terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

ALLINE DE TROYES - 14ª parte: Os alamanos saqueiam a abadia  
MILTON MACIEL 

Fim da 13ª parte:
– Sim, sim, minha filha, como for melhor para você. Nós nos retiramos então. Tenha uma boa noite.

– Boa noite, general. Boa noite, centurião.

E os dois oficiais romanos se retiraram para poder comentar entre si todos os incríveis acontecimentos que cercavam a vida daquela menina ainda tão jovem.

14ª parte:
Durante a manhã e a tarde do dia seguinte, Alline dedicou-se inteiramente a ajudar a cuidar dos feridos e enfermos, tanto na tenda dos romanos, como na dos alamanos. Entre os romanos, Eudorus, o cunhado de Caius Marcellus, estava em franca recuperação e tinha sua convalescença ajudada pelo misterioso pó de sua benfeitora gaulesa. Recuperando a fala, o decurião não se cansava de repetir a todo momento o quanto era grato à moça, que nada havia que ele pudesse fazer que chegasse para recompensar a teimosia com que ela havia lutado contra a morte dele, já tida como certa por seus enfermeiros romanos.

Proveniente de importante família patrícia e dono de posses de vulto, o oficial oferecia a toda hora recompensas em ouro à gaulesa, que as recusava terminantemente, até  que, por fim, o proibiu de repetir aquela sua ladainha. Caius Marcellus, também ele muito grato à salvadora do marido de sua irmã, tentou em vão convencê-la a aceitar a doação de Eudorus:

– Mas Alline, para mim e para ele não faz o menor sentido essa sua recusa obstinada. Você disse que é de uma família de modestos fazendeiros. E seu marido, perseguido por Constâncio, perdeu todos os seus muitos haveres, resultado de quase três décadas a serviço de Roma. Por que recusar a doação e não permitir que nós demonstremos, com ela, nossa imensa gratidão?

– Centurião, meu druida me ensinou os segredos da Ars Curandi com uma condição: que eu jurasse nunca mercantilizar minha ciência e nunca aceitar dinheiro ou presentes para  curar ou por ter curado um ser humano ou um animal. Eu apenas cumpro o meu juramento. E o faço com muita alegria no coração e com plena gratidão a meu mestre e seus princípios morais. Se eu aceitasse a oferenda de seu cunhado, eu trairia meu juramento, minha moral, meu mestre e minha dignidade. E jamais me perdoaria por isso. Proponho, portanto, que encerremos este assunto de uma vez por todas, centurião.

E foi-se embora para a tenda dos alamanos feridos, deixando o centurião e seu cunhado do boca aberta na tenda-enfermaria dos romanos.

– Essa mulher não existe, Marcellus! Não pode existir! Ofereça o que eu ofereci a ela a qualquer uma das milhares de pessoas neste acampamento, e nenhuma delas, sem exceção, a recusaria. Mas ela o faz com a maior tranqüilidade, como se meu ouro não tivesse nenhum valor. Francamente, será que eu estou delirando ainda e tendo uma miragem? Pode existir uma Alline de Troyes neste mundo, cunhado?

–  Bem, Eudorus, ela existe sim, estava há pouco à nossa frente e, possivelmente, só existe uma como ela no mundo todo: ela mesma! Eu lhe digo que essa moça, a cada dia que passa, nos dá uma nova lição, me faz aprender algo novo, me obriga a repensar meus conceitos estabelecidos há décadas. Que força, que caráter e que maturidade! E é pouco mais do que uma criança na idade...

Alheia a esta conversa, Alline de Troyes, nesse momento, estava em plena conversa, em idioma alamano, com Agenaric, um dos homens que havia conseguido recuperar de um ferimento muito parecido com o do cunhado do centurião Marcellus. Este alamano, também ele um oficial de seu exército, estava embasbacado com aquela gaulesa que, tendo ferido, inclusive mortalmente, alguns de seus camaradas, passava horas a fio agora cuidando dos inimigos feridos:

– Moça gaulesa, nós estivemos ontem em conversa, durante muito tempo, a seu respeito. É mesmo muito difícil entender como você, sendo uma inimiga nossa e uma pessoa de um país que nós invadimos e saqueamos, matando inclusive muita gente da sua população civil, tenha tal misericórdia conosco. Você é cristã e religiosa, por acaso?

