sábado, 30 de abril de 2016

LUA  OCULTA – 94 (1a. parte)
MILTON MACIEL 

94 – VENENO DE LACRAIA
Fim do cap 92 - "Agora não era hora de brigar, era hora de união. Foi nesse momento propício que Natanael sugeriu a Diva que ele podia usar o 1080 com a amante asquerosa e inconveniente. O veneno!"

Diva topou na hora, com evidente entusiasmo. Sim, era o fim, a solução final para um problema que estava ameaçando atrapalhar a vida deles. Sem Lurdinha, tudo voltaria à normalidade tranquila de antes. E, para Natanael, que seria o encarregado de aplicar o veneno, seria uma oportunidade maravilhosa de praticar, de treinar para o grande momento final, quando eliminariam o maldito Pitoco para sempre de suas vidas.

Então Diva entregou a Natanael o pó e o líquido, retirados mais uma vez dos amplos frascos de 500 gramas e 1 litro, respectivamente, que Valdemar tinha guardados numa caixa metálica sem chave, em seu escritório. E sem cuidado maior, porque nunca poderia imaginar que Diva soubesse o que era aquilo. 

Natanael teve o cuidado extremo de comprar luvas de látex em um supermercado, máscara cirúrgica em uma farmácia e seringa de 5 mililitros e agulha fina em uma outra. E todos em outra cidade, Florianópolis, para não deixar qualquer rastro em Amarante.

Leu muito bem as instruções e Diva serviu como instrutora, contando o que vira Valdemar fazer, quando matou o concorrente Pimenta no escritório.

Então Natanael Bergonzi foi na sexta à noite para a casa modesta de Lurdinha. Ela morava ali sozinha, não tinha parentes em Amarante, viera de Pato Branco, no Paraná. Levou champanhe para comemorar, disse, para encanto da professorinha, que tinha terminado tudo com Diva Silva e que, na segunda-feira, Amarante inteira ficaria sabendo do seu amor por Lurdinha. 

E que abria mão do dinheiro todo da maldita tarada, tudo por amor a sua querida e seu filhinho. Antes o amor e a família, do que um dinheiro amaldiçoado.

Lurdinha chorou de contentamento, quis ligar para a mãe contado tudo na mesma hora, que estava grávida inclusive, que iam os dois casar antes do fim do mês. Mas Natanael suplicou-lhe que não fizesse isso. Na semana seguinte, ele fazia questão de tirar uma licença na firma e iria com ela, no carro dele, até Pato Branco, onde se apresentaria como pretendente e pediria a mão da filha em casamento, diretamente a seus pais.

Aquela noite, mais do que nunca, Lurdinha entregou-se em chamas a seu homem, seu futuro marido, o pai do seu filho, seu grande amor. Natanael aproveitou as últimas horas com aquela mulher linda e fogosa, gozou como nunca, três vezes até a madrugada, coisa que nunca lhe acontecera. Talvez fosse a excitação do ato que praticaria a seguir que o deixara tão viril, tão potente.

Quando Lurdinha dormiu enfim, exausta e feliz como nunca, Natanael Bergonzi retirou os apetrechos de sua valise, que estava ali ao pé da cama, inocentemente abandonada no chão.

Então o Lacraia assumiu o comando!

Luvas e máscara colocadas calmamente, aproximou-se da cabeceira da cama. Lurdinha moveu-se levemente. Ainda nua, dormindo, sorriu, o sonho certamente feliz. O Lacraia observou por muito tempo aquele corpo perfeito, com a barriguinha levemente saliente. Ficou um bom tempo também contemplando a beleza daquele rosto, que sorria à meia luz do quarto. Menina boa aquela, um mulheraço na cama, uma pena que a coisa tivesse que terminar assim...

Mas... que fazer? Com pesar genuíno no coração, o Lacraia começou a aplicar seu veneno. Deixou o pó cair suavemente sobre o seio esquerdo. Depois de uns minutos, começou a espalhá-lo muito suavemente ao redor da auréola, na pele alva. Aguardou mais um pouco. Sabia agora que Lurdinha não voltaria mais à consciência plena. Então aplicou uma dose menor do pó já diretamente dentro das narinas da moça. A inconsciência seria total em menos de dois minutos.

Contado esse tempo, parou para observar mais uma vez o esplendor daquele corpo nu. Que pena! – pensou – Pobrezinha, estava tão feliz!

Então abaixou-se de novo e, com muita delicadeza, introduziu a finíssima agulha na região do quadril da bela adormecida. Injetou o conteúdo lentamente, enquanto lembrava alguns dos seus melhores momentos com Lurdinha. Deu um suspiro fundo, sentiu pesar no coração outra vez...

Consumatus est!... Estava tudo pronto!

Juntou todos os apetrechos do crime, todas as suas coisas, as poucas roupas suas que mantinha na casa de Lurdinha. Hora de ir embora. Escolhera a sexta à noite para a execução porque ninguém mais viria atrás da professora até a semana seguinte. Só estranhariam sua ausência a partir da primeira aula da tarde na segunda. Procurou e desligou o celular dela. Assim teriam que vir atrás dela e encontrariam o corpo. Pensou, com tristeza, se já não estaria, então, começando a se decompor aquela obra prima da natureza.

Pronto, tudo pronto, já podia ir. Voltou-se outra vez para contemplar a beleza extrema daquele corpo de mulher; depois deixou o quarto e a casa com uma sensação de perda.  Do lado de fora, ao entrar no carro, lembrou que o certo seria sentir alívio.

Foi o que fez. Pensamento positivo! O seu grande problema estava acabado. E ele sabia agora muito bem como proceder para acabar com seu outro problema, esse ainda maior e mais pesado que Lurdinha: o volumoso e atarracado Valdemar Silva.

Ligou o rádio do carro, colocou um CD de rock pesado e arrancou suavemente. Vida nova! Bola pra frente...

A única coisa que escapou ao seu controle foi uma tal de Dona Nair. Que era a faxineira que vinha, todos os sábados de manhã, limpar a casa de Lurdinha. E que tinha algo além a confiança da professora: tinha a chave da casa. Dona Nair descobriu o corpo às 8 horas da manhã; Alcebíades Trancoso começou sua série fotográfica fantástica às 8 horas da noite do mesmo dia, fazendo hora extra. Para seu deleite de voyeur e para a gratidão eterna da polícia de Amarante. Não fosse Dona Nair e o belo tom amarelado das fotos estaria perdido para sempre.

Nisso o Lacraia não foi feliz. Mas, sentado naquele banheiro de luxo em Paris, ele ainda não sabia nada disso.

A tarde passou para ele e Diva entre amores e confidências, entre sorrisos e comemorações. Os dois amantes estavam no céu. Tudo tinha dado certo para eles, os que ousaram se atravessar no caminho de um e de outro acabaram tombando pelo percurso, como tinha que ser. A sequência das mortes era simplesmente magistral, rememoraram, felizes:

1 – Valdemar matou Pimenta. O pobre concorrente entrou na história só para que eles pudessem descobrir aquela arma secreta fantástica, que o maldito Pitoco havia conseguido, sabe-se lá como. Pimenta não tinha feito nada contra eles, muito pelo contrário, os tinha beneficiado como se fosse um anjo protetor. Mas tivera uma morte gloriosa, mais do que necessária para eles.

2 – Natanael matou Lurdinha. Antes que ela detonasse todo o futuro dele, com aquela estupidez de golpe da barriga e exigência de casamento. Uma morte lamentável. Porém necessária.

