um bando de camponeses, que percorria o campo de batalha em busca de despojos para saquear, o encontrou.

William Mac Eth foi cuidado por eles e sobreviveu, depois de meses de lenta e penosa recuperação. Mas o que não recuperou direito foi sua memória. Por muito tempo esqueceu quem era. Estava assim quando Sir Henry havia passado por aquele lugarejo recrutando homens para servi-lo. Levou o desmemoriado para ser cavalariço.

Na propriedade de Sir Henry, ao mesmo tempo em que se afeiçoava ao arisco Torneo, o cavalo que era o único amigo que tinha agora na vida, Mac Eth foi recuperando sua memória aos poucos. E ficou enfurecido no dia em que finalmente lembrou quem era o maldito Henry Comin. Um escocês traidor dos escoceses, um dos bastardos que havia concebido e preparado a armadilha que prendeu o grande herói da Escócia, William Wallace, levando-o à morte humilhante em Londres.

Henry Comin era um rato traidor. E, como tal, não merecia viver. Mas, como tinha riqueza, terras e homens armados, Robert Bruce se compusera com ele e lhe dera o perdão que ele não merecia. Mas William Mac Eth não lhe dava o seu perdão. Se a Escócia e seu rei não executavam o traidor de Wallace, ele, William Mac Eth, o haveria de executar. Devia isso a Sir Wallace.

Na noite em que lembrou de tudo, Mac Eth, espumando de raiva,  correu para o lugar onde estavam seus poucos pertences, Ali, numa velha bolsa de couro, ele trazia sua relíquias de guerra.

Um osso que um inglês moribundo, que agonizava a seu lado em Bannockburn, lhe garantira que era do amaldiçoado rei deles, Edward I. O carrasco de Sir Wallace havia morrido poucos dia antes, quando liderava os ingleses em avanço para a Escócia. Morreu no meio do caminho. Já estava muito doente e o diabo viera buscar sua alma satânica semanas atrás. Pois o maldito deixou ordens para que seu corpo fosse cozinhado e seus ossos removidos e levados para Londres. O inglês que morria ao lado de Mac Eth amaldiçoou seu rei tirano e indicou a Mac Eth onde estava o grande saco que conduzia os ossos de Edward I. Suas últimas palavras foram para suplicar a Mac Eth que abrisse aquele saco e espalhasse aqueles malditos ossos entre os mortos, a maioria deles ingleses também. Que não deixasse que aqueles ossos chegassem a Londres. Com uma flecha espetada no peito e sua dolorida perna dura, William Mac Eth arrastou-se até o lúgubre saco de couro e rasgou-o com sua faca. E usou o resto de suas forças para ficar jogando aquelas peças de ossos no meio dos corpos espalhados pelo chão. Conservou um único osso de mão, que enfiou entre suas roupas. Se sobrevivesse, queria ter o prazer de esmagar aquela coisa do diabo com seus pés. Essa foi sua última lembrança de Bannockburn, perdeu os sentidos logo depois.

Mas o que William Mac Eth queria não era o osso da mão do bastardo, mas sim suas maiores relíquias da batalha: duas dúzias daqueles benditos estrepes que haviam sido absolutamente decisivos para a vitória escocesa. Eles voltariam ao campo de batalha agora. E o fariam por Sir William Wallace.

William Mac Eth sabia odiar para sempre. Mas já era agora um homem maduro, sabia também esperar, aprendera a ser paciente. Planejou tudo com muita calma e antecedência. E esperou a primeira neve do ano.

Sir Henry Comin costuma cavalgar e adestrar-se com suas armas, a maça principalmente, quase todas as manhãs, muito cedo. Mac Eth tinha que acordar por volta de quatro da madrugada e começar a preparar Torneo. Antes das seis, ainda escuro, já o senhor aparecia com dois homens de confiança. Estes lhe colocavam a armadura leve de treinamento e o ajudavam a montar. Então Sir Henry saía para galopar sozinho. Essa era uma rotina quase diária.

Naquela manhã, que sucedeu a uma noite mal dormida, não foi diferente. Às quatro horas ouviu os gritos de Ewin Mc Dougal:

– Levante, seu inútil preguiçoso! Vá preparar Torneo. Se Sir Henry chegar aqui e não estiver tudo do agrado dele, eu terei o maior prazer em dar vinte bastonadas nessa sua perna dura, seu idiota.

Mac Eth ergueu-se de um salto, ignorando a dor intensa na perna e surpreendendo o insolente Mc Dougal. É que ele estava excitado demais por causa das coisas daquela madrugada. Correu a preparar Torneo, o que em si era um ritual longo de muitas etapas, que lhe consumia muito mais de uma hora, até que o cavalo estivesse alimentado e impecavelmente limpo, escovado e arreado como para combate. Conversou longamente com seu amigo enquanto o preparava, pediu-lhe perdão em voz baixa, prometeu que iria cuidar bem dele depois.

– Já está caducando, Coxo? Conversando com cavalo? – era a voz de Roy M’Ean, o assassino usado por Henry Comin para se livrar de seus inimigos.