– Não, senhor oficial. O que faço, não o faço por religião, mas porque sou fiel a meus princípios e minha moral. Os romanos também estranham minha atitude para com vocês. E eu lhes dou a mesma justificativa: um alamano é meu inimigo quando me enfrenta de arma na mão em campo de batalha. Aí, no campo de honra, que vença o melhor. Para mim tanto faz se vou matar ou se vou morrer. No entanto, fora dessa condição de luta honesta e justa, se um inimigo está tombado e ferido, eu lhe estendo a mão e, tendo eu condições, trato dele, sim. Pois aí ele é somente um outro ser humano como eu, que se encontra momentaneamente desvalido e necessita de ajuda.

– Mas e se, depois, esse homem recuperado volta a atacá-la como um inimigo?

– Acho que é justo e digno da parte dele. Não é porque eu o ajudei que ele tem que me ajudar ou me poupar ou deixar de combater comigo. Porque eu não curo para obter favores ou vantagens, eu curo, se os deuses o permitem, apenas pela obrigação que tenho de curar.

– Você falou “os deuses”. Não é mesmo cristã, portanto.

– Não, não o sou. Ou talvez também o seja. Mas não abjuro minhas crenças de origem e meus deuses que são celtas, gauleses e francos. Como diz meu sábio mestre, o druida Kelvin, por trás de todas as deusas e deuses oculta-se uma só e mesma Essência.

– Monoteísmo então, gaulesa. Mas isso não é ser cristã?

– Monoteísmo em termos, oficial. Existe uma só Essência, mas eu a posso cultuar sob mil nomes e disfarces, em mil templos diferentes. E todos serão válidos, não é mesmo?

– Pensando desse jeito, acho que você tem mesmo razão. É muito profundo tudo isso, para vir de uma pessoa tão jovem como você. Quantos anos tem, afinal?

– Dezessete anos e meio, senhor.

– E ainda aparenta ter menos, desculpe. Sabe, eu nunca vi, em toda a minha vida, uma mulher como você, em nenhum dos povos que eu tenha conhecido, a começar pelo meu próprio povo alamano. Nós tivemos e temos algumas raríssimas mulheres guerreiras. E eu conheci algumas guerreiras entre os gauleses e entre os celtas da Bretanha, onde já estive também. Mas são todas mulheres, rústicas, grosseiras, analfabetas, quase homens – neste caso excetuando-se a celtas bretãs. Mas você, além de ser uma guerreira de técnicas refinadas, é uma pessoa estudada e culta. E é uma grande curadora também. Pelos deuses, todos os milhares deles, ou por todos eles em um só, como você diz, é mesmo difícil acreditar que uma mulher assim existe de verdade. Se eu não tivesse visto e me contassem, pode ter certeza que eu não acreditaria.

– Bem, senhor, isso não tem a menor importância. O que importa é que eu estou aqui e que, com a graça dos deuses, me foi permitido ajudá-lo e a seus companheiros.

– Sim, Alline de Troyes. Eu e eles lhes devemos muito, no meu caso, a própria vida que você arrancou à morte pelo ferimento. Mas não é só isso. Ontem mesmo nós ficamos sabendo aqui que não só os alamanos feridos, mas todos os alamanos ilesos devem a sua vida a você. Nosso enfermeiro romano, que fala um pouco do nosso idioma, não tão bem como você, é claro, nos contou como você defendeu nossas vidas, depois que os oficiais romanos votaram por nossa imediata execução. Isso é uma coisa não só incompreensível para nós, como é, ao mesmo tempo, algo que nós temos a obrigação de lhe retribuir de alguma foram, se os deuses um dia nos permitirem tal coisa.