3 – Diva matou Eunice. Antes que aquela anta virasse uma ameaça real. E, ainda mais, para que Diva pudesse testar a facilidade e a eficácia da metodologia da morte. Nada a lamentar.

4 – Narciso matou Valdemar. Uma morte necessária para o futuro de ambos. Mais: imprescindível. Mais ainda: uma morte com o doce sabor da vingança, a eliminação total da face da Terra daquele orangotango presunçoso, porco e violento. Diva tinha jurado vingar-se dele aos 17 anos. Tudo a celebrar agora. Como única coisa a empanar o brilho da celebração, a dura realidade que aquele bastardo do seu pai tinha morrido antes que ela fosse poderosa o suficiente para fazê-lo pagar pela venda indecente de uma filha. Que ardesse no inferno por todo o sempre, maldito pudim de cachaça!

5 – Natanael matou Narciso. Outro acidente de percurso, como o de Eunice, só que com muito mais gravidade. Um chantagista primário, mas um cara que sabia demais. Tinha sido o braço vingador de Diva, o braço executor de Lacraia. Mas um imbecil que se deixara ver por Adolfo Schlikmann durante a execução. Merecia morrer por tudo isso.

Enquanto revisavam felizes e amorosos essa sua contabilidade letal, os dois amantes brindavam o sucesso total com champanhe francesa, o que, ali na França, era apenas champanhe nacional, comum, acessível e barato.

Natanael Bergonzi tinha mais razões para sorrir. Diva não sabia, nunca ele lhe revelara, mas havia mais uma morte a incluir na lista e a comemorar. A daquele palhaço de Caruaru, o Esteves, que atrapalhou sua conquista da rica herdeira dos Dantas, de Toritama. Despachou o desgraçado na peixeira, mas era muito novo e inexperiente, deixou rabo e testemunhas, foi preciso seu velho, aquele retardado, assumir a culpa por ele, para ele poder sair livre da empreitada e se mandar para o Sul.

Essa figuração era hors concours. Mas merecia ser incluída, ainda que na ordem cronológica errada, era um triunfo de 22 anos atrás:

6 – Natanael matou Esteves. Maravilha!

Sim, ele tinha três mortes nas costas. Diva tinha uma. E, juntos, eles tinham mais duas: Lurdinha e Valdemar. Natanael gargalhou, chamando a atenção de Diva Simonetti:

– Que foi, amorzinho? Lembrou do que?

– Lembrei do ditado que os idiotas ensinam para os imbecis.

– Qual?

– “O crime não compensa.”

Gargalharam juntos os dois, brindaram com mais champanhe, resolveram sair para jantar. Um simpático bistrô ali pertinho acolheria o casal de apaixonados. 

CONTINUA

sexta-feira, 29 de abril de 2016

LUA  OCULTA – 93
MILTON MACIEL 

93 – DO QUE PODEM UMA BOCA SÁBIA E UMA MENTE PERVERSA
Fim do cap 92 - "– Eu até dei uma choradinha, pro Rondelli ver. Mas eu chorei mesmo foi de raiva, porque achei a maior injustiça não ter podido aplicar o veneno naquele verme eu mesma. Mas vamos descer do táxi amor, o homem está nos olhando com uma cara!" 

Desceram e pagaram a corrida, o motorista olhando-os com cara de desprezo e reprovação. Bergonzi deu de ombros e comentou:

– Cacete, gata, que luxo essa sua avenida! Cada prédio mais imponente que o outro, um estilo antigo. E eles não são muito altos, não?

– Outra hora eu te explico tudo, amor, mostro tudo. Mas agora vamos subir, porque o que eu quero mostrar pra você é outra coisa. E você sabe muito bem o que é, você deixou ela toda molhadinha, tesão.

Subiram pela ampla escadaria, Bergonzi carregando suas duas malas e Diva levando a valise de mão. A todo instante paravam para se agarrar e beijar. Entraram enfim no apartamento e Diva levou Natanael, pela mão, direto para o grande banheiro, onde ligou a ducha de água quente e ambos se despiram aos beijos e abraços.

Fizeram amor de pé sob o chuveiro, os respectivos orgasmos vieram rapidíssimos, estavam atrasados mais de 90 dias. O atraso fez com que Diva, que raramente gozava com penetração, conseguisse fazê-lo.

Só então dedicaram-se a lavar um ao outro paciente e meticulo- samente, num longo ritual que foi reacendendo a chama da paixão. Depois correram nus, mal passando a toalha sobre o corpo, e entraram no grande e luxuoso quarto aquecido. Diva jogou-se de costas sobre a cama e afastou bem as pernas, abrindo os lábios maiores com os dedos das duas mãos:

– Prontinha, amor. Olha só ela aqui, bem rosadinha como você gosta, prontinha pra sua boca e pra essa língua que me deixa louca. Vem, vem, mata a minha saudade, mata a minha fome. Me chupa, me lambe toda, me faz gozar como só você sabe!

Natanael Bergonzi colocou os joelhos no chão acarpetado e mergulhou de cabeça naquela rósea intimidade, rodeada de claros pelos castanhos, meticulosamente aparados. E começou a sessão daquilo em que era mestre consagrado, sua inigualável experiência e perícia levando as mulheres ao delírio vezes sem fim.

Diva Silva, de todas as amantes que tivera, era aquela que mais gozava com essa prática. Enlouquecia e gemia muito alto, quase urrava de prazer. Praticamente não tinha orgasmos com penetração, mas endoidecia quando trabalhada com perícia pelos lábios e pela língua de um mestre como ele. Na primeira vez que fizeram amor, há coisa de uns nove anos atrás, ele foi direto à fonte e ela ficou travada e constrangida.

Bergonzi descobriu depois, quando ela se abriu, que o palhaço do marido dela falava que aquela parte de uma mulher era uma coisa nojenta e que macho não se rebaixava a fazer isso. E a tonta tinha acreditado nessa estupidez.

Quando ele lhe deu o primeiro “banho de língua”, Diva teve o seu primeiro orgasmo numa relação sexual. E foi um orgasmo devastador. Nunca o tivera com aquele orangotango do marido, que chegava, enfiava, gozava em dois minutos e caía de lado, roncando. Diva só conseguia gozar, desde menina, se masturbando.

Quando ela contou, chorando muito, sua vida sexual com o primata rude que era o marido dela, o amante conseguiu entender perfeitamente como a jovem esposa tinha ficado profundamente traumatizada pelas experiências com aquele monstro. Isso tornava mil vezes mais fácil o caminho para ele, o amante, para mantê-la apaixonada e submissa. Bastaria agir sempre como o oposto polar do orangotango, com carinho, respeito, sensualidade e fazendo-a ter, cada vez mais, seus orgasmos múltiplos devastadores, graças ao sexo oral.

Assim sempre a teria a seus pés e um dia, no futuro, quando houvesse condições seguras, poderia fazê-la livrar-se daquele estrupício e ficar com muito dinheiro. A cada ano que passava o baixote crescia em fortuna e Natanael Bergonzi sabia que não devia ser afoito, apressar-se à toa.

Não, tinha todo o tempo do mundo. Era só manter com perfeição suas duas grandes conquistas naquela cidade: a confiança daquele empresário inescrupuloso e traiçoeiro, mas cada vez mais milionário; e a paixão enlouquecida da mulher daquele primitivo, a parte mais fácil e mais agradável do seu longo trabalho de catequese.