Mac Eth nada respondeu, apenas parou de falar com Torneo. Pouco depois Sir Henry chegou. Como de hábito, não lhe dirigiu a palavra, era como se o cavalariço não existisse. M’Ean e Mc Dougal colocaram-lhe a armadura peça por peça, deram-lhe o elmo leve, que o próprio Sir Henry fazia questão de colocar. E aí o ajudaram a montar em Torneo, que estava particularmente indócil naquela madrugada.

Mac Eth aproximou-se, para olhar o patrão bem de perto. Este aproveitou a proximidade para dar-lhe um empurrão com o pé em pleno peito, arrojando Mac Eth no chão. Os três homens gargalharam.

Para surpresa deles, William Mac Eth caiu também na gargalhada. Os outros não entenderam, mas não deram maior importância. Então todos saíram da estrebaria. Sir Henry afastou-se trotando com Torneo. Quando transpusesse a cerca sul, daria toda brida ao cavalo, que, já habituado, sairia a todo galope em direção à passagem da clareira na mata. Os dois ajudantes voltaram para a casa grande. E o William Mac Eth saiu para sua penosa caminhada, na qual ganharia a mata ali mesmo, a duzentos metros da estrebaria e caminharia por ela por quase um quilômetro, até chegar à clareira. Ali, com toda a certeza, teria um encontro com o passado!...

A neve voltava a cair, muito suave agora, o que alegrou William Mac Eth ainda mais. Encobriria seu rastros. Caminhava com dificuldade, a velha dor moendo-lhe as articulações, mas ia contente como nunca. Assobiava pela mata uma velha canção de guerra e vitória. Progrediu lentamente entre as árvores até que avistou, de dentro dela, a clareira. Aí fez um esforço sobre-humano e quase correu durante os últimos cem metros.

Ali, na clareira coberta de neve branca, dois vultos negros eram facilmente visíveis. Um se agitava loucamente: era Torneo. O outro estava completamente imóvel, o brilho metálico da armadura dele traindo as primeiras cintilações avermelhadas do sol, que ainda tardaria uma hora para nascer: era o desgraçado Henry Comin.

William Mac Eth coxeou o mais rápido que pôde até Torneo, que se debatia com um estrepe enterrado no casco. Quando o cavalo viu Mac Eth, trotou em direção a ele com a pata dianteira direita dobrada no ar. Torneo relinchava e bufava. Era certo que se queixava e pedia ajuda a Mac Eth.

– Meu velho, me desculpe por essa dor. E agora vai doer mais ainda, mas eu já vou tirar essa coisa do seu pé. E Mac Eth retirou da cintura uma enorme torquês de ferreiro, que havia levado para isso mesmo. Agarrou a pata de Torneo e, com um único golpe certeiro, apanhou e puxou com toda a força o estrepe para fora. O animal deu um verdadeiro grito de dor, mas, no segundo seguinte, olhando para seu casco, percebeu que a causa do seu sofrimento havia sido retirada por seu amigo. Ainda mantendo a pata ferida levantada, Torneo se moveu de forma que sua cabeça encostasse no peito do cavalariço. E então esfregou-a várias vezes no peito de Mac Eth. "E ainda há gente que diz que os animais não raciocinam, pensou Mac Eth. Este Torneo tem muito mais inteligência que o imbecil do M’Ean, com certeza."

Só então, depois de terminar de acalmar e acarinhar Torneo, William Mac Eth voltou-se a capengou até o vulto caído. O que viu lhe pareceu melhor do que esperava. Sir Henry Comin estava caído de costas, não tinha qualquer movimento, mas estava vivo! Movia os olhos e tentava falar alguma coisa. Mas a voz não lhe saía direito.

– Quebrou a espinha, desgraçado?

Henry Comin só gemia, os olhos apavorados, observando Mac Eth com expectativa e, agora, com uma evidente inquietação. Ensaiou falar de novo e o cavalariço entendeu que ele estava tentando falar a palavra socorro

William Mac Eth ajoelhou-se na neve e retirou o elmo do grande senhor daquelas terras.

– Mais confortável assim, Sir Henry Comin? Espero que sim, para que possa ouvir e entender bem sua sentença – e começou a dizer, com voz empostada:

– Henry Comin, maldito traidor do seu povo, maldito traídor de Sir William Wallace: Eu era um dos homens de Wallace! E eu estava lá, no meio do povo que assistia, quando aquele tirano do diabo, seu estimado Edward I dos ingleses, o fez torturar e decapitar. Henry Comin, traidor dos diabos, Robert Bruce, hoje rei dos escoceses o perdoou por sua infâmia. Mas o povo da Escócia não o perdoa. Sir Wallace não o perdoa. E EU não o perdôo.

Abaixou-se para pegar o estrepe com uma ponta ensanguentada, que havia retirado da pata de Torneo:

– Quer saber o que aconteceu, imbecil? Olhe bem isto aqui: É um estrepe. Eu coloquei duas dúzias deles sob a neve esta madrugada, aqui nesta clareira, que é caminho obrigatório para suas cavalgadas. Pena que tive que machucar meu amigo. Mas era certo que ele ia derrubar você, afinal é para isso que servem os estrepes. Pois é, você se estrepou, assassino. Sabia que esse verbo, estrepar, tem origem na palavra estrepe? Então agora vamos à sua sentença.