– Ah, não, oficial! Não vão agora vocês, os alamanos, começarem com essa coisa de novo. Já chega os romanos. Eu não fiz nada mais do que a minha obrigação. Fui apenas fiel a meus princípios. Eu sou contra a covardia simplesmente, tenha ela o disfarce que tiver. Executar homens indefesos é covardia para mim. Então eu apenas fiz os romanos entenderem que, se fizessem como vocês ou os francos fazem com os seus prisioneiros, mantendo-os vivos e forçando-os a trabalhar, eles não teriam que cometer o assassinato covarde de centenas de indivíduos.

–  Mas, ainda assim, centenas de inimigos deles.

– Bom, eles se convenceram, não foi?

– Para nossa sorte, sim, moça gaulesa. Mas isso tudo somente por sua corajosa intervenção. Ficamos sabendo que você até enfrentou um oficial romano por causa de sua posição a nosso favor. E, segundo nos contou o enfermeiro, que assistiu à luta pessoalmente, você venceu o romano tanto com arma como sem arma, um portento.

– Bem, não foi uma coisa tão extraordinária assim. Foi muito fácil e rápido. O homem nem é romano, é um grego. E é um bom homem, voltou atrás em sua posição, pediu desculpas e votou pela não-condenação de vocês. Foi o primeiro a fazer isso.

– Um homem notável esse, também, se agiu assim, tendo a hombridade de se retratar de tal maneira!

– Sim, felizmente estamos cheios de homens e mulheres dignos neste mundo, também.

– Bem, Alline de Troyes, em meu nome e de todos os alamanos que você salvou neste campo, feridos ou não, eu quero lhe declarar nossa eterna gratidão e nossa aliança. Nenhum de nós aceitará combater contra você jamais. E, se um dia formos livres de novo e você precisar de nós, nós seremos seus aliados em qualquer circunstância.

– Ah, mas essa forma de demonstrar gratidão eu aprecio de verdade! Vocês, alamanos, têm demonstrado sempre muito mais inteligência que os romanos.

– Uma grande verdade! E teríamos derrotado esses limitados com certeza, se uma certa guerreira muito mais inteligente do que eles e do que nós não tivesse entrado em cena. E, para nossa infelicidade, não estivesse do nosso lado, mas do lado dos romanos. Você, Alline de Troyes!

– Mas o senhor compreenderá que eu tenho razões de sobra para estar do lado oposto ao dos alamanos.

–Certamente, porque nós somos os invasores de sua terra.

– E o que são os romanos, senhor?

–  E o que são eles, gaulesa?

– São invasores da nossa terra também.

 –  Bem, de um certo modo eles...

– Eles são tão invasores como vocês. Apenas que já o fizeram há muitos séculos e hoje têm acordos de paz que funcionam com os gauleses. Esta é agora não mais a Gália, mas a Gália Romana. Aqui fala-se o latim também, aqui os gauleses se cristianizam tanto quanto os romanos. Somos uma cultura de transição. Um dia também os gauleses, os francos, os visigodos, os alanos, os burgúndios e mesmo vocês, os alamanos, poderemos ser todos aliados entre nós e aliados dos romanos. E só nesse dia é que começaremos a viver em paz.

– Estranha visão, Alline de Troyes! Queiram os deuses que ela seja profética e as coisas aconteçam exatamente assim. Por que eu, particularmente, estou farto de sangue, morte e guerras. Assim que tiver a menor oportunidade, deixarei o exército, seja oficialmente, seja desertando.

– Acho que fará muito bem, oficial. Não só deixará de colocar sua vida em risco, mas poderá parar de tirar as vidas dos outros. Bem, preciso ir agora, cuide-se bem e não exagere nos movimentos ainda. Ah, e procure tomar o dobro da água que toma normalmente.

E, sob o olhar encantado e agradecido dos alamanos feridos, a moça gaulesa se retirou e foi cuidar de outros afazeres.

À noite, como já se tornara hábito, o general e o centurião apareceram na tenda dela. Vinham em busca da continuação da história que os intrigava e fascinava.

– Ah, boa noite, senhores. Entrem, por favor. O mesmo banco incômodo os espera.

Os dois oficiais romanos entraram e sentaram, mantendo o máximo silêncio, como a dizer com isso que esperavam que Alline começasse a narrar sua história em seguida. Ela o fez:

– Vivemos, meu general-abade e eu, dois anos de pura felicidade em Troyes. Nesse tempo, depois de ter me instruído em tudo o que sabia, desde manejo de armas até equitação, desde luta-livre até camuflagem de campo, nós começamos a discutir estratégias de combate e estudar as grandes batalhas. Aquilo me encantou. O general Lucius era um notável estrategista e tinha buscado aprender com os mais diversos estrategistas militares do mundo: romanos, gregos, macedônios, persas, egípcios, citas, hunos, francos, godos, alanos, gauleses, bretões e muitos outros. Nós lemos juntos o De Bello Gallico, de Júlio Cesar, um dos muitos livros que existiam na biblioteca da abadia. E, durante esses dois anos, eu atingi o limite máximo de ensino que havia na escola regular, de forma que o bondoso e sábio irmão Ildasius tomou-me sob sua responsabilidade e começou a instruir-me em Aristóteles e outros filósofos gregos. Ildasius era um religioso diferente, não era dado a delírios místicos cristãos, era muito mais um filósofo recém-egresso do paganismo grego. Aprendi com ele muita coisa de lógica, retórica e moral. Ensinou-me também uma visão do estudo comparado das religiões, o que me fez acreditar no quanto estava certa a concepção de meu druida, que todos os deuses e deusas se continham em uma única Essência.

– Que notável o seu progresso intelectual nesse curto intervalo de tempo!

– De fato, general, eu tive mesmo a grande felicidade de ter grandes mestres como instrutores. Meu druida continuou o tempo inteiro me ensinando suas artes e suas quase-mágicas, influências estas que a mente humana pode exercer sobre a natureza e que, ensinou-me ele, só devemos empregar em casos de absoluta emergência. Meu abade não tinha nada mais a me ensinar, a não ser a maravilhosa lição do seu amor maduro, calmo e constante, que me fez conhecer todos os céus e todos os deleites da alma que é amada com devoção. Lucius dizia sempre que o seu amor era cheio de gratidão, porque ele era imensamente grato a mim, por ter aparecido no outono de sua vida e ensinado a ele o que era o amor verdadeiro. E afirmava que foi a força do meu enorme amor por ele que o salvou do deserto estéril em que a vida religiosa o estava confinando. Para mim era uma coisa notável que aquele homem, de uma compleição tão forte e de uma beleza tão grande, de uma posição tão importante também, sentisse por mim tudo o que demonstrava todos os dias, eu que era apenas pouco mais do que aquela molecota rústica, que ele tirara de uma fazendola para convertê-la no senhor Gilles de Troyes. Mas meu amado me fez sentir, o tempo inteiro, que ele se sentia inferior a mim e que era infinitamente grato a mim por eu existir em sua vida. Isso, mais do que tudo o que ele fazia, me levava a me sentir profundamente amada e muito, muito segura. Até o dia em que os alamanos chegaram, caíram sobre nós como uma praga e puseram por terra todo esse nosso edifício de amor e segurança.

– E quando foi isso?

– Pouco dias atrás, centurião. Exatamente uma semana antes que eu aparecesse neste acampamento pela primeira vez, como Gilles de Troyes.

Uma invasão. Um ataque de surpresa!

– Isso mesmo, general. Exatamente na calada da noite, como eles iam fazer aqui contra vocês.

– O que você evitou, salvando a todos nós.

– Bem, eles atacaram de repente, um pouco depois de meia-noite. A abadia não tinha defesas militares, há quase um século que o castelo que ali existia tinha passado a ser usado só por ordens religiosas, sendo a última delas a que meu abade dirigia. Os alamanos passaram pelos campos, saquearam fazendas – felizmente a de minha família não estava no caminho deles – e vieram tomar a abadia, que imaginavam teria muitas riquezas para serem pilhadas.

– E a defesa do castelo?