Sim, se ele soubesse agir com calma e determinação, com paciência e perseverança; se construísse uma reputação de homem íntegro e competente; se mantivesse sua condição de amante fogoso e carinhoso, então seu futuro estaria garantido.

Não importava que precisasse trabalhar assim por anos, estava já ganhando um bom dinheiro, mas que não era nada perto do que ele um dia iria conseguir arrancar, através daquela futura esposa divorciada do macaco, ou, ainda melhor, da futura viuvinha mais rica de Amarante.

Agora, enquanto trabalhava com a língua e a boca, ajoelhado sobre o carpete macio daquele quarto de luxo, Natanael Bergonzi tratava de ocupar sua mente, para aguentar o longo e cansativo exercício de perícia e paciência. Diva ia gozar duas, três, seis, dez vezes, antes de se sentir exausta e pedir que ele parasse. Mas esse era um ritual que correspondia a uma espécie de acordo tácito entre eles: ele lhe dava esse tipo de sexo, que era o único que ela adorava, e ela o mantinha na condição de herdeiro potencial, futuro marido da divorciada ou da viúva Diva Simonetti, ex-Silva.

E, claro, ajudava sua ascensão na empresa do mão-de-vaca do marido, falando bem dele, desde que apenas como profissional.

 Precisava manter sempre, para o marido, a história que não simpatizava de jeito nenhum com aquele gerente dele, mas que tinha que reconhecer que ele era honesto e competente como nenhum outro.

No fundo, Natanael sabia que a fortuna só viria com a morte do miserável do Pitoco. É claro que Valdemar nunca deixaria Diva divorciar-se dele, levando uma parcela enorme dos seus bens. Nada mais certo do que o fim sumário da mulher, que ele mandaria matar imediatamente. Não, não, cuidado e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

Esperaria, cresceria em importância e confiança dentro da estrutura toda de Valdemar Silva. E cresceria em importância para a futura viuvinha, cada dia mais envolvida, mais submissa a ele, mais dependente dele para sexo, prazer e carinho, literalmente viciada nas práticas enlouquecedores de seu amante gostosão.

Então agora, em plena Paris, ajoelhado e trabalhando duro, encenando gemidos e falando de vez em quando palavras excitantes, mais para descansar os lábios amortecidos e a língua que doía, do que para dizer verdades de amor, Natanael decidiu recordar, para ocupar a mente, a história que ela havia lhe contado tantas vezes: a história do desastre sexual que tinha sido a vida de Diva Silva antes de entregar-se a suas mãos – e boca – de mestre.

Um trauma

Quando aquele baixinho gorducho, dono de mais de um caminhão, propôs pagar por sua virgindade ao pai dela, Diva ficou apavorada quando soube que o velho bêbado tinha aceitado o negócio. Ela tinha 17 anos e mantinha-se virgem, abaixo de muito medo – do pai e do castigo divino. Mas então aquele homem feio, horroroso, muito mais velho do que ela, pagou por ela, e cumpriu a condição, que era casar antes, ali mesmo na capelinha da Linha Mangelli, modesta aglomeração de casinhas da colônia italiana remanescente, na zona rural entre Amarante e Rio dos Cedros.

Pagaram um padre de Pomerode para vir oficiar a cerimônia e, naquela mesma noite, Valdemar Silva levou sua presa para a cabine do caminhão e a executou ali mesmo, a menos de 5 quilômetros de casa, em plena estrada. Foi um verdadeiro estupro e a menina nunca mais se refez do horror dessa experiência. E do cheiro horrível daquela coisa do homem, que a obrigou a botar a boca ali e ficar fazendo um monte de movimentos cansativos, que pareciam não ter fim, até que uma coisa salgada e gosmenta esguichou dentro dela, fazendo-a assustar-se e afogar. E a vomitar de nojo.

Depois de mais meia hora, o homem parou o caminhão de novo no acostamento, mandou-a deitar no banco, abrir bem as pernas, sem a calcinha e entrou nela com violência, sufocando-a com o peso do seu corpo balofo e com a insistência de seus beijos molhados e nojentos, cheios de uma baba com cheiro e gosto de cigarro, falando grosserias e palavrões com evidente prazer.

Diva Simonetti, 17 anos, odiou Valdemar Silva desde aquela noite infernal. Agora era ela propriedade dele, ele a tinha comprado de seu maldito pai. Mas um dia ela haveria de ficar por cima e haveria de se vingar desses dois desgraçados, nem que fosse a última coisa que fizesse na vida.

Mas, em poucos dias, a menina compreendeu qual seria sua real situação. Descobriu que o homem tinha uma casa luxuosa em Amarante, era dono de uma transportadora pequena, mas já possuía seis caminhões.

Diva Simonetti, agora Silva, descobriu-se de repente uma mulher rica. Para sua condição anterior de quase indigente, filha daquele maldito, com mais oito irmãos, trabalhando duro na roça e sem direito a escola, analfabeta e muito pobre, tornara-se agora tremendamente rica. Subitamente aquele brutamontes baixinho se engraçara com ela e a comprara; por um bom dinheiro, certamente, nunca teve ideia de quanto.

Foi ali na cidade de Amarante, com uma casa bonita e duas empregadas domésticas, que a menina Diva descobriu muitas outras coisas. Descobriu, por exemplo, que ela era muito bonita, muito mais bonita do que podia imaginar. Bastou ter dinheiro para roupas de luxo e poder ir a salões de beleza, e ela se descobriu tão fascinante quanto o caminhoneiro dizia que ela era.

Essa era a parte boa: ela podia pedir o dinheiro que quisesse a ele, desde que fosse para se embelezar ou embelezar a casa. O Pitoco, como era o apelido que ele detestava, era um exibicionista nato, adorava mostrar que podia comprar coisas caras. Entre essas estava a bonequinha linda, que ele tinha comprado do pai na Linha Mangelli.

Mas Valdemar, que vivia mais tempo na estrada do que em casa, era brutalmente ciumento. As duas empregadas, que moravam no emprego, eram, antes de mais nada, as guardas do presídio. Diva nunca podia sair só. E nenhum homem podia entrar naquela casa, em hipótese alguma.

Quando precisaram de um encanador, a garota teve que passar o dia todo fora com uma das empregadas, enquanto a outra, uma velha de 66 anos, ficava em casa com o rapaz que fazia os consertos.

Foi aí que Diva descobriu, fascinada, o mundo dos concursos de beleza, que acompanhava na televisão e nas revistas, depois que conseguiu aprender a ler, com duas professoras particulares que vinham em casa. Quando, ingenuamente, suplicou ao marido que lhe permitisse inscrever-se no concurso de Miss Amarante, achando que ele ia adorar a ideia, foi que levou a primeira surra dele, que a chamou de tudo, de puta rampeira para cima. Mulher dele não era para ser olhada pelada pelos outros. Aquela foi a primeira de muitas outras surras que viriam. O ódio contra o orangotango desprezível cresceu proporcionalmente.

E também sua frieza sexual com ele, que era absoluta. Por Valdemar ela sentia desprezo, raiva, ódio, nojo e medo, muito medo. Como poderia achar sexo bom com aquele animal? Gostava de se masturbar, pensava em artistas de novelas, não só para se excitar, mas também para ter a sensação maravilhosa que estava enfiando os chifres naquele desgraçado. Sabia que, se o fizesse de verdade, seria uma mulher morta.

