domingo, 11 de julho de 2021

 ET DIEU CRÉA LA FEMME   

(E Deus Criou a Mulher)
MILTON MACIEL 
                                                                            (Na Foto:Rachel Welch)



Estou me apropriando aqui do delicioso título do filme francês de Roger Vadin que, em 1956, catapultou a carreira de Brigitte Bardot e a inseriu para sempre na posição de grande símbolo sexual. Eu, molequinho de todo, não podia entrar no cinema, o filme era proibido para menores, é claro!

Mas o que me fascinava não era a Bardot (a foto aqui é da Rachel Welch!) Era o TÍTULO do filme! Sou de ascendência francesa por parte de pai (minha avó paterna era descendente direta de um marechal de Napoleão) e uruguaia por parte de mãe. Em casa eu falava três idiomas: espanhol, português e francês. E o francês me encantava. Então, quando li no cartaz do cinema aquele  ET DIEU CRÉA LA FEMME, fiquei extasiado. Por quê? Não tenho a menor idéia. Simplesmente bateu fundo. Vai ver bateu foi premonição, foi por causa do dia 8 de Março.  Então vou me apropriar desse título maravilhoso para homenagear uma maravilha  especial  da Criação: o ser humano de sexo feminino.

Então com licença, Vadin. Vamos lá:

Deus olhava contrafeito para aquele estranho boneco de argila a quem ele infundira vida horas atrás, com um sopro bem dado em suas narinas ainda ocluídas. O pneuma divino, abrindo-as, deu vida imediata à bizarra criatura. O Criador estava pensando que não fora uma boa idéia inspirar-se no macaco como modelo para sua criação. O resultado acabara ficando muito feio e muito peludo. E tivera que voltar várias vezes à etapa de produção, por causa de óbvios defeitos. Na última vez, porque ia escapando o rabo de macaco na nova criatura. Foi retirado a tempo, por inútil, segundos antes do sopro vivificador.

Copiando ora partes de um gorila, ora partes de um orangotango, o Criador foi fazendo sua escultura de barro, com evidente prazer. Adorava moldar criaturas e infundir-lhes vida depois. Teve o cuidado de corrigir um detalhe ainda: a bunda de orangotango, vermelha, tinha ficado horrorosa na nova criatura, trocou-a pela de um bonobo que passava ocasionalmente por ali. Ah, isso haveria de ser um problema depois! Pois veio junto o incrível apetite sexual dos bonobos. Mas, na hora, o Criador não se apercebeu disso.

Mas o tal ser, a quem ele resolveu classificar de HOMEM (Arcanjo Gabriel balançou a cabeça, detestando o nome: por ele, aquela aberração teria sido no máximo um princzalt, mas, afinal, o boneco era de Deus, paciência!), ficou com o gênio dos macacos também. Nem bem levantou do solo de criação, já começou a coçar a cabeça e reclamar de tudo: que o Paraíso era muito quente, que os outros bichos olhavam para ele com olhares esquisitos, que se sentia discriminado e perseguido, coisas assim. No segundo minuto entrou em crise existencial da braba: tinha acabado de ver um casal de pacas transando, teve compreensão instantânea do que aquilo significava e imediatamente sua porção bonobo se manifestou.

Foi assim que, mesmo estando só como manifestante, o homem realizou sua primeira passeata de protesto. Começou a caminhar pra lá e pra cá na frente dos arcanjos e de Deus, fazendo gestos que hoje seriam considerados obscenos, manifestando assim seu inconformismo com a ausência de uma fêmea para fazer com ela aquele animado ritual das pacas.

Deus confabulou com seus arcanjos e considerou seriamente desmontar aquele encrenqueiro imediatamente. Ora, era claro que ele ia criar uma fêmea da espécie também, afinal fazia-o sempre, criava-os aos casais, ora bolas! Mas resolveu ter um pouco mais de paciência e dar ainda uma chance ao grosseirão que tinha criado.

– Gamaliel, ponha o homem para dormir imediatamente com seu bafo. Vamos fazer uma fêmea para ele, mas eu vou usar um atalho, não estou mais a fim de trabalhar tanto de novo. Afinal já vem aí o sétimo dia e eu vou ser obrigado a descansar.

