terça-feira, 19 de maio de 2026

 

SOU UM FANTASMA !     

Ou: Meu Trabalho como GHOST WRITER

MILTON  MACIEL

Tenho um dia longo demais, que começa às 7 da manhã, quando levanto e termina às 3 da manhã seguinte, quando vou deitar sob protesto. Detesto dormir! Acho uma terrível perda de tempo. Aos 21 anos de idade consegui acesso a um eletroencefa-lógrafo, fiz um treinamento autógeno e aprendi a dormir 3 horas por dia (hoje em dia, durmo quase 4 e 30, não sou mais rapaz).

Meu médico me chamou de louco e disse que eu ia morrer muito cedo. Outro médico disse que eu ia envelhecer horrivelmente, seria um ancião aos quarenta. Quando ultrapassei a marca de 3 vezes 21 anos de idade, não tendo morrido (que eu saiba!),  nem ficado mais velho do que o normal, provei que eles estavam errados.

O único problema para mim é que esse período curto de sono não permite uma boa produção de endorfinas, hormônio de crescimento e leptina, de forma que tenho mais dificuldade para lutar contra o excesso de peso. Este é garantido cada vez que eu abandono a minha boa dieta paleolítica e passo a me entupir de carboidratos, como acontece quando estou morando nos Estados Unidos. 

Mas não recomendo que todo mundo durma pouco assim, porque a necessidade de sono é algo absolutamente INDIVIDUAL e depende do número mínimo de ciclos de SONHO que uma pessoa necessita. Para mim bastam três. Tenho um trabalho chamado “DREAMS, YOUR COSMIC CONSCIOUSNESS”, onde mostro pormenorizadamente tudo isso. Infelizmente, nunca o produzi em português.

Mas esse não é o tema deste artigo. Mencionei isso somente com o intuito de dizer que o meu dia é MUITO longo. Começo a escrever às 9 da manhã, depois de assistir aos noticiários e ler notícias na Internet. E, com raras interrupções, vou até 3 da madrugada seguinte. E escrevo DEPRESSA demais também. O resultado é que escrevo muito mais do que eu posso publicar, apesar de lançar, como agora, cinco livros no mesmo semestre, de manter um blog e ter presença ativa nas redes sociais, LinkedIn principalmente.

Por isso acabei desembocando num caminho novo, que descobri morando nos Estados Unidos: hoje sou GHOST WRITER (Escritor FANTASMA). Que é o cara que escreve para os outros e, na hora da publicação, simplesmente desaparece, se esfuma no ar, como sempre o faz um bom fantasminha camarada.

O nome do ghost writer jamais aparece na capa de um livro ou como autor de um artigo ou de matérias para blogs e sites na Internet. Sou, nessa atividade, como o José Costa, personagem do livro “Budapeste” de Chico Buarque de Holanda, que ganhou, com ele, um prêmio Jabuti em 2004. Se você nunca o leu, recomendo que o faça.

Como José Costa, acho a atividade de ghost writer extremamente gratificante. E as razões são mais de uma.

A primeira é poder dar voz a ideias ou históricos e feitos de outras pessoas. Elas têm conteúdo próprio, mas não estão capacitadas a colocá-los em palavras com a mesma facilidade e qualidade com que um escritor profissional pode fazê-lo. Muitas vezes, porque não têm tempo. Outras, porque não dominam a técnica. Ninguém é obrigado a saber escrever bem, literariamente. Exceto, lógico, o escritor profissional.

Então, nesta aliança, empresto aquilo que para mim é fácil, natural e rápido. Hoje tenho 46 livros publicados em 4 idiomas e formação também em área tecnológica (química), experiência comprovada para dar vazão a conteúdos válidos e importantes, que resultam em livros de ficção, livros de negócios, livros e manuais técnicos, blogs e websites de grande importância para aqueles em cujo nome vou escrever livros e materiais promocionais.

Mas o que me agrada demais nesta atividade, é tirar pessoas do anonimato e convertê-las em escritores(as) da noite para o dia. Oriento-as na publicação autossuficiente e no marketing dos livros, quer sejam físicos, quer sejam e-books.

Como também sou editor, posso dar o trabalho final não apenas como um arquivo de manuscrito em Word ou PDF. Costumo dar o trabalho com formatação, diagramação para livro impresso nos formatos 14 x21 ou 16 x 23 cm, em PDF pronto para gráfica,  mais o arquivo para  subir o ebook. O mesmo vale para as capas, que posso criar e formatar para impressão e livro digital, se o cliente assim o quiser.