Com o tempo aprendeu a se resignar e fingir. Fingia vontade, fingia orgasmos, fingia gostar dele. Ajudava o fato que o nojento não a importunava sempre, havia inúmeras vezes em que, soube-o pelas empregadas, ele preferia ir para a zona e usar as putas. Então teve muito medo de pegar doenças, Aids, exigiu que ele usasse camisinha com ela e apanhou de novo. Mas não desistiu, continuou insistindo e apanhando, até que ele acabou concor-dando. Principalmente depois que ela ficou grávida.

A gravidez foi o melhor período de sua vida de casada, porque o animal parou de procurá-la na cama, achava que podia ocasionar a perda da criança. E, depois que a barriga cresceu muito, porque, segundo ele disse claramente, ela tinha ficado feia demais. Aquilo tudo foi uma maravilha, infelizmente interrompida com o nascimento da menina Larissa. Dois meses depois, ele voltou a importuná-la com aquela coisa dura e desconfortável. E malcheirosa, mais do que tudo.

Os pensamentos de Natanael foram interrompidos pelo tão esperado “Ai, agora chega, benzinho, não aguento mais.”

Ufa, até que enfim! Agora era a vez dele. Era só esperar a convocação. Que veio um minuto depois:
– Pode vir amor, sua vez, enfia.

Ah, a mesma lengalenga de sempre. Primeiro ele tinha que trabalhar horrores para ela gozar muito. Depois, quando ela estava não só saciada, mas exausta de tanto gozar, aí ele subia para o clássico papai-mamãe. Era a sua vez de gozar. Mas ele sabia que tinha que se apressar, porque, se demorasse mais do que dois ou três minutos, vinha aquela frase que o deixava irritado, nervoso, indignado mesmo. E que, em mais de uma vez, o tinha feito simplesmente brochar e cair fora.

Hoje certamente não ia acontecer, ele estava mesmo muito excitado, ia ser rápido. Mas não foi o suficiente para que a frase fatídica não viesse. Ela falou, com aquela costumeira voz de cansaço, quase de sono:

– Ainda vai demorar? falta muito?

Ah, desgraçada! Egoísta! Ele trabalhava quinze minutos para ela, se esfalfando, e ela não podia ficar quieta, de perna aberta, por 3 minutos que fosse, sem precisar fazer nada, se cansar, fazer qualquer movimento? Inferno! Ah, mas hoje ele não ia parar, ia até o fim, precisava se aliviar.

Continuou por mais um minuto até acabar. Para manter a excitação e não brochar por causa da frustração e da irritação, imaginou outra vez que transava com Lurdinha, a única mulher que ele tinha de fato amado nos últimos anos, que era um furacão na cama, que não se cansava de fazer tudo o que ele mais gostava.

A professorinha
Gozou vendo o rosto de Lurdinha, sua boca falando palavras excitantes, sorrindo para ele com ternura. Depois saiu de cima, foi para o banheiro lavar-se, sempre lembrando de sua pobre professorinha.

Coitada, quis dar o golpe da barriga pra cima dele, obrigá-lo a casar com ela, certa que ele o faria por amor à criança que ia nascer.

Fechou a tampa do vaso sanitário e usou-o como uma cadeira. Gostava de lembrar de Lurdinha. Vinha-lhe uma sensação boa de amor correspondido, de sexo gostoso. E uma sensação boa de trabalho bem feito, bem sucedido, quando foi preciso apelar para a ignorância no final. As duas coisas o faziam sentir-se gratificado.

Estúpida, Lurdinha! Burra! Como é que ele ia casar com uma professora primária sem um tostão furado e desistir de sua presa principal, sua futura divorciada ou viúva riquíssima? Ora, filho uma pinoia! Tinha que reconhecer que amava Lurdinha, mas business is business! Não era um sentimento idiota daqueles que ia atrapalhar seu futuro de homem rico e poderoso.

Só que a Lurdinha grávida começou a mudar, ficou mais emotiva e mais inconveniente.

E então fez o pior de todos os erros. Ameaçou revelar o caso deles para todo mundo, para Diva Silva inclusive. Sim, ele tinha sido idiota o suficiente para confessar para a moça, no início da relação, quando estava muito apaixonado, qual a razão de não poder assumir publicamente o namoro deles. Falou-lhe que era chantageado pela mulher do patrão, que era seu escravo sexual, mas que se sujeitava a isso porque ela lhe prometia uma grande recompensa em dinheiro, para ele ajudá-la a se divorciar do marido e levar uma boa parte da grana dele. Afinal, ele era a única pessoa em quem aquele bestalhão confiava.

Durante um tempo, Natanael conseguiu levar sua professorinha no bico. Afinal, ele era um craque nisso com as mulheres. Mas, depois que engravidou, porque parou de tomar a pílula de propósito, Lurdinha começou a pressioná-lo para assumir a relação, dizendo que se ele não desse um jeito de se livrar da patroa ninfomaníaca e revelar o amor deles para todo mundo, ela mesma o faria, contando para todos, inclusive, que estava grávida de Bergonzi.

A barriga de Lurdinha estava começando a ficar evidente. E, quando ela lhe deu um ultimato, dando-lhe só uma semana para resolver tudo, caso contrário ela iria pessoalmente a Diva Silva e contaria tudo, Natanael começou a entrar em pânico. Era a hora do tudo ou nada. Ou defendia seu dinheiro agora drasticamente, ou perdia tudo.

Pensou muito e resolveu que o melhor caminho era abrir o jogo com a própria Diva. O risco seria menor do que se ela viesse a saber tudo por Lurdinha. Chorou muito, confessou que tivera um caso fugaz, sem amor, com uma professora, porque Diva não o amava de verdade, só o usava sexualmente, só pensava no prazer dela, nunca no dele. Fez-se de vítima, de apaixonado não-correspondido, de coitado chantageado por outra amante inescrupulosa, que lhe aplicara o golpe da barriga; uma amante que ele não só nunca amara, como da qual sentia agora o mais profundo nojo.

Diva ficou furiosa no início, ameaçou terminar tudo. Mas Bergonzi sabia que aquilo não era verdade, que ela dependia dele para ter sexo e cumplicidade, para poder falar mal do macaco que odiava, para continuarem com o plano de, muito em breve, mandarem aquele maldito pro inferno com o veneno e ficarem com o dinheiro dele. Agora não era hora de brigar, era hora de união. Foi nesse momento propício que Natanael sugeriu a Diva que ele podia usar o 1080 com a amante asquerosa e inconve-niente. O veneno!

CONTINUA

terça-feira, 26 de abril de 2016

LUA  OCULTA – 93
MILTON MACIEL 

93 – ET VIVE LA FRANCE!
Fim do cap 92 - "Ah, Gládis De Rios! Ainda bem que ela não podia adivinhar agora o que ele estava pensando fazer com ela, toda entregue em seus braços, fogosa e sensual. Ou será que podia?... Por um momento teve um frêmito de incerteza, chegou a imaginar o peso do sapato nos países baixos. Meu Deus, tomara que não possa!"


Alguns dias antes de Eurico chegar a estas sensacionais conclusões, quem chegava a outro ponto era o ex-gerente Natanael Bergonzi. Chegava mais exatamente a Roissy-Charles de Gaulle, o grande aeroporto internacional que serve Paris e sua região.

Uma hora e vinte depois de o avião da Air France, procedente do Brasil, taxiar na pista, cumpridos os rituais de passar pela alfândega e da retirada das bagagens, Natanael pôde enfim cair nos braços amorosos de sua viuvinha querida, que lhe disse com voz apaixonada:

– Meu amor! Que saudade. Parece mentira.