Arcanjo Gamaliel aproximou-se do bizarro peludo, escancarou a bocarra e deixou sair seu bafo mefítico, causado por uma incontrolável proliferação de tártaro angélico nos dentes amarelados. O bicho caiu duro no chão. Então os anjos operários, indivíduos de menor hierarquia, que ficavam com o trabalho sujo de limpar as galáxias, vieram apanhá-lo e o colocaram sobre uma pedra chata, que serviria de mesa cirúrgica.

Uma digressão aqui se impõe, tenham paciência os leitores e leitoras. É que os anjos estavam furiosos com seus superiores hierárquicos, cogitando entrar em greve e até a aliar-se com seu antigo colega Lúcifer. E a razão era mais do que compreensível: tinha acabado de entrar em vigor a nova lei criada por Arcanjo Assexuel: Daquela semana em diante ANJO NÃO TEM SEXO!  Isso foi, mais tarde, mal compreendido pelos humanos ignorantes. NÃO TEM aqui significa que NÃO PODE FAZER, não é que não tenha os órgãos competentes. O Senhor acabou dando força para a Lei daquele arcanjo sempre de mal com a vida, sempre a fim de, com o perdão da má palavra, infernizar a vida dos anjos seus subalternos. Em vão Arcanjo Sensuel tentou argumentar que aquilo criava um precedente perigoso, que a adoção do celibato e da castidade forçados ainda ia acabar acarretando sérios problemas entre os anjos. Mas não foi ouvido! De mais a mais, o sistema de governo ali não era uma democracia. O Patrão decidia, estava decidido!

Aí o Lúcifer liderou uma revolta e foi embora para Lanticiel, levando um monte de anjos e anjas com ele. E agora viviam fazendo as maiores orgias, para revolta e inveja dos anjos que tinham ficado no Céu. Estes foram obrigados, pelo mesmo azedo Assexuel, a abandonar seus instrumentos musicais favoritos, agora proscritos: cavaquinho, pandeiro, cuíca e agogô. E foram obrigados e começar a estudar Lira, uma terrível chatice.

Bem, digressão encerrada, voltemos ao homem anestesiado. Pois Deus resolveu cortar caminho, criando a fêmea para o encrenqueiro peludo sem rabo a partir de um pedaço do próprio corpo dele. O Senhor acabara de inventar a CLONAGEM e ia fazer sua primeira experiência. O duro foi decidir que parte do corpo ele retiraria. De início cogitou usar um daqueles ridículos ovinhos que estavam ali de fora, muito mais fácil de tirar. Mas a equipe argumentou que aquilo era para reprodução e, como era um alvo muito fácil para os animais predadores, por isso mesmo é que tinham sido criados em duplicata, quando da invenção dos macacos. Deus concordou. Seguiram-se momentos tensos de discussão, em que cada um defendia a retirada de uma parte diferente. Por fim Deus se impacientou e disse: uni-duni-tê-salamê-mim-güê. E assim, ao acaso, a escolhida foi a costela.

Aí foi rápido: costela retirada, fêmea criada. Mas ficou horrível: igualzinha ao macho encrenqueiro, inclusive nos pelos. Ora, o Criador achava aquilo muito  feio e resolveu que estava na hora de dar uns retoques pra valer e aperfeiçoar muito mais a criatura, antes de soprar-lhe vida. Mas que modelo copiar agora? Olhou longamente o bicho peludo deitado sobre a pedra, puxando o maior ronco e se sentiu um escultor fracassado. Mas mais um momento e todos se surpreenderam com a enorme gargalhada que Ele estava soltando.

– O que foi Senhor? – perguntou Arcanja Gabriela.

– Nada, nada minha filha. É que, para me distrair um pouco enquanto pensava, usei minha capacidade de tudo ver e fui rapidamente dar uma olhada no futuro dessa espécie. E até que não vai ficar tão ruim assim, esses pelos ridículos vão cair quase todos com o tempo. Mas o que me deu vontade de rir, foi que meus olhos caíram, ao acaso, num texto de revista desses humanos (depois eu explico o que é revista, agora não temos tempo) e ali estava escrito, assinado por um certo Millor Fernandes, o seguinte:

“Quando Deus leu que criou o homem à sua imagem e semelhança, Deus morreu de rir!”

Aí, lógico, todos explodiram na maior gargalhada, Gabriela teve um ataque de riso difícil de controlar, chegou a ficar sem fôlego, precisou um soprinho de Deus para ajudar. Imagine-se só, aquele bicho estranho, feio e desconjuntado ser a imagem de Deus!

