MILTON MACIEL
Fim do cap. 67: "Instantes depois, em tela cheia, os dois policiais assistiam, extasiados, as caminhadas loucas de Adolfo Schlikmann pelos aposentos e pelo jardim, na área gradeada para ele. E riam às gargalhadas, exultantes, vendo o gesto de foder e o gesto de injetar e ouvindo as frases repetidas sem parar, entremeadas de risadas típicas de doido:
– Valdemar Silva se fudeu! Valdemar Silva se fudeu! Valdemar morreu!"
68 – O MISTÉRIO NÃO
ACABOU
O delegado
Norberto Oliveira e o carcereiro Mota se abraçaram e abraçados pularam como
dois meninos. Enfim aquela nuvem pardacenta tinha se dissipado de suas cabeças.
O caso estava resolvido!
– Puta
que pariu, Mota! Cacete sinistro! Até que enfim essa assombração larga do meu
pé.
– Estou
vibrando pelo senhor, doutor. O senhor não tinha mais sossego, passava o dia
inteiro nessa agonia, sempre pensando em como pegar esse alemão no pulo.
O
delegado se jogou no sofá e estendeu os pés sobre o encosto de braço:
– Mota, é
primeira vez, em todos estes dias, que eu me dou o direito de deitar nesta joça
deste sofá velho. Eu prometi pra mim mesmo que, enquanto não conseguisse provar
que o alemão matou o Silva, eu nunca mais ia nem mesmo sentar aqui.
– Pois
agora o senhor pode se estarrar e descansar. Caso encerrado! Poxa, vamos contar
pro Narciso, ele também merece ouvir isso. Narciso! Ô, baixinho, dá um chego
aqui!
Guarda
Narciso entrou na sala, com seu passo miúdo e seu olhar baixo de cachorro fiel:
–
Chamou, sargento?
–
Chamei, homem. Escute essa: o alemão Schlikmann confessou que matou o Silva!
Narciso pareceu
ter levado um susto. Perguntou, com cara de surpresa e dúvida:
– Ele
confessou? Falou que foi ele que matou o velho? Tem certeza, sargento?
– Pois
foi isso mesmo que o delegado acabou de saber, a informação veio quente lá do
hospital, o sogro dele até gravou um vídeo. Dá para mostrar pra ele, doutor?
O
delegado saltou do sofá e recolocou o vídeo a rodar no computador. Guarda Narciso sacudia a
cabeça para os lados, incrédulo:
–
Caramba! O cara se incriminou mesmo. Ufa!
– Pois é,
Narciso, eu senti a mesma coisa que você. Esse seu ‘ufa’ eu não falei, mas pensei. Afinal, só nós dois estávamos aqui
dentro com os presos naquela noite. Nunca falta um filha da puta qualquer pra
insinuar que um de nós – ou até os dois – participou do crime. O delegado festejou
de contente, eu festejei foi de alívio.
O guarda
sorria contente. Chegou mesmo a gargalhar:
– Puxa,
mas isso foi bom demais pra nós. Eu tinha essa preocupação, é claro.
O delegado,
jogando-se deitado no sofá outra vez, respondeu:
– Ora, Narciso,
você e o Mota estão acima de qualquer suspeita. Eu nunca desconfiei de nenhum de
vocês, embora a lógica da investigação sugerisse isso.
– Muito
obrigado, doutor. Isso me deixa ainda mais aliviado. A confissão do homem aí no
vídeo e a confiança do senhor. Agora vou poder dormir em paz, finalmente.
– Olha,
faz o seguinte, Narciso: Vai ali na birosca do Atanásio e compra umas duas
cervejas bem geladas. Vamos comemorar nós três aqui. Não, vamos fazer uma comemoração
completa: Olha aqui, pega estes cinquentinhas, traz meia dúzia logo, vamos
incluir nossos três presos na festinha. Hoje eu estou tão feliz que vou dar uma
de delegado liberal. Ceva pra todo mundo!