E, falando isso, uma Diva Silva muito diferente apertou-se contra seu amante brasileiro. Natanael mal podia acreditar no que via. Sua amante estava pelo menos uns 15 anos mais moça, a pele do rosto lisinha e sem rugas, brilhante sob uma maquiagem bem menos pesada do que aquela que usava sempre. Seu cabelo agora era pintado de loiro, num tom idêntico ao loiro natural de sua filha Larissa. Também o corte deixava-a muito parecida com a filha. A parecença já existia normalmente, mas as diferenças eram também muito acentuadas, a idade sendo a maior delas.

Os cabelos de Diva Silva sempre tinham sido mantidos num castanho claro, oscilando as tonalidades das tinturas em torno desse seu tom natural. Agora estavam cortados e tingidos como os da filha. De uma certa distância, Natanael considerou que as duas poderiam ser confundidas uma com a outra, especialmente agora que Diva havia feito uma evidente cirurgia plástica. O fato é que ela estava muito mais bonita do que já era. Foi isso que Bergonzi falou, assim que sua companheira liberou seus lábios dos famintos beijos de língua:

– Menina, você está uma gatinha, uns 15 anos mais moça. Está gostosa, me deixa morto de tesão. Sua bandida, foi por isso eu você me segurou tanto tempo no Brasil, tendo que fazer hora lá naquela cidadezinha morfética onde eu nasci, é?

– Claro que foi, meu garanhão. Se você chegasse aqui antes, ainda ia me encontrar toda inchada da plástica. Não ficou o máximo? Fiz na Suíça, logo que cheguei na Europa, numa clínica bárbara, que só atende celebridades e artistas de cinema e televisão. Vários dos cirurgiões ali fizeram estágio com o Dr. Ivo Pitangui, no Brasil. O meu, o Doutor Luther, morou dois anos no Rio de Janeiro pra isso e fala um português bem razoável.

–Pô, o cara é bom pra burro! Mas também deve custar os olhos da cara, você chega usada, sai novinha, mas sai cega, sem os dois olhos.

– Engraçadinho! Pra mim pouco se me dá o quanto custa, desde que fique perfeito. E ficou, não é? Isso que não desinchou tudo ainda, vai ficar muito melhor, você vai ver.

– Ficou, sim, gatinha. Ficou demais. Você está parecendo a sua filha, juro. Só que você é muito mais gostosa, não é só água com açúcar como ela, que não dá tesão na gente.

Diva apertou-se ainda mais contra ele, para excitá-lo. Sentiu imediatamente a reação do homem lá embaixo. Disfarçou, olhou para os lados, no saguão cheio de gente, e passou a mão rapidamente, apertando o que queria.

–Ai, que saudade dessa gostosura aí. Não vejo a hora, três meses de secura, vamos embora logo pro meu apartamento. Você também está muito lindo, um tesão, meu gato.

Pouco depois, dentro do taxi, começaram as brincadeiras com as mãos, passeando por baixo do largo casaco de pele de Diva, convenientemente estendido sobre o colo de ambos. As mãos abriram os zíperes, as bocas procuraram as bocas, e a viagem ficou mais curta e mais rápida. Num certo momento viram a cara de poucos amigos do motorista pelo espelho e resolveram maneirar. Paciência, quem esperou três meses, podia esperar mais uma ou duas horas. Acabou sendo bem mais do que duas horas, o trânsito de Paris deu suas boas vindas ao Lacraia.

Tendo que parar de agir com as mãos e beijar, Diva usou a boca só para falar, perguntando:

– E aí, tudo certo lá no Brasil, meu bem?

– Certíssimo, gata. Tudo morte natural, os babacas nunca desconfiaram de nada. Exceto, é claro, aquele idiota do Narciso, que achou que podia chantagear a gente. Esse eu tive que apagar no tiro mesmo. Mas foi a maior moleza, como você já sabe. Levei o dinheiro pro panaca, ele abriu e contou no carro, nunca tinha visto tanta nota azul na vida dele. Uma coisa eu posso dizer que fiz de bom pra ele: o  palhaço morreu feliz, estava rindo todo contente, com a grana na mão, quando levou o tiro no coração. Morte instantânea. Morreu rindo, mas de olhão arregalado.

– Ai, essa eu queria ver, deve ser lindo ver um cara empacotar assim, num segundo! Os outros que a gente despachou levaram muito tempo pra ir pro inferno. E eu perdi essa! Ah, mas o pior foi que eu perdi o melhor de tudo, eu não pude estar ali naquela delegacia, pra dar a injeção naquele macaco maldito, teve que ser esse guarda imbecil.

– Ah, benzinho, mas aí era dar muita sopa pro azar, não é? O Narciso nunca sonhou que você estivesse por trás da coisa, sempre pensou que era coisa só minha, de vingança. Eu convenci o babaca que era isso, que eu tinha ódio daquele patrão que me explorou a vida inteira. E que ia aproveitar que o Schlikmann estava preso na mesma cela e a gente apagava o Silva, deixando as suspeitas com o alemão, caso descobrissem algo na autopsia. E foi o que aconteceu, infelizmente.

– Ah, mas a morte daquele nojento foi uma maravilha, amor, a nossa independência pra sempre.

– Agora veja se dá pra entender aquilo que eu te falei no telefone: o Narciso me contou que veio um legista filho da puta e descobriu o lance do 1080. Aí podia, quem sabe, pesar pro nosso lado. O Narciso ficou se borrando de medo, mas, dias depois, ele me telefonou pra contar que o alemão tinha confessado que foi ele que matou o Silva. Veja só, o cara tá todo doidão da cabeça, Alzheimer ou coisa que o valha, e faz uma besteira dessas.

– Como foi mesmo a coisa, gato?

– Lembra que eu te contei que o Narciso viu o filme do alemão variando? Aí ele dizia que o Valdemar se fudeu, morreu e fazia um gesto de quem dá injeção. Quer dizer que o filho da puta viu quando o Narciso estava matando o macaco. Devia estar acordado e o imbecil do guarda achou que o sujeito estava dormindo. Pois, pra sorte nossa, o cara endoideceu de vez e começou a fazer aquela coisas do filme, então o delegado tem certeza que é ele o matador.

– Ai, meu amor, que sorte a gente deu nisso, hein?

– Sorte e esperteza, minha gatinha. Porque eu ensinei o Narciso a fazer uma encenação do caralho, subir no forro da casa velha da delegacia e fingir que tinha achado pistas, uma luva de látex, pegadas, telhas remexidas. E o primário daquele delegado e o sargento carcereiro, um tal de Mota, pô, os bestas acreditaram em tudo o que o Narciso encenou, gata! Uns débeis mentais, uns caipiras de interior mesmo, uns roceiros. Desse perigo nós estamos livres pra sempre! E os outros presuntos, esses a terra já queimou os arquivos pra nós.

– É, mas o método é perfeito, bendita hora que aquele nojento mandou vir o 1080 pra liquidar o concorrente dele. E bendita a hora em que eu ouvi ele comentando a coisa toda com o Ramiro Toco, se exibindo todo, um dia antes de liquidar o cara de Rio dos Cedros. Aí eu fiquei ligada, de sobreaviso, e, quando ele me pediu para deixar os dois sozinhos, no escritório dele, lá em casa, depois do jantar, eu tive certeza que era naquela hora que ele ia usar o tal produto mágico. O macaco encheu ele de uísque antes do jantar, depois tacou-lhe várias marcas de vinho, que o cara tinha que experimentar. Ele estava mais bêbado que gambá, quando entrou no escritório caindo pelas tabelas, o Valdemar amparando ele. O cara já estava meio apagando, aí o nojento jogou o sujeito no sofazinho e fechou a porta.