Mas Deus voltou a seu problema: que modelo usar para aperfeiçoar a fêmea da espécie humana? Pensou, pensou, até que, de repente, sua atenção foi chamada por um diálogo em sussurros, o que é de todo inútil perto de quem tem clariaudiência absoluta. Deus ouviu:

– Não, Sapatiela, agora acabou! É fim mesmo. Eu me decidi a continuar no céu e vou me submeter à nova Lei de Assexuel. Acabou! Não tem sexo mais, desista! Foi bom enquanto durou, mas agora é fim!

Arcanja Sapatiela olhou Arcanja Gabriela, aspirando seu suave perfume de cravo (mastigava-o sempre, para não ter o horrível tártaro de Arcanjo Gamaliel), admirou sua cor de canela, suas suaves e generosas formas, cheias de curvas, onde seu olhos derrapavam inebriados. E consolou-se. Já que estava acabado mesmo, deu meia-volta e foi-se embora em passo acelerado. Se se apressasse, ainda pegaria o expresso das 5 horas para Lanticiel, em menos de duas horas estaria com a turma do divertido do Lúcifer. Isso se ainda pudesse comprar passagem para hoje! Desde a entrada em vigor da nova Lei, os expressos para Lanticiel partiam lotados de anjos e até dois arcanjos tinham sido vistos embarcando, disfarçados de anjos comuns.

Aquele rápido diálogo iluminou a mente do genial Criador. Era isso! Por que não pensara antes? Olhando atentamente para Arcanja Gabriela, Deus viu que ali estava o modelo perfeito para criar a MULHER (já tinha decidido classificá-la com esse nome e Arcanjo Gabriel o achara lindo!). Então o Celeste escultor e modelista pediu para Gabriela posar como modelo e começou o seu trabalho de correção das inúmeras imperfeições da boneca de costela. Começou por arredondar-lhe e suavizar-lhe as formas simiescas do rosto, até deixá-las idênticas às do rostinho perfeito de Gabriela. Aí mandou a própria Gabriela passar as mãos a uns cinco centímetros do corpo da mulher ainda sem vida e emitir aqueles raios azuis dos arcanjos e arcanjas. Perfeito, foi a primeira depilação da história celeste! Lá se foram todos os pelos do corpo da mulher. Exceto de uma pequena parte, porque Gabriela ficou com receio que passar a mão ali fosse considerado infração à nova Lei do Anjo Não Tem Sexo. Em compensação, ao olhar a horrível pelagem no alto da cabeça da boneca de costela, a própria Gabriela teve um lindo gesto de desprendimento: removeu de seus longos e perfumados cabelos uma madeixa inteira e aplicou-a na cabeça da boneca. Imediatamente a pelagem escura foi substituída por uma maravilhosa cabeleira idêntica à da arcanja. Deus adorou o gesto e o resultado!

Mas quando viraram a mulher para depilá-la do outro lado, foi que todos se deram conta do horror que era aquela abunda reta e peluda, igual à do macho. Os pelos foi fácil remover, mas a nova modelagem, inspirada nos glúteos esculturais de Arcanja Gabriela, levou muito tempo até que o Divino Escultor conseguisse reproduzir. Mas no fim, todos balançando a cabeça afirmativamente e se cumprimentando, realmente valeu a pena: uma perfeição de traseiro, lisinho, brilhante, cheio de beleza.

Como último detalhe, viraram a boneca de frente novamente e Deus começou a esculpir nela o busto perfeito de Gabriela. Foi preciso tirar muito material da cintura, que era tosca e larga como a do homem, para ter o que colocar no novo par de seios, lindos, torneados, muito mais volumosos que os mamilinhos de gorila fêmea que estavam antes ali. Mamilos foram deixados, é lógico, mas foram também torneados com extrema arte e delicadeza pelo Senhor.

No final, todos ficaram extasiados com a obra-prima do Criador. E Ele mais do que qualquer outro, é claro:

– Me superei! Melhor do que isso não consigo fazer nunca mais! Então declaro encerrada minha carreira de criador. É bom saber parar quando a gente está por cima! Amanhã é feriado, pessoal. Todo mundo descansar!

E DEUS CRIOU A MULHER! Não a partir do rústico macaco, mas a partir de um ser angélico perfeito: uma arcanja! Et Dieu Créa La Femme!

(Foto inicial: Rachel Welch, 1968) -  Ver outras fotos abaixo:




                                                                Ah, ela, Brigitte Bardot!


                                            (Na foto:EU, em 2 503.722 Antes de Cristo)

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