– Era inexistente, senhor. Nunca se esperou que a abadia fosse atacada e nunca invasores haviam assolado aquela região. Mas agora eles estavam ali. Já mencionei antes que as muralhas do castelo eram baixas e que estavam muito mal conservadas. Na verdade elas tinham muitas brechas. Os alamanos, no silêncio da noite, passaram por elas e abriram o grande portão. Quando os cães e os gansos começaram a fazer seus alaridos, os cruéis invasores já estavam atacando, pilhando e matando. A abadia tinha uma população de cerca de cinquenta pessoas, nenhuma delas era militar, exceto meu general-abade. Dezoito eram religiosos, homens da mais absoluta paz. Os demais eram empregados e alguns pobres que eram momentaneamente acolhidos. Foi um massacre total.

– E o general Lucius, o que fez?

– Fomos acordados pelo grande alarido e alguns homens entraram correndo em nosso aposentos para nos dar conhecimento da invasão. Lucius me pegou pela mão e nós corremos, pela passagem secreta, para a sala de treinamento, para pegar armas. Como ele esperava, ali já estava o druida Kelvin. Lucius me mandou escolher três arcos e encher três aljavas com flechas. Enquanto isso, vi que ele e mestre Kelvin confabulavam em voz baixa. Em seguida, o mestre veio até mim, ajudou-me com as aljavas e disse que teríamos que passar por um novo compartimento secreto. Ele achou uma alavanca secreta e uma porta se abriu na parede de pedra, mostrando um aposento de uns dez passos por dez. O druida deu-me uma tocha e me mostrou que, no teto, havia uma passagem estreita para o ar e para a fumaça. E falou algo que achei muito estranho:

– Neste aposento há uma pedra que é mágica. E sua mágica é mostrar o céu. Agora fique aqui, que eu vou buscar mais armas e Lucius virá para cá imediatamente.

Ele saiu e eu ouvi, surpresa, o barulho da porta secreta se fechando com muita rapidez, empurrada com força por dois homens: meu Amor e meu Mestre. Eles me deixaram trancada ali e eu comecei a gritar. Queria ir com eles aonde fossem, queria combater os inimigos e defender as pessoas do castelo. Mas meus gritos não podiam vazar as largas paredes de pedra. Então compreendi que eles me prenderam ali para me proteger. Eu era mulher, a única mulher dentro da abadia e minhas roupas agora eram a roupas de dormir, eu não tivera tempo de me vestir como Gilles, tinha apenas colocado um manto comprido para disfarçar minha camisola feminina. Se os alamanos me encontrassem, eu seria estuprada por dezenas deles até à morte. Meu amor e meu mestre quiseram me poupar desse destino horrível. E me deixaram presa ali.

Eu estava numa peça pequena, totalmente sem janelas e que tinha uma porta secreta cujo mecanismo só podia ser acionado pelo lado de fora, pela sala de treinamento. Meus protetores contavam que, mesmo que os alamanos descobrissem a passagem secreta para a grande sala de armas, dificilmente eles poderiam localizar a alavanca secreta que acionava o mecanismo de abertura da porta. Eu tinha uma tocha comigo, que se extinguiria em pouco mais de uma hora. Percebi que a fumaça da tocha subia quase verticalmente em direção ao buraco no teto muito alto da sala. Pensei nas palavras do druida e as repeti diversas vezes, para gravá-las:

– Nesta aposento há uma pedra que é mágica. E sua mágica é mostrar o céu.

Era evidente que uma das pedras, uma só dentre aquelas centenas de pedras lavradas iguais, tinha também acesso a um mecanismo que podia abrir outra passagem. Que mostraria o céu... Possivelmente uma passagem para cima ? Aquilo era a parte estranha do enigma. De qualquer forma, a primeira coisa a fazer era achar a tal pedra. Coloquei a tocha na argola da parede e comecei a apalpar as pedras da parede uma por uma, à minha altura, freneticamente. Não consegui nada, nenhuma pedra se movia. Então raciocinei: a pedra especial não deve ter sido colocada tão alto, deve estar mais embaixo. E estabeleci um plano de exploração sistemática, fui tocando nas pedras rentes ao chão, depois na segunda camada, depois na terceira e assim por diante, subindo lentamente.

Só que angústia que eu sentia ia ficando cada vez mais forte. Enquanto eu perdia tempo ali, incapaz de ir ajudar os dois homens mais importantes da minha vida, onde estariam aqueles dois? Teriam saído sozinhos, com armas, para enfrentar um inimigo numeroso e cruel? Se o fizessem, teriam sido mortos imediatamente. Eram só dois homens contra um exército de invasores. Comecei a entrar em pânico e só então percebi como o amor que eu sentia por meu abade era tão imensamente maior do que eu imaginara até então. Minha sensação de desgraça, de perda iminente, foi tomando conta de mim e eu fui ao desespero. Comecei a urrar de dor, chorar em pânico, orar aos deuses e ao deus cristão, suplicar a Jesus Cristo, mas minha percepção era de que meu homem estava morto. Então me entreguei à dor e à desesperança. Desisti de procurar a tal pedra mágica, deixei-me cair ao chão e esperei que a tocha se extinguisse. Se meu amado estivesse morto, de que me valeria sair dali? Porque haveria eu de querer viver sem ele? Que aquela peça fosse o meu sepulcro. E, se num verdadeiro milagre, ele não tivesse sucumbido, então ele voltaria e me resgataria dali. Havia ar renovado pelo pequeno buraco no teto. Podia respirar. E morreria de sede ao cabo de alguns dias.

– Céus, eu fico arrepiado só em pensar nisso, tenho pavor de lugares pequenos e fechados.

– E a situação dela, centurião era mesmo desesperadora. Que aconteceu então, Alline?

– Creio que o que aconteceu foi que meu druida me conhecia melhor do que eu mesma. Depois de alguns minutos naquela letargia desesperada, eu reagi! Pensei no meu Mestre e pensei no meu Amor: como eles ficariam decepcionados se me vissem desistir de lutar daquele jeito e me entregar à morte, como uma pessoa fraca qualquer. Segurei meu choro, dei um salto, voltei a me ajoelhar no chão e prossegui a busca pela tal pedra móvel. Era uma corrida contra o tempo, porque a tocha em breve iria se apagar. E eu havia perdido muito tempo derreada no chão. Observei a velha mesa de madeira e as quatro cadeiras no aposento pela primeira vez, com atenção. E então, antes que a tocha se extinguisse, eu comecei a quebrar a cadeiras, batendo-as com força contra as paredes e contra o chão. Obtive assim pedaços estreitos e compridos de madeira, que comecei a queimar um por um, acendendo o primeiro na tocha e os outros, cada um no que se consumia antes. A queima da madeira produzia muita fumaça e eu comecei a tossir. Mas agora não havia o que me fizesse parar. Tossindo, eu avançava pelas paredes, batendo com força em cada pedra. Nada! Em pouco tempo, as cadeiras já  estavam quase inteiramente queimadas.

–  Pelos deuses, criatura, que angustiante!

– Só me restava a mesa. Mas cortá-la em pedaços seria uma operação muito mais difícil. Ela era muito grossa e pesada demais. Tentei movê-la e não consegui. Só que era ela ou eu! E eu não queria que meus amados soubessem, ainda que fosse do outro lado da vida, que sua gaulesa havia desistido de lutar. Peguei um dos últimos pés de cadeira e ataquei a mesa com toda a fúria. Pedaços do tampo estilhaçaram e caíram ao chão. Eu gritei:

– Está vendo, maldita! Eu quebro você!

A fumaça estava totalmente insuportável. Eu já começa a sufocar seriamente e comecei e me sentir muito tonta. Mesmo assim investi com toda a minha força e com todo o meu peso, arrojando-me com raiva contra a pesadíssima mesa. E ela se mexeu! E, ao mover-se, um ruído diferente veio do chão. Ao mesmo tempo, uma faixa do teto e da lateral superior da sala se abriu: ela era feita de metal e disfarçada com tijoletas finíssimas de pedra lavrada. Acima da minha cabeça, estrelas brilhavam. O ar se fez rapidamente puro e a última madeira que queimava se apagou. Eu estava salva do sufocamento!

Continua: O sacrifício do abade

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