– E, pra sorte nossa, você viu tudo.

 – Vi porque me abaixei e olhei pelo buraco da fechadura. O sofá ficava bem em frente à porta. Aí eu vi o desgraçado botando máscara e luvas, esfregando o pó no ombro do cara, depois embaixo do nariz. E aí ele tirou da gaveta dele a seringa, que já tinha o veneno líquido, e injetou no homem. Levou uns 20 minutos pra fazer tudo e limpar bem a cena, guardar as coisas numa caixa fechada.

– E você ali firme, testemunhando tudo.

– Sim, vendo uma pessoa ser morta, assassinada. E a minha surpresa: eu não fiquei impressionada, não fiquei com medo. Não achei errado. Eu fiquei foi muito excitada com aquilo, com o poder que o macaco tinha de vida e morte naquele momento. No duro, eu fiquei foi com inveja dele. Devia ser demais ter o poder de despachar alguém que você odeia, ou que está atravessado no seu caminho. Naquela hora eu decidi que ia matar o Valdemar com aquela coisa. Só ia ter que descobrir o nome, ler algo a respeito. Quando ele saiu do escritório e me contou que o homem tinha passado mal, por causa da bebedeira, eu fiz que acreditei e ajudei a fazer o maior berreiro, chamando as criadas. E ele ligou pro Doutor Bernardo, que veio, examinou, mandou chamar o delegado Otílio Amaral e levar o corpo pro hospital dele, pra autópsia. Aí os três se trancaram um longo tempo no escritório e o depois saíram de lá todos contentes, foram brindar com champanhe, no nosso bar. Eu só imagino a negociata que o Valdemar não fez com eles. Tanto que o caso foi encerrado imediatamente, como morte natural. E o Valdemar fez questão de sepultar o homem ali mesmo em Amarante, ligando pra viúva em Rio dos Cedros e dizendo que, se o sepultamento fosse em Amarante, a Transportadora dele podia pagar todas as despesas de caixão e cemitério. A coitada aceitou, é claro.

– Aí você me falou no outro dia sobre o tal veneno mágico e nós dois começamos a vasculhar as coisas do Pitoco filho da puta, até que você encontrou os bagulhos na sua casa e eu não encontrei nada na firma. Aí foi a maior moleza, a gente teve acesso ao produto e às instruções em português. Instruções certinhas de como usar num ser humano, isso é que era o mais legal.

– E o maldito era burro demais pra perceber que eu tirei um pouquinho dos preparados, o pó e o líquido. E isso foi a grande mancada da vida dele.

– É, mancada que custou a vida dele.

– E aí veio o grande dia, quando eu pude matar uma pessoa sozinha com as minhas próprias mãos, aquela anta da Eunice, a empregada que nos pegou no flagra no quartinho do sótão, aquela vez que o macaco estava viajando. Eu enchi a imbecil de dinheiro, mas fiquei super feliz por ali estava a minha chance de testar o veneno do nojento em alguém, praticar, aprender, antes de usar nele mesmo. E me livrar daquela chantagista idiota.

– Pois é, meu amorzinho, você tem uma cabecinha danada de boa pra isso. Imagine, convencer aquela tapada que o pó e a injeção eram um tratamento de beleza!

Diva enrolou-se toda nos braços de Bergonzi, comentando feliz:

– Eu disse que aquele era um tratamento com produtos caríssimos, importados, que custavam o preço de um automóvel. Mas que aquele era o segredo da minha beleza e juventude. A idiota acreditou e me impôs que eu aplicasse o tratamento nela, além do dinheiro, como parte da chantagem. Pode ter alguém mais imbecil?  Não merecia morrer? Fala a verdade...

– Meu tesão! Cabecinha esperta, só perde pra essa bucetinha molhadinha, que eu quero saborear o dia inteiro.

Diva apertou as pernas, tremendo de excitação:
– Ai, nem me fala, que saudade dessa língua de fogo! Ai, essa droga desse trânsito, que a gente não chega nunca!!!

E voltaram a se agarrar, tocar com as mãos, beijar com volúpia, suspirar e gemer, para irritação crescente do motorista do taxi.

Ah, pensou ele, brasileiros! Raça sem pudor, só servem pra isso e pra exportar bundas, enchem nossa praças de travestis, diabos! Se continuarem, eu paro e entrego eles pro primeiro gendarme que encontrar.

Para sorte do casal mais do que fogoso, chegaram ao local final em mais dois minutos. Diva apresentou-o para o namorado:

– Olha, amor, este é o Boulevard Lannes, é a minha rua, importantíssima e bem central. Aqui é o 16me Arrondissement e nós estamos bem perto do Arco do Triunfo e dos Champs Elisées. O Rio Sena fica a uns poucos quarteirões daqui, amanhã a gente vai passear de barco por ele, é uma delícia. O Trocadero e a Tour Eifel também não ficam longe daqui. Eu já estou conhecendo muita coisa de Paris. E progredi muito no domínio do francês, estudo todos os dias, vou a aulas, converso com as pessoas. Eu sou uma parisiense de coração, você sabe.

– O que eu sei é que você fez por merecer estar nesta cidade bárbara. E ter a sua grana sem fim. Aturar aquele macaco asqueroso todos esses anos... francamente, você merece tudo de bom neste mundo, amor.


– Um maldito que me fodia de tudo que é jeito, na hora que ele bem entendesse, mesmo quando chegava com cheiro de vagabunda da rua. Aí eu exigia que ele usasse camisinha e ele me descia o braço. Mas acabei conseguindo, eu mesma tinha que colocar. E o desgraçado nunca me chupou amor, disse que tinha nojo de buceta, que homem que é macho não se rebaixa a fazer essas nojeiras, que nunca fez isso na vida. Só que eu tinha que chupar aquele pau porco dele a hora que ele quisesse. Por essas e por outras, o dia em que o Fúlvio Rondelli veio me comunicar, todo cuidadoso, a morte do meu marido na cela da delegacia, foi o dia mais feliz da minha vida.

– E da minha também, amor.

– Eu até dei uma choradinha, pro Rondelli ver. Mas eu chorei mesmo foi de raiva, porque achei a maior injustiça não ter podido aplicar o veneno naquele verme eu mesma. Mas vamos descer do taxi amor, o homem está nos olhando com uma cara!

CONTINUA

segunda-feira, 25 de abril de 2016

LUA  OCULTA – 92 
MILTON MACIEL 

92 – MAIS UM AMARELO!
Fim do cap. 90:  "– Linda ela, não é? É uma mulher maravilhosa, a mais fantástica deste mundo. - Eurico se entregou na hora:
– Ah, é sim, tem que ser, só pode ser! E ela leu mesmo a minha mente?" 

Com certeza – confirmou Larissa – E ela faz isso todo santo dia, com todo mundo. Mas agora eu fiquei muito curiosa. O que o investigador quer saber das nossas empregadas domésticas e por que razão?

– Bem, já que ela diz que a filha não tem a mãe em boa conta, eu acho que posso falar a verdade. Eu ia enrolar, mas agora me sinto mais seguro.

– Pois fale tranquilo, rapaz – disse-lhe Celso Teles, com aquele sorriso tão simpático que podia até derreter gelo.

– Bem, é simples. Eu fui a Caruaru para investigar o Natanael Bergonzi e descobri muita coisa pesada contra ele. Aí eu desconfiei que ele possa ter tido e até que ainda tenha um caso com sua mãe, Dona Diva Silva.
Larissa agarrou fortemente a mãos de Celso Teles:

– Será possível, amor? Por mim, daquela ali eu não duvido de nada. Ela é capaz, sim, de tudo quanto é maldade e coisa ruim. Isso que o investigador fala nunca me passou pela cabeça, mas, francamente, eu não duvido que ela seja capaz...

– Pois é, eu acho que as empregadas da casa podem saber de alguma coisa. Assim como podem não saber ou saber e não querer contar. Mas é a única linha de investigação que eu posso seguir no momento. Por isso eu vim aqui para, além de agradecer o que Celso fez por nós e por mim na viagem, ver se Larissa pode me dar informações sobre os nomes e, se possível, endereços das empregadas que trabalharam em sua casa.

– Minha ex-casa, graças a Deus! Mas é claro que eu posso. A gente teve tão poucas empregadas! Teve a Marluce, que praticamente ajudou a me criar, estava conosco desde que eu tinha 11 anos. A Diva – engraçado, não é?, o mesmo nome da patroa. Minha mãe proibiu a coitada de usar seu nome, ali ela tinha que ser a Maria – Ficou uns seis anos, só saiu agora, quando minha mãe foi embora. E tinha a arrumadeira-passadeira, Francisca, a Chiquinha, um amor de criatura, trabalhou lá nos últimos meses, depois que a mãe dela, a Eunice, empregada antiga também ela, morreu.

– Muito bom. E quanto aos endereços? Alguma possibilidade?

Larissa fechou um pouco os olhinhos para pensar, o que o policial considerou um desperdício inaceitável. E respondeu:

– Eu acho que posso levar vocês na casa da Marluce, eu fui lá algumas vezes. Mas... espere aí, agora é que eu estou me lembrando de uma coisa: todas as empregadas eram funcionárias da Transportadora, meu pai registrava elas por lá. Então devem existir fichas, fotos e endereços, quem sabe até telefones...

Eurico deu um pulo da cadeira:

Opa! Essa é demais. Bingo! Meu Deus, muito obrigado a vocês todos. A Celso pela generosidade, convite aceito! À moça por sua lembrança maravilhosa. E a outra moça... ah, aquela morena alta, pela adivinhação... Agora eu paro de tomar o tempo de vocês e vou pegar o primeiro ônibus que passar por aqui perto, vou direto pra Transportadora do Seu Hiro mais uma vez.

Celso, como costumava fazer, passou a mão no celular e ligou no mesmo instante:

– Alô, Dagoberto? Me manda um carro aqui com motorista, agora mesmo. Tem um amigo meu que precisa ir lá no Japinha na corrida.

E acompanhou o policial até a frente da Revenda, onde um Chevrolet Cruze encostou imediatamente. Celso falou para o motorista:

– Pereira, leve o moço até a transportadora do Japinha e espere por ele o tempo que for preciso. Depois deixe o rapaz onde ele precisar: na delegacia, em casa, em qualquer lugar. Este é o investigador Eurico, da polícia de Amarante. E muito cuidado com o que você fala, senão o homem descobre quem você é, seu patife, e te encana mesma hora.

Eurico despediu-se mais do que agradecido de Celso Teles e Larissa e teve a experiência ímpar de fazer uma viagem inteira ouvindo um empregado falar bem do seu patrão, sem parar um só momento.

A estada na Transportadora foi rápida. Para variar, Celso já tinha ligado para seu amigo Hiro Ito e, quando o investigador desceu do carro, já uma funcionária de nome Mercedes estava à espera dele na recepção, com as fichas das três empregadas. Mais um para a conta de Celso Teles!

Então Eurico agiu rápido. Já que o carro estava ali à sua disposição, perguntou se o motorista Pereira poderia levá-lo ao menos a um dos endereços das empregadas. O homem foi categórico:

– Que é isso, doutor? Leva a todos, espero o que tiver que esperar, nem que entre noite adentro. E aproveite que eu sou prata velha da casa, conheço Amarante como a palma da minha mão. Me passe os endereços e eu vou saber onde fica cada um deles.

Assim, com a enorme boa vontade de Pereira, foram direto para residência de Marluce. O preço que Eurico pagou foi leve e agradável: Pereira contando, o tempo todo, como o chefe jogava futebol como um grande craque, narrando jogadas incríveis do patrão, dizendo que ele tinha fôlego de sete gatos e outras coisa mais.

Com Marluce, hoje uma simpática vovó de três netos barulhentos, que não paravam um minuto, Eurico não conseguiu nada. Não, ela nunca tinha visto nada e duvidava muito que sua patroa tivesse tido qualquer coisa com qualquer homem que não fosse seu legítimo marido. E acrescentou:

– Nem que ela quisesse. Ela morria de medo dele e ele era tinhoso, desconfiado e ciumento como só. Se descobrisse algo, matava a coitada na mesma hora ele mesmo. Enfiava chifre nela aos milhares, mas ai dela se ousasse retribuir!

Para sorte de Eurico, o segundo endereço, da arrumadeira-passadeira Francisca de Souza, a Chiquinha, era bem próximo dali. Encontrou a moça em casa, já tinha chegado do seu trabalho atual. A conversa com ela foi morna até um certo ponto. Depois algo surgiu que levantou as orelhas de sabujo do investigador.

– Ah, eu trabalhei lá muito pouco tempo, moço. Uns sete meses, que me lembre. Quem conheceu bem a Dona Diva foi a minha mãe. Ela sim trabalhou muitos anos com essa patroa.

– E o que ela falava da patroa? Gostava dela?

– Nem sei o que dizer, meu senhor. Não falava bem dela, mas também não falava mal. Tanto que eu me aventurei a trabalhar no lugar dela quando ela morreu daquele jeito, de repente. E tão moça, coitada.

– Ah, é? Quantos anos tinha. E morreu do que?

– Ah, só 55 anos, moço. Morreu do coração. De repente, assim. Estava bem num dia, no outro era o enterro, lá em Guaramirim. E justo na hora que ela estava toda animada, disse que a patroa ia dar um dinheiro de prêmio pra ela, disse que ia dar pra comprar esta casinha aqui, de que eu pago aluguel até hoje.

Opa! Na hora todas as luzes de emergência piscaram na cabeça de Eurico. Lembrou no mesmo instante da casinha do guarda Narciso em Umuarama. E perguntou:

– Como foi que ela morreu? Em que lugar?

A moça entristeceu visivelmente. Seus olhos marejaram-se de lágrimas:

– Ah, foi uma coisa muito triste aquilo, de repente. Ela tinha ido acompanhar a patroa numa viagem a Guaramirim, que era a terra dela. A patroa parece que ia dar pra ela uma casinha que a patroa já tinha em Guaramirim. Mas ela me disse que, se ela desse lá, ela vendia e comprava esta aqui. Mas aí, no automóvel mesmo, minha mãe teve aquele ataque brabo, morreu na hora. Nem deu pra ter socorro. Aí me avisaram que ela estava mal e eu fui de ônibus, foi um horror. Mas era mentira, ela já estava morta quando eu cheguei. Estava na autopsia, no hospital. Depois foi o velório na casa da Tia Luci, a irmã mais velha dela. E enterraram ela lá em Guaramirim, no outro dia.

– E você viu bem o corpo de sua mãe, bem de perto?