Narciso voltou
rapidamente com seis garrafas bem geladas de cerveja, apanhou seis copos e
entregou três deles, com três garrafa abertas, para os dois prisioneiros mais
antigos e para o prisioneiro novo, o bandido do Paraná.
Mota
gritou para eles:
– Com os
cumprimentos do doutor delegado, cambada! Vocês já ouviram: o caso do Silva
acabou. O alemão confessou o crime. Vocês podem comemorar também, porque a
gente sempre pensou que um ou mais de vocês podiam estar metidos na coisa, a
mando do alemão.
Os
prisioneiros voltaram pela enésima vez a jurar inocência e em seguida desfrutaram
da bebida gelada, aquele inesperado regalo de um doutor delegado todo feliz da
vida.
Os
soldados e o delegado esvaziaram rapidamente suas garrafas e olharam para todo
o ambiente da sala e da cela com uma satisfação beatífica. A paz e a felicidade
tinham baixado de repente na delegacia de Amarante.
Norberto
Oliveira lembrou-se então de comunicar a novidade ao promotor e ao juiz. Começou
ligando para o primeiro, o Dr. Turíbio:
– Alô,
promotor? Rapaz, você não imagina a bomba. Bomba boa, maravilhosa. O caso do
assassinato do Silva está encerrado, o Schlikmann confessou a autoria do crime.
O promotor
estranhou:
– Ué... mas bah! Pois o homem não tava mal dos miolos, tchê? Diz que ele tá internado como
loco no hospital do teu sogro, que não diz cosa com cosa, mas avoado que bando
de caturrita quando escuta tiro de espingarda.
– Ah,
mas foi assim mesmo que ele se entregou, rapaz. Justamente ‘variando” assim.
Escute só o que eu vou contar.
E passou
a descrever, com todas as minúcias e com evidente prazer, o que se via no vídeo
gravado pelo Doutor Luzardo. Ao terminar, falou para o promotor:
– E aí? Viu
só que beleza? O homem se entregou na boca do lobo. Tá ferrado!
– Bueno,
tchê, por essa já dá pra ver que tu não deves ter sido um grande aluno na
faculdade de Direito. Mas que deves ser um grande investigador e até um bom delegado.
Só que deves ter corrido tanto tempo atrás de pistas e atrás de malandro, que
te esquecestes que és, antes de tudo, advogado.
– Ué,
como assim? Não tou lhe entendendo, homem.
–
Putcha, se tu achas que estás com o caso resolvido, tchê, te esquecestes de ser
advogado. Mas o réu paga um e ele te empastela toda a tua argumentação de
acusação em dois tempos, com a maior facilidade.
– Mas de
que jeito? Com uma confissão dessas!
– Mas
que confissão, tchê?! De um loco variando, não dizendo cosa com cosa, produzindo
provas contra si mesmo? Basta o advogado de defesa mostrar o laudo do psiquiatra
forense e o teu castelo de cartas desaba na hora, bagual!
– Mas o
que ele diz não tem valor... Mas como?
– Se o
homem é reconhecido insano, o testemunho dele não tem valor em juízo, tchê. Acorda!
O
delgado sentiu as pernas tremerem. Não, não era possível... Puta azar! Mas
ainda assim insistiu:
– Mas o
cara está reconhecendo que deu a injeção letal na vítima.
– De
novo estás te deixando enganar pelo teu desejo de ter o alemão como culpado e o
caso encerrado. Pensa bem. Pensa como advogado. E advogado de defesa. O que o
sujeito vai alegar: que o constituinte dele não deu a injeção, que ele só VIU alguém
dar a injeção na vítima. E aí?
– Mas...
Porra, mas foi o alemão que matou o cara, a gente sabe! Ninguém mais entrou na
delegacia, está mais do que provado.
– Tá
certo. Mas lá dentro tu tinhas os teus dois homens e mais três presos. Pode ter
sido qualquer um deles.
– Mas
pra que? Pra que um deles ia querer matar o Silva? Só o alemão tinha a ganhar ali
com a morte do cara, o cara que tinha jurado ele de morte horas antes.