Os olhos de Henry Comin giraram esbugalhados nas órbitas, era evidente que ele estava procurando por seus homens. Além daqueles dois bandidos, ele tinha dezenas de soldados a seu dispor. Mas William Mac Eth apenas observava o desespero do grande senhor, totalmente desvalido e incapaz de dar suas ordens agora. O cavalariço empostou a voz de novo:

– Henry Comin, rato miserável, traidor imundo, ladrão, assassino e estuprador: Em nome da Escócia, em nome de Sir William Wallace e em nome do guerreiro escocês William Mac Eth, eu o condeno à morte! Nem precisaria, afinal agora você está um inútil pior do que eu. Eu perdi o movimento da perna, você perdeu todos os movimentos, idiota. Eu devia deixar você vivo para vegetar o resto da vida. Você iria sofrer muito mais, sofrer como merece. Mas não posso. Eu jurei a mim mesmo e jurei mentalmente a Sir Wallace, no momento em que ele era executado pelo carrasco, que eu haveria de executar, um a um, todos os seus traidores. Não foi preciso. Os outros já foram mortos ou morreram antes que eu pudesse lembrar - perdi a memória, você sabe. Mas sobrou você, seu rato imundo. Então eu lhe concedo o perdão...

Os olhos de Henry Comin se arregalaram de novo, uma expressão de alivio pareceu se desenhar neles.

– Eu lhe concedo o perdão... por mais alguns minutos! Aproveite, enquanto eu vou ali na frente, recolher o restante dos meus estrepes da neve. Sabe, são meus brinquedinhos de estimação. Eu os amava pelo que fizeram na guerra de independência em Bannockburn. Agora eu os amo mais, pelo que fizeram com você, seu miserável. Aproveite, viva bastante esses seus últimos minutos. Reze para eu demorar a encontrar todos os meus estrepes, porque eu não vou deixar nenhum dos meus filhinhos nesta neve fria. Vamos lá, comece a contar seu minutos finais, traidor imundo.

E William Mac Eth começou pacientemente a procurar com as mãos e resgatar seus preciosos estrepes da neve. Contou e recontou. Vinte e três! Com mais aquele de ponta avermelhada, que estava agora comodamente apoiado em cima do peito arfante de Henry Comin, vinte e quatro! Todos salvos...

Então manquitolou até o homem imóvel na neve:

– Olhe só: estão todos aqui. Só um deles acabou com você, Henry Comin. Um estrepe causou o seu fim, desgraçado. Sabe, eu até poderia considerar deixá-lo vivo, paralítico até morrer. É, acho que eu teria optado por fazer isso, seu sofrimento seria maior. Mas isso foi até agora há pouco, quando você me deu aquele chute na estrebaria. Agora eu tenho que lhe dar uma pena em meu próprio nome, além das que você recebe pela Escócia e por Sir Willian Wallace. E eu não sei perdoar uma afronta pessoal, Sir Henry Comin. Sou rancoroso e vingativo demais.

William Mac Eth abaixou-se e recolheu do chão a maça de Sir Henry, já semi-encoberta pela neve. E disse as últimas palavras daquela manhã, que via agora o sol brilhar radioso na linha do horizonte leste:

– Agora você vai entender porque eu tirei o seu elmo. Boa viagem até o inferno, Sir Henry Comin.

Girou três vezes a maça no ar, a enorme bola de ferro cheia de pontas refletindo a luz do sol nascente.

– Em nome de Sir William Wallace!

E a esfera de ferro desceu fulminante, tingindo de rubro a brancura da neve.

Um minuto depois, dois coxos avançavam pela floresta, mas agora rumo ao oeste. Um homem manco de uma perna, um cavalo com uma pata levantada. Mais algumas horas e, quando vissem que Sir Henry não tinha voltado para o almoço, sairiam homens à sua procura. Logo o encontrariam na clareira. Só não encontrariam mais seu cavalariço. Nem seu cavalo.

A floresta era grande. A neve, aumentando agora, apagaria as pegadas rapidamente. Em pouco tempo o cavalo já poderia ser montado. E então seu amigoTorneo compensaria sua velha perna estropiada, enquanto estivessem juntos. O resto... era o futuro. Que é sempre uma incógnita, porque que se preocupar com ele? O coxo de quatro pernas relinchava aliviado. O coxo de duas pernas assobiava feliz: "Onde estiver, Sir Wallace, que Deus o tenha!”

(*) Sir William Wallace foi protagonizado no cinema por Mel Gibson, no filme BRAVEHEART - CORAÇÃO VALENTE. O filme é bastante fiel à história, com exceção do romance com a princesa, que só apareceu no Inglaterra tres anos depois de Wallace ter sido executado. E também não foi verídica a morte do rei Edward I no dia da execução do herói escocês. O rei morreu anos depois.