segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

O FECHAMENTO DE LIVRARIAS – 6a. Parte
COMEÇAMOS MUITO MAL!
MILTON MACIEL

1747: O primeiro livro brasileiro. Mas veio a proibição!

Sim, temos muitas livrarias fechando em 2018. E redes de livrarias, as maiores, em situação de concordata, arrastando para o limbo seus credores – em especial as editoras. Temos uma crise de livrarias, embora não tenhamos uma crise de leitores. O número de livrarias decresce, mas o número de leitores cresce. Nós estamos atrás de causas para explicar esse fenômeno do mercado livreiro do país. Pois agora estou disposto a começar exatamente do começo. Nosso começo como produtores de cultura, de escritos, de livros e de leitura. E nós começamos muito mal!

No período colonial, enquanto em todo o resto das Américas a cultura avançou rapidamente, Portugal, no afã de manter-nos sempre colônia submissa e produtiva, proibiu ferozmente que tivéssemos no Brasil imprensa e ensino superior. Isso só mudou com a chegada de Dom João VI e a Corte portuguesa ao Brasil, em 1808. Que Deus o abençoe, Napoleão Bonaparte!

A primeira instituição de ensino superior que tivemos foi a Faculdade de Cirurgia da Bahia, em Salvador. Logo a seguir, no mesmo ano de 1808, veio a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

São DOIS SÉCULOS E MEIO de atraso em relação à América espanhola! Obrigado, Portugal...

E eram apenas faculdades. Só que os colonizadores espanhóis tinham criado a primeira UNIVERSIDADE em terras americanas, a Universidade de Santo Domingo, na atual República dominicana, em 1538. E a Universidade Nacional Autônoma do México, em 1551.

Em 1808, quando foi criada a primeira faculdade no Brasil, na América hispânica já existiam VINTE E TRÊS UNIVERSIDADES! As primeiras da Argentina foram: Universidade de Córdoba – 1613; e Universidade de Rosário – 1653. Não admira que eles leiam muito mais do que nós até hoje!

Na America inglesa, mal chegaram os primeiro colonos -  na Jamestown de John Smith e Pocahontas, 1609, Virgínia; na Nova Inglaterra de Peregrinos (1620) e Puritanos (1629) – e já foi criada a primeira UNIVERSIDADE: a Universidade de Harvard, em 1636, quase dois séculos antes da nossa faculdadezinha de Salvador.

OS PRIMEIROS LIVROS IMPRESSOS NAS AMÉRICAS

Johannes Gutenberg inventou a máquina impressora com tipos móveis por volta de 1450. Cabral chegou à ‘Ilha’ de Vera Cruz em 1500. Mas a primeira máquina impressora tipográfica só teve autorização para funcionar no Brasil em 1808. 358 anos depois de Gutenberg! Obrigado pelo pequeno atraso, Portugal. Até então era proibido fazer impressos na colônia.

Contudo, muito antes de 1808, imprimia-se livros aos milhares em toda a América Hispânica e Britânica. Para se ter uma ideia, 32 anos antes, em 1776, ano da Declaração de Independência dos Estados Unidos, só o livro Common Sense, de Tom Payne, chegou a ter tiragens somadas de 400 000 exemplares. Quatrocentos mil! Não admira que eles leiam muito mais do que nós até hoje!

O primeiro livro produzido na América britânica, o Bay Psalm Book, um livro de salmos, foi impresso em 1640 em Massachusetts, apenas 20 anos depois da chegada dos Peregrinos a Plymouth. O primeiro editor e tipógrafo das Américas, Stephen Daye, imprimiu 1700 exemplares do livro por encomenda do primeiro livreiro da Américas, Hezekiah Usher.

(Extrema ironia: hoje, em 2018, 378 anos depois disso, a maior parte dos autores e editores brasileiros têm que pensar duas vezes antes de se aventurarem a publicar 1700 exemplares de um livro numa só tiragem!).

Na America hispânica, os jesuítas foram os primeiros editores. Precisavam catecismos para fazer a cabeça dos indígenas, aos quais concediam o beneplácito da alfabetização em castelhano. O primeiro livro foi publicado no México em 1539, o “Breve y Más Compendiosa Doctrina Cristiana  en Lengua Castellana y Mexicana”.

O primeiro livro publicado na América do Sul foi “Doctrina Cristiana y Catecismo para Instrucción de los Índios y de las Demás Personas que Han de Ser Enseñadas em Nuestra Santa Fé”. Foi em Lima, atual Peru, em 1584. Na Atual Argentina, o primeiro livro foi impresso pelos jesuítas em 1705. Na atual Cuba, em Havana, eles imprimiram o primeiro livro em 1707.

O PRIMEIRO LIVRO IMPRESSO NO BRASIL  

É a história de um malogro. Nosso primeiro editor e impressor foi Antonio Isidoro da Fonseca, um tipógrafo português que, tendo impresso em Lisboa um livro de nome “O Judeu”, acabou se dando mal com a Inquisição. Desgostoso e com justos receios, Isidoro fez as malas: embarcou com suas impressora e caixa de tipos para o Rio de Janeiro e abriu ali, em 1747, um “officina typographica”.
Imprimiu dois folhetos e, então, aventurou-se a fazer um livreto, que viria a ser o primeiro livro do Brasil, nesse mesmo ano de 1747:

 “Relação da entrada que fez o Ecxcelentíssimo e reverendíssimo Senhor D.F. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro, em o primeiro dia deste prezente Anno de 1747 , havendo sido seis Annos Bispo do Reyno de Angola donde por nominação de sua Majestade, e Bula Pontifica, foy promovido para esta diocesi.”
O glorioso autor do nosso primeiro livro: Doutor Antonio Rosado da Cunha, Juiz de Fóra e Provedor do Defuntos, auzentes, Capellas e Resíduos do Rio de Janeiro.

O glorioso primeiro livro foi seguido por uma outra parte menor, pelo mesmo autor, com o título “Em aplauso do Ecxelentíssimo e Reverendíssimo Senhor Frey Antonio do Desterro Malheyros Digníssimo bispo desta Cidade, Romance heroico”.

Percebe-se que o nosso primeiro Romance heroico é que inaugura a tradição brasileira de “E o cordão dos puxa-sacos cada vez aumenta mais, mais , mais...”

Estas duas obras primas – primas no sentido cronológico de primeiras mesmo – estão hoje acessíveis na Biblioteca Nacional, basta procurar na Coleção Barbosa Machado.

Só que o Isidoro deu com os burros n’água mais uma vez. Assim que as autoridades souberam das publicações que esse mau súdito ousara fazer na colônia, ele foi chamado de volta a Lisboa e obrigado a levar consigo de volta sua ‘officina typographica” para a Metrópole. Dupla audácia: Dar veículo a que homens da Colônia difundissem suas ideias. E contrariar os interesses comerciais dos impressores de Lisboa e da cidade do Porto, que detinham o monopólio da impressão de textos de autores da Colônia, como Santa Rita Durão, Basílio da Gama e os inconfidentes Claudio Manuel da Costa e Tomás Antonio Gonzaga.

Ora, apesar de Isidoro colocar ostensivamente na capa do livro “Com autorização do Senhor Bispo”, ele não tivera autorização nem do Santo Ofício, nem do Desembargo do Paço – ambos apenas expressão da boa e velha Censura, canônica e civil. Portanto, cautela e caldo de galinha, Isidoro: ponha-se de volta à casa com sua Officina. Garantindo-se, assim, a soberania da ordem régia de proibição de tipografias no Brasil.

Proibição que permaneceu até 1808, quando a primeira oficina tipográfica oficial chegou ao Brasil com os navios da Corte e foi instalada na casa onde foi morar o Ministro do Interior de D. João VI, o Conde da Barca, para depois ser integrada à Imprensa Régia. Operada pelo Irmão Veloso, religioso mineiro e tipógrafo, que veio de Lisboa com a Corte, a primeira publicação foi um folheto de 27 páginas e a Carta Régia. Foi a inauguração da imprensa oficial no Brasil, em 13 de maio de 1808.

Chegou a imprensa enfim. Mas não a imprensa livre. Porque, junto, chegou a Censura, é claro. Então os primeiros livros ‘particulares’, isto é, não impressos por iniciativa do governo, tinham que ser bem-comportados e saco-puxativos.  Como este, possivelmente o primeiro livro “particular’ do Brasil colonial não proibido:

“Análise da justiça do comércio de escravos com a costa da África”, onde o autor, o Bispo Inquisidor José Joaquim da Cunha Azeredo Coutinho, explica, à luz das leis dos homens e das leis de Deus, como é justa e necessária a escravidão.

 Notável é a dedicatória do livro, onde o bispo escreve: “A vós todos dedico esta obra filha do meu trabalho e que só teve em vista o vosso bem; obra por cuja causa tenho sido insultado e perseguido pelo ocultos inimigos de vossa pátria e pelos desumanos e cruéis agentes de Brissot e Robespierre, esses monstros de figura humana que estabeleceram a regra: ‘Pereça antes uma colônia do que um princípio’ – princípio destruidor da ordem social e cujo ensaio foi a florescente colônia de São Domingos abrasada em chamas, banhada em sangue”. (Como aparece no livro de Jorge Caldeira História de Riqueza no Brasil, Estação Brasil, 2017, pg 196)

 Evidentemente, o bispo se refere aos princípios da Revolução Francesa, que via como inspiradores da revolução dos escravos que levara à independência do Haiti, a segunda colônia a libertar-se (em 1804) nas Américas, atrás apenas dos Estados Unidos (1776).

COMEÇAMOS MUITO MAL

Agora fica claro por que razões escrevi no início que, em termos de cultura e publicações, começamos muito mal. Estabelecido o paralelo com nossos vizinhos americanos do Sul e do Norte, isso fica muito claro. Enquanto os colonos hispânicos e britânicos nadavam, séculos antes, em um mar de universidades e publicações, nós amargávamos o fracasso de Isidoro e a Pasárgada de nossos primeiros livros – onde só publicava quem era “amigo do rei”.

Vamos continuar falando de livros e livreiros, mas antes vamos ter que fazer mais uma parada obrigatória, num campo chamado ESCRAVIDÃO. Que nos inspire em sabedoria e justiça Sua Excelência Reverendíssima Dom José Joaquim da Cunha Azeredo Coutinho, DD Bispo Inquisidor do Rio de Janeiro.

CONTINUA

Nenhum comentário:

Postar um comentário