– É, mas
de qualquer forma tua linha de condução da acusação é muito falha, Norberto. Um
bom advogado de defesa te estraçalha fácil, fácil, tchê.
– Mas
você, como promotor, acha que a gente não pode se prevenir contra a defesa?
– Se
apresentas o caso assim, com certeza não.
– NÃO?!!
– Claro
que não, guri. Se tu queres ser um bom promotor, a primeira coisa que precisas
fazer é raciocinar como um bom advogado de defesa. Só depois de fazer isso é
que podes preparar a tua estratégia para enfrentar e destruir todos os
argumentos da defesa.
– Mas,
então... Isso quer dizer que o caso não está encerrado?
– Agora
tu acertaste em cheio, tchê. É a primeira cosa que tu dizes com que eu posso
concordar. Olha, enquanto tu não provares
como foi que a seringa com veneno entrou na delegacia e quem aplicou o veneno, continuas no mato sem cachorro.
– Mas
foi o alemão, pois eu não contei que ele faz que está com a seringa na mão e
aplica a injeção?
– Mas
pensa bem tchê: a defesa vai alegar que ele viu
o criminoso aplicar a injeção. Isso independente de ele ter aplicado ou não. Eu
também acho que deve ter sido ele, mas a defesa vai nadar de braçada na
inconsistência dessa “confissão de doído”.
– Mas,
então, o que você me recomenda?
– Recomendo
que continues investigando, que não pares até provar: Número 1 – Quem aplicou a injeção; Número 2 – Como a
seringa entrou na delegacia. Enquanto não tiveres isso preto no branco, teu
caso não está encerrado.
– Droga!
Que saco!... Tudo de novo... Bem, de qualquer jeito, muito obrigado, promotor,
você me mandou pra merda de novo, mas pelo menos me devolveu à realidade. Eu ia
fazer o maior estardalhaço agora mesmo, falar pra todo mundo, estava até antegozando
a coisa na imprensa. Saco!... Mas obrigado, você me ajudou muito agora. Fico
devendo essa.
– Ora,
amigo e colega é pra essas coisas, tchê. Depois dás uma passadita por aqui, vamos
charlar um pouco, quem sabe termino de arrumar essas tuas ideias. Bom dia, gaudério.
O
delegado Oliveira despediu-se quase sem voz. Voltou para o sofá, onde estavam sentados Mota
e Narciso e, para surpresa deles, deu outra vez um enorme pontapé no móvel:
– Sofá
filha da puta! Não sento nessa joça tão cedo outra vez!
– Caramba,
que aconteceu, doutor
–
Aconteceu que a confissão do alemão não tem valor em juízo. Que dizer que eu
estou tão fudido como antes. Tenho que continuar a investigação, até provar
como o diabo da seringa entrou aqui na delegacia. E que foi esse filho da puta
desse alemão tramposo quem enfiou essa merda no pescoço do baixote.
– Mas a
gente sabe que foi ele! – berrou Mota, indignado.
– Se não
foi ele, quem foi então? – falou Narciso, com voz vacilante.
– Ora, Narciso!
Foi ele, porra! Não enche.
– Claro que
foi ele, doutor. Eu não tenho dúvida, não, desculpe.
– Mas eu
me entusiasmei todo e cantei vitória antes do tempo. O caso não está encerrado.
E eu comemorei de besta. Acho que eu devia devolver as cervejas todas pra
birosca do Atanásio e pegar meu dinheiro de volta. Devia mandar vocês dois e aqueles
três merdas ali na cela esperarem e, quando der vontade, cada um mija dentro da
sua garrafa vazia, bota a tampinha e o Narciso leva de volta pro Atanásio.
– Mas, doutor, a coisa voltou a ficar assim tão
feia, é?
– Se
voltou. E agora, pra esfriar os cornos, eu vou dar uma volta por aí. Tenho que sair
um pouco desta delegacia, senão acabo quebrando este sofá velho a pontapé. Fui!
CONTINUA
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