sábado, 30 de abril de 2016

LUA  OCULTA – 94 (1a. parte)
MILTON MACIEL 

94 – VENENO DE LACRAIA
Fim do cap 92 - "Agora não era hora de brigar, era hora de união. Foi nesse momento propício que Natanael sugeriu a Diva que ele podia usar o 1080 com a amante asquerosa e inconveniente. O veneno!"

Diva topou na hora, com evidente entusiasmo. Sim, era o fim, a solução final para um problema que estava ameaçando atrapalhar a vida deles. Sem Lurdinha, tudo voltaria à normalidade tranquila de antes. E, para Natanael, que seria o encarregado de aplicar o veneno, seria uma oportunidade maravilhosa de praticar, de treinar para o grande momento final, quando eliminariam o maldito Pitoco para sempre de suas vidas.

Então Diva entregou a Natanael o pó e o líquido, retirados mais uma vez dos amplos frascos de 500 gramas e 1 litro, respectivamente, que Valdemar tinha guardados numa caixa metálica sem chave, em seu escritório. E sem cuidado maior, porque nunca poderia imaginar que Diva soubesse o que era aquilo. 

Natanael teve o cuidado extremo de comprar luvas de látex em um supermercado, máscara cirúrgica em uma farmácia e seringa de 5 mililitros e agulha fina em uma outra. E todos em outra cidade, Florianópolis, para não deixar qualquer rastro em Amarante.

Leu muito bem as instruções e Diva serviu como instrutora, contando o que vira Valdemar fazer, quando matou o concorrente Pimenta no escritório.

Então Natanael Bergonzi foi na sexta à noite para a casa modesta de Lurdinha. Ela morava ali sozinha, não tinha parentes em Amarante, viera de Pato Branco, no Paraná. Levou champanhe para comemorar, disse, para encanto da professorinha, que tinha terminado tudo com Diva Silva e que, na segunda-feira, Amarante inteira ficaria sabendo do seu amor por Lurdinha. 

E que abria mão do dinheiro todo da maldita tarada, tudo por amor a sua querida e seu filhinho. Antes o amor e a família, do que um dinheiro amaldiçoado.

Lurdinha chorou de contentamento, quis ligar para a mãe contado tudo na mesma hora, que estava grávida inclusive, que iam os dois casar antes do fim do mês. Mas Natanael suplicou-lhe que não fizesse isso. Na semana seguinte, ele fazia questão de tirar uma licença na firma e iria com ela, no carro dele, até Pato Branco, onde se apresentaria como pretendente e pediria a mão da filha em casamento, diretamente a seus pais.

Aquela noite, mais do que nunca, Lurdinha entregou-se em chamas a seu homem, seu futuro marido, o pai do seu filho, seu grande amor. Natanael aproveitou as últimas horas com aquela mulher linda e fogosa, gozou como nunca, três vezes até a madrugada, coisa que nunca lhe acontecera. Talvez fosse a excitação do ato que praticaria a seguir que o deixara tão viril, tão potente.

Quando Lurdinha dormiu enfim, exausta e feliz como nunca, Natanael Bergonzi retirou os apetrechos de sua valise, que estava ali ao pé da cama, inocentemente abandonada no chão.

Então o Lacraia assumiu o comando!

Luvas e máscara colocadas calmamente, aproximou-se da cabeceira da cama. Lurdinha moveu-se levemente. Ainda nua, dormindo, sorriu, o sonho certamente feliz. O Lacraia observou por muito tempo aquele corpo perfeito, com a barriguinha levemente saliente. Ficou um bom tempo também contemplando a beleza daquele rosto, que sorria à meia luz do quarto. Menina boa aquela, um mulheraço na cama, uma pena que a coisa tivesse que terminar assim...

Mas... que fazer? Com pesar genuíno no coração, o Lacraia começou a aplicar seu veneno. Deixou o pó cair suavemente sobre o seio esquerdo. Depois de uns minutos, começou a espalhá-lo muito suavemente ao redor da auréola, na pele alva. Aguardou mais um pouco. Sabia agora que Lurdinha não voltaria mais à consciência plena. Então aplicou uma dose menor do pó já diretamente dentro das narinas da moça. A inconsciência seria total em menos de dois minutos.

Contado esse tempo, parou para observar mais uma vez o esplendor daquele corpo nu. Que pena! – pensou – Pobrezinha, estava tão feliz!

Então abaixou-se de novo e, com muita delicadeza, introduziu a finíssima agulha na região do quadril da bela adormecida. Injetou o conteúdo lentamente, enquanto lembrava alguns dos seus melhores momentos com Lurdinha. Deu um suspiro fundo, sentiu pesar no coração outra vez...

Consumatus est!... Estava tudo pronto!

Juntou todos os apetrechos do crime, todas as suas coisas, as poucas roupas suas que mantinha na casa de Lurdinha. Hora de ir embora. Escolhera a sexta à noite para a execução porque ninguém mais viria atrás da professora até a semana seguinte. Só estranhariam sua ausência a partir da primeira aula da tarde na segunda. Procurou e desligou o celular dela. Assim teriam que vir atrás dela e encontrariam o corpo. Pensou, com tristeza, se já não estaria, então, começando a se decompor aquela obra prima da natureza.

Pronto, tudo pronto, já podia ir. Voltou-se outra vez para contemplar a beleza extrema daquele corpo de mulher; depois deixou o quarto e a casa com uma sensação de perda.  Do lado de fora, ao entrar no carro, lembrou que o certo seria sentir alívio.

Foi o que fez. Pensamento positivo! O seu grande problema estava acabado. E ele sabia agora muito bem como proceder para acabar com seu outro problema, esse ainda maior e mais pesado que Lurdinha: o volumoso e atarracado Valdemar Silva.

Ligou o rádio do carro, colocou um CD de rock pesado e arrancou suavemente. Vida nova! Bola pra frente...

A única coisa que escapou ao seu controle foi uma tal de Dona Nair. Que era a faxineira que vinha, todos os sábados de manhã, limpar a casa de Lurdinha. E que tinha algo além a confiança da professora: tinha a chave da casa. Dona Nair descobriu o corpo às 8 horas da manhã; Alcebíades Trancoso começou sua série fotográfica fantástica às 8 horas da noite do mesmo dia, fazendo hora extra. Para seu deleite de voyeur e para a gratidão eterna da polícia de Amarante. Não fosse Dona Nair e o belo tom amarelado das fotos estaria perdido para sempre.

Nisso o Lacraia não foi feliz. Mas, sentado naquele banheiro de luxo em Paris, ele ainda não sabia nada disso.

A tarde passou para ele e Diva entre amores e confidências, entre sorrisos e comemorações. Os dois amantes estavam no céu. Tudo tinha dado certo para eles, os que ousaram se atravessar no caminho de um e de outro acabaram tombando pelo percurso, como tinha que ser. A sequência das mortes era simplesmente magistral, rememoraram, felizes:

1 – Valdemar matou Pimenta. O pobre concorrente entrou na história só para que eles pudessem descobrir aquela arma secreta fantástica, que o maldito Pitoco havia conseguido, sabe-se lá como. Pimenta não tinha feito nada contra eles, muito pelo contrário, os tinha beneficiado como se fosse um anjo protetor. Mas tivera uma morte gloriosa, mais do que necessária para eles.

2 – Natanael matou Lurdinha. Antes que ela detonasse todo o futuro dele, com aquela estupidez de golpe da barriga e exigência de casamento. Uma morte lamentável. Porém necessária.

3 – Diva matou Eunice. Antes que aquela anta virasse uma ameaça real. E, ainda mais, para que Diva pudesse testar a facilidade e a eficácia da metodologia da morte. Nada a lamentar.

4 – Narciso matou Valdemar. Uma morte necessária para o futuro de ambos. Mais: imprescindível. Mais ainda: uma morte com o doce sabor da vingança, a eliminação total da face da Terra daquele orangotango presunçoso, porco e violento. Diva tinha jurado vingar-se dele aos 17 anos. Tudo a celebrar agora. Como única coisa a empanar o brilho da celebração, a dura realidade que aquele bastardo do seu pai tinha morrido antes que ela fosse poderosa o suficiente para fazê-lo pagar pela venda indecente de uma filha. Que ardesse no inferno por todo o sempre, maldito pudim de cachaça!

5 – Natanael matou Narciso. Outro acidente de percurso, como o de Eunice, só que com muito mais gravidade. Um chantagista primário, mas um cara que sabia demais. Tinha sido o braço vingador de Diva, o braço executor de Lacraia. Mas um imbecil que se deixara ver por Adolfo Schlikmann durante a execução. Merecia morrer por tudo isso.

Enquanto revisavam felizes e amorosos essa sua contabilidade letal, os dois amantes brindavam o sucesso total com champanhe francesa, o que, ali na França, era apenas champanhe nacional, comum, acessível e barato.

Natanael Bergonzi tinha mais razões para sorrir. Diva não sabia, nunca ele lhe revelara, mas havia mais uma morte a incluir na lista e a comemorar. A daquele palhaço de Caruaru, o Esteves, que atrapalhou sua conquista da rica herdeira dos Dantas, de Toritama. Despachou o desgraçado na peixeira, mas era muito novo e inexperiente, deixou rabo e testemunhas, foi preciso seu velho, aquele retardado, assumir a culpa por ele, para ele poder sair livre da empreitada e se mandar para o Sul.

Essa figuração era hors concours. Mas merecia ser incluída, ainda que na ordem cronológica errada, era um triunfo de 22 anos atrás:

6 – Natanael matou Esteves. Maravilha!

Sim, ele tinha três mortes nas costas. Diva tinha uma. E, juntos, eles tinham mais duas: Lurdinha e Valdemar. Natanael gargalhou, chamando a atenção de Diva Simonetti:

– Que foi, amorzinho? Lembrou do que?

– Lembrei do ditado que os idiotas ensinam para os imbecis.

– Qual?

– “O crime não compensa.”

Gargalharam juntos os dois, brindaram com mais champanhe, resolveram sair para jantar. Um simpático bistrô ali pertinho acolheria o casal de apaixonados. 

CONTINUA

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