– Claro, moço, eu e a Tia Luci é que vestimos ela, tiramos e trocamos toda a roupa dela, colocamos uma roupa boa da tia.

– E a patroa dela?

– Dona Diva foi muito legal, acompanhou tudo, pagou o caixãozinho simples e as despesas do enterro. Ela estava muito, muito triste, parecia que ela é que tinha perdido um parente. Foi por isso que eu me ofereci pra continuar trabalhando no lugar da minha mãe, achei que Dona Diva merecia, coitada.

Então Eurico partiu para o tudo ou nada. A filha tinha visto a mãe em roupas menores ou nua. Arriscou, já antegozando a resposta:

– E você notou, naturalmente, que a sua mãe, na cama onde trocaram a roupa dela, estava muito amarelada.

– Não foi na cama, foi numa mesa e... Como?! Ai, como é que o senhor sabe disso, moço? Que ela estava meio amarelada, quer dizer.

Eurico viu que era hora de mentir. Não podia falar a verdade, que a mãe daquela moça à sua frente tinha sido assassinada pela própria patroa. Não, a notícia correria pela cidade em dois tempos, poderia levantar a lebre, chegar a Diva Silva em Paris através de algum contato que tivessem, ela ou Natanael Bergonzi, em Amarante. E respondeu:

– Ah, porque isso é super comum em casos como esse, de ataque fulminante do coração. Mexe com o fígado e a pessoa pode ficar bem amarela. Só isso.

Despediu-se da moça e entrou de volta no carro da Teles. Enquanto o motorista voltava a seu assunto favorito, as façanhas do chefe dele, Eurico ia pensando: Bingo: mais uma morte pelo 1080! Um amarelo a mais, que ficou faltando nas contas de Alcebíades Trancoso, porque esse corpo não tinha passado por suas mãos cuidadosas, não tinha sido sepultado em Amarante.

E tudo agora ficava meridianamente claro: Diva Silva era uma assassina! Ela tinha levado a empregada para a morte certa, executado o plano todo dentro de seu próprio carro, em algum lugar da estrada, chegando com a mulher já morta em Guaramirim.

Portanto, era absolutamente certo que Diva Silva sabia como usar o 1080, o fluoracetato de sódio. E, conclusão inevitável, se Adolfo Schlikmann, se Valdemar Silva eram reconhecidamente serial killers, Diva Silva vinha se reunir ao elenco nesta tarde. Pelo menos três mortes podiam ser atribuídas, em princípio, a ela: A empregada Eunice, mãe de Chiquinha. Valdemar Silva, o maridão corno. E a pobre Lurdinha, amante do seu cacho Natanael Bergonzi, o Lacraia.

Para o genial investigador, a hipótese de relação amorosa entre Diva e Natanael deixara de ser uma suspeita, para se transformar numa realidade mais do que concreta.

Restava agora apurar até que ponto o Lacraia participara em cada um dos crimes. No da empregada, pelo menos, ele estava fisicamente ausente. Mas nos outros dois, ele poderia ser tanto autor como coautor ou mandante.

Narciso havia sido eliminado porque queria mais dinheiro e sabia demais. Pois agora ficava evidente que a empregada Eunice estava na mesma condição. Condição arriscada demais, quando do outro lado se tem mentes perversas como as de Diva Silva e de Natanael Bergonzi, o Lacraia.

Diva passara o conto da casinha e queimara pessoalmente o arquivo. Ou ela ou o Lacraia poderiam ter sido teria sido autores do disparo no coração de Narciso. Ele, mais provavelmente. Para ela seria bem mais difícil sair àquela hora da noite, quase madrugada, sem que Silva tomasse conhecimento na hora ou depois. Então a coisa estava assim, na sua cabeça:

1 – Bergonzi matou Narciso
2 – Diva matou Eunice
3 – Um deles ou ambos mataram Lurdinha.
4 – Um deles ou ambos mataram ou mandaram matar Valdemar Silva.

O executor da morte, muito provavelmente, tinha sido o próprio guarda Narciso. Ou, num lance muito mais arriscado, ele teria dado entrada a Bergonzi em plena madrugada, para que ele executasse o Pitoco.

Só que desta vez, com o marido atrás das grades, não era impossível que Diva Silva em pessoa entrasse na delegacia, com a ajuda de Narciso e executasse ela mesma o detestado marido.

De qualquer forma, para Eurico, as pontas estavam enfim unidas: ou separados ou juntos, conforme o caso, os dois criminosos de Amarante tinham matado suas vítimas. E agora estavam curtindo a vida, tranquilos, serenos e montados numa grana preta, em plena Cidade Luz.

Ah, como ele gostaria agora de ter cara-de-pau suficiente para pedir a Celso Teles que trocasse a despesa que ele daria ao generoso patrocinador em Caruaru, por uma curta estada em Paris.

Mas logo viu que era bobagem. Com poderia ele investigar qualquer coisa em uma cidade que ele não conhecia, onde não falava o idioma e onde sua condição de policial não tinha nenhum valor? Não, aquilo era caso para a polícia francesa ou para a Interpol, quando chegasse a hora.

O delegado saberia com certeza como proceder no caso. O importante era, acima de tudo, manter o maior sigilo. Que Diva e o seu venenoso Lacraia continuassem pensando que escaparam impunes e que nenhum médico ou policial tivera inteligência e perícia suficientes para esclarecer seus crimes de morte, quatro ao todo, se ele, Eurico, não viesse a descobrir mais algum ainda!

Não, eles tinham tido o azar de topar com um legista do caralho, o tal Doutor Krause, de Joinville. E com o testemunho do agora doido Schlikmann. E com um investigadorzinho principiante, mas pentelho como ele só, que tinha caído num poço e detonado a farsa de corrupto e, provavelmente, assassino, guarda Narciso. E descoberto, na Transportadora, que Bergonzi era o amante da professorinha Lurdinha. E chegado na cola de Bergonzi em Caruaru, para descobrir que ele era o Lacraia. E agora, em mais uma incursão tão rápida quando bem-sucedida, quem estava apanhada na rede do investigadorzinho que ainda nem era gente era a criminosa Diva Silva.

Ah, sim, Diva Silva, Madame Silvá, a francesa, joia de integridade e fidelidade ao senhor seu esposo, senhora católica fervorosa e ilibada, um exemplo de moral para o ingênuo do Mota!

Pois bem, a beatificação e a canonização de Santa Divá pelo Vaticano iam ter que esperar. Bem antes disso, o coisa ruim, o capeta, deveria comparecer para tomar posse de mais uma feia alma para o seu rebanho de tresmalhados. Uma feiíssima alma embrulhada para presente numa belíssima embalagem exterior, que chegava a lembrar parcialmente aquela deslumbrante e inigualável Miss Amarante, sua filha.

Inigualável, vírgula! E a morena gostosa, que gostava de descer o sapato na cabeça e no saco dos varões amarantenses? Ah, aquilo era mulher para mais de metro, para quilômetro. Que pena que era demais para ele. Mas, desde esse dia, era com ela que ele se dedicaria a sonhar. E, possivelmente, fazer outras coisinhas mais, nas horas de solidão. Ah, Gládis De Rios! Ainda bem que ela não podia adivinhar agora o que ele estava pensando fazer com ela, toda entregue em seus braços, fogosa e sensual. Ou será que podia?... Por um momento teve um frêmito de incerteza, chegou a imaginar o peso do sapato nos países baixos. Meu Deus, tomara que não possa!

CONTINUA