MERCADO INTERNACIONAL

E, num requinte extremo, posso produzir o texto em inglês, não apenas traduzido literalmente, mas adaptado literariamente ao mercado norteamericano. O mesmo com relação às capas  e aos próprios títulos dos livros, que devem sempre ser adequados ao particular público leitor. Um exemplo recente é meu livro “COMO É CARO SER MULHER!” Título de enorme apelo comercial no Brasil (está na 4ª edição) e Portugal (1ª. Edição), fica muito ‘estranho’ para a leitora norte americana, se eu usar a tradução literal ‘HOW EXPENSIVE TO BE A WOMAN! Então a primeira edição norteamericana, publicada para todo o mercado anglófono, leva o título ‘NOBODY WARNED ME IT’D COST THIS MUCH!”  (Ninguém me avisou que ia custar isso tudo!”).

Em resumo, sou o que nos USA se chama um Ghost Writer Premium, uma vez que não apenas produzo o texto, mas sou capaz de fornecer uma solução editorial completa, sem que meu cliente tenha que correr atrás de mais quatro tipos diferente de profissionais até ter seu livro pronto para apresentar ao mercado. Ou seja, consigo que meu cliente transforme seu conhecimento, seu projeto, sua plataforma, sua empresa ou sua história em um livro pronto, sem ter que escrever uma única linha e num tempo recorde.

E a prática tem me demonstrado que a vida de uma pessoa pode ser claramente dividida em dois períodos: AL e DL – ou seja, Antes do Livro e Depois do Livro. Ter o seu nome na capa de um livro altera profundamente a maneira como a pessoa é vista e se insere na sociedade humana.

Tenho visto esposas menosprezadas “darem a volta” em maridos machistas; Pessoas psicologicamente tímidas virarem leoas e leões e enfrentarem os entrevistadores com a maior tranquilidade em jornal e TV, na promoção de seus livros. E uma cliente minha do Rio de Janeiro me jurou que esfregou de verdade, fisicamente no duro, o seu primeiro livro na cara de uma cunhada (ou sogra, não lembro bem). É, como eu disse: AL/DL!

Isso que é valido plenamente em obras de ficção sob encomenda, como romances e contos, é ainda mais forte para livros de não-ficção. Nesse caso, o nome na capa do livro represente a fixação da expertise da pessoa. Ela é automaticamente investida na condição de autoridade sobre aquele assunto ali tratado. Eis aí por que razão a publicação de um livro sobre o ramo de atividade profissional da pessoa acaba resultando sempre numa enorme promoção para os seus negócios.

Políticos, por exemplo, adoram publicar suas biografias, que eu chamo de “angelizadas”, meses antes das convenções e das eleições que vão disputar. Barack Obama não foi exceção. Eu mesmo tive a satisfação de elaborar a biografia e a correspondente plataforma (blog, site, redes sociais) de um ex-prefeito que, com sua trajetória renovada ante os eleitores, que já o estavam esquecendo, conseguiu eleger seu filho para o mesmo cargo, numa das mais conhecidas towns aqui de Miami-Dade.

Também ajudei a eleger (com um trabalho que não é biografia, mas uma espécie de memória combinada com um ideário e plano de ação política), um candidato a deputado estadual de um estado do Sudeste brasileiro. Que, se até hoje não está cumprindo aquilo que seu texto prometeu a seus eleitores, pelo menos também não está fazendo o que não se deve fazer, mantem-se ético.

Obviamente, tal tipo de trabalho tem que ser feito bem antes da eleição e tem normas e limites próprios, para não parecer apenas uma mera propaganda eleitoral. Devemos expor o realidade daquilo que o postulante ao cargo já fez e sua trajetória concreta naquilo que ela tem de admirável. 

Um dos meus trabalhos mais gratificantes aconteceu quando, ao longo de uma pesquisa exaustiva com arquivos, jornalistas e historiadores locais, consegui escrever a saga de uma família de imigrantes de São Paulo, cujo patriarca passou para a história como um bandido. E conseguimos demonstrar que tudo não passou de uma enorme armação de inimigos políticos que o derrotaram (ao vencedor as batatas!), resgatando a memória de um homem íntegro. Isso lava a alma da gente como ghost e torna o parente que assina o livro como autor um verdadeiro herói para toda a família.

Por isso tudo, amo esta profissão de ghost writer. E, como o José Costa, do Chico Buarque, tenho um enorme orgulho dela e da prática do seu sigilo profissional absoluto, que é sempre garantido por um rígido contrato de confidencialidade (NDA). Se um dia alguém disser que eu escrevi o livro X para o escritor Y, pode ter certeza que eu nego e meu advogado processa!

Uma nota: A Writer’s Digest publicou recentemente que, de todos os títulos de sucesso publicados nos Estados Unidos, ela estima que 43% deles foram escritos por ghost writers. Isto é quase um para um: para cada bestseller  escrito pelo autor, outro foi escrito PARA ele, para a empresa ou para a ONG, por um escritor fantasma. E a tendência é crescente!



 

quarta-feira, 6 de maio de 2026

 

SER FELIZ É SABER OLHAR PARA  TRÁS

E saber AGRADECER. Mas é também

olhar para a frente e NÃO TER MEDO!                                  


MILTON  MACIEL

O verdadeiro amor, por exemplo, está muito mais em ter tido a felicidade de partilhar doces e duros momentos, os altos e baixos do simples dia a dia; está muito mais no acumular de experiências e vivências, que constroem um passado de compreensão e tolerância, amizade e carinho, em que pese termos vivido desencantos e desilusões, arrufos e brigas, porque isso é simplesmente o NORMAL da vida.

As pessoas nem sempre percebem que ser feliz é OLHAR PARA TRÁS. Ao contrário... elas tendem a ficar infelizes com um veneno chamado MEDO DO FUTURO, medo de perder. Só que aquilo que você já tem dentro de si não pode mais ser perdido. É tesouro. É Indestrutível. Uma relação pode acabar, o afeto de amanhã pode mudar. Mas tudo o que foi vivido não muda, está guardado para SEMPRE, per omnia secula seculorum. Portanto, ser feliz é, acima de tudo, um estado contínuo de GRATIDÃO pelo que de bom já vivemos na vida. E isso, certamente, todos nós tivemos e muito.

 

Quantos são os que dizem, merecidamente: EU ERA FELIZ E NÃO SABIA. Pois é, isso é bem do ser humano: não saber reconhecer um estado de felicidade que está escondido numa aparente calmaria, num dia a dia sem sobressaltos, sem eventos novelescos e excitantes. Foi pensando nisso que um dia escrevi um poema muito simples(*), mas que retrata essa realidade, a qual fica oculta aos olhos das pessoas no dia a dia de suas vidas agitadas, em que elas não se permitem reconhecer a sutileza dos bons momentos que permeiam os menos agradáveis – a porque a VIDA É ASSIM, simplesmente.

Contudo, é da natureza humana, por causa do EFEITO SOMBRA que ataca do fundo do inconsciente, dar um peso diferente aos momentos infelizes, muito maior do que o atribuído aos momentos felizes. É o mesmo fenômeno que faz os jornais e os telejornais estamparem as desgraças e os crimes, as baixarias e as fofocas, preferencialmente a outros temas. Isso vende jornal, isso faz as TV’s faturarem horrores com coisas tipo BBB. De uma certa forma, nós estamos preparados para o que é ruim, esperamos por ele, pela mediocridade inclusive

As pessoas não costumam – porque ninguém lhes ensinou isso – apreciar a felicidade que está no que já passou, de onde nasce o sentimento de plenitude que se chama GRATIDÃO. Exatamente por causa desse que é, como Jung tão bem o demonstrou, o maior medo dos seres humanos: O MEDO DE SOFRER!  

É por medo de sofrer que nós deixamos passar muitas das melhores oportunidades na vida. E deixamos de nos livrar de relações negativas, quer na família, no trabalho ou no amor. E deixamos de encetar outras tantas relações novas. Em suma, como ser humano, VOCÊ MORRE DE MEDO DE SER INFELIZ. MORRE DE MEDO DE SOFRER. MORRE DE MEDO DE PERDER.

Um dia Clarice Lispector perguntou a Hélio Pelegrino, o grande psicanalista brasileiro: Viver é bom?

A resposta de Hélio Pelegrino ela anotou e colocou em livro:

“Viver, essa difícil alegria. Viver é jogo, é risco. Quem joga pode ganhar ou perder. O começo da sabedoria consiste em aceitarmos que perder também faz parte do jogo. Quando isso acontece, ganhamos alguma coisa de extremamente precioso: ganhamos nossa possibilidade de ganhar. Se sei perder, sei ganhar. Se não sei perder, não ganho nada, e terei sempre as mãos vazias. Quem não sabe perder acumula ferrugem nos olhos e se torna cego – cego de rancor. Quando a gente chega a aceitar, com verdadeira e profunda humildade, as regras do jogo existencial, viver se torna mais do que bom --se torna fascinante."


(*) ODE A UMA DIA COMUM

MILTON MACIEL

Ontem não aconteceu nada,


Foi só um dia comum.



Ontem nada foi certo;

Porém, nada deu errado.

Se nada teve conserto,

Nada também foi quebrado.

 

Tive alegrias? Que nada!

Mas nada me incomodou.

Fiquei chateado? Que nada!

No entanto, nada mudou.

 

Nada de novo na esquina,

Nada fugiu da rotina.

Nada houve de horroroso...

Que dia MARAVILHOSO!!!

 

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

FERNANDO PESSOA ERA ASTRÓLOGO PROFISSIONAL

MILTON MACIEL

O maior dos poetas portugueses contemporâneos, Fernando Pessoa, manifestava grande interesse por assuntos esotéricos. Revelações feitas pelo escritor português Paulo Cardoso no livro “Mar Português e a Mensagem Astrológica”, mostram um Fernando Pessoa muito mais envolvido com a Astrologia do que se supunha até então.

O longo e persistente trabalho de investigação de Paulo Cardoso foi possível a partir do momento em que os familiares de Pessoa doaram todo o espólio cultural do poeta ao governo português. Paulo foi uma das poucas pessoas a obter autorização para manusear o impressionante acervo de 30 mil documentos originais, manuscritos ou datilografados.

O que ele descobriu, boquiaberto, é que nada menos que 2700 desses documentos se referem a assuntos de numerologia, geometria sagrada e, esmagadoramente, de Astrologia. Aos olhos do pesquisador foi aparecendo aos poucos um Fernando Pessoa astrólogo. E um astrólogo profissional, que cobrava por consultas dadas, com uma tabela de preços encontrada em um manuscrito de próprio punho, com preços para interpretação simples, interpretação média e interpretação avançada.

Mas a coisa não parava aí. Paulo Cardoso descobriu que Pessoa definia seus heterônimos astrologicamente. Aplicava técnica eletiva até encontrar um mapa que mais se assemelhasse com o heterônimo que tinha em mente criar. Em seu livro, Paulo Cardoso reproduz o mapa, feito pelo poeta, de seu heterônimo Ricardo Reis, o médico. Este, Álvaro de Campos, o engenheiro e Alberto Caeiro, o pouco culto, são os três mais conhecidos heterônimos usados pelo poeta.

Mas o que mais impressionou Paulo foi descobrir o heterônimo Raphael Baldaya, que Fernando Pessoa apresentou como sendo o mais velho e o mais sábio de todos e que era astrólogo!

Sob esse nome fictício, Pessoa elaborou um projeto editorial que lhe era especialmente caro ao coração: a publicação de um livro técnico de Astrologia, com o nome “Essays in Astrology” – Ensaios de Astrologia. Na revista “Delphos Astrologia, Vol. 1 No. 2 foi publicado o fac-símile da página original, datilografada pelo próprio poeta, que é reproduzido no fim deste artigo.

O texto está datilografado em inglês, a segunda língua de Pessoa, já que ele viveu muitos anos estudando na África do Sul. Uma grande parte dos originais de Pessoa é redigida em inglês, já que esse fantástico geminiano até nisso exibia sua dualidade: era absolutamente bilíngue.

Aliás, a manifestação da multiplicidade de talentos de Fernando Pessoa é uma exteriorização do seu multifacetamento interior. O que ele aprendeu a equilibrar com o auxílio da Astrologia, criando com ela os seus heterônimos, seus diversos eu-mesmo, seus personagens internos.

Fernando Pessoa tinha o Sol em Gêmeos e Mercúrio, seu dispositor, no sensível e poético signo de Câncer. Ali, na casa XI natal, recebia a dupla quadratura de Marte e Urano, conjuntos em Libra. Uma estrutura planetária que indica a existência de um possível hipertireoidismo em Pessoa.

Como escreveu Paulo Cardoso:

“A Astrologia vai-lhe ser uma filosofia de apoio, o fio que lhe permitirá habitar e viajar o labirinto de sua interioridade, enveredar por sua irresistível vocação de descobridor dos meandros do seu próprio processo intelectual, sem que corresse o perigo de cisão total com o exterior, com o mundo, o risco de ficar eternamente fechado, hipnotizado, extasiado, sucumbido no delirante ritmo de sua mente. A Astrologia foi pois, a partir dessa altura, a fórmula que respondia assiduamente às dúvidas que se lhe punham acerca de sua sincronia com a vida e com o mundo.”

Projeto do livro de Astrologia de Fernando Pessoa, que não chegou a ser publicado em razão da morte prematura do poeta:

ESSAYS IN ASTROLOGY

By Raphael Baldaya

I – The conventions in Astrology

1)      The intellectual zodiac

2)      The measures

3)      The attributions

II – The zodiac

III – Directional Astrology

IV – Symbolic directions

V – Prenatal figures

VI – Mundane Astrology

VII – Defense and justification of Astrology

VIII – Horary Astrology

IX – The sorts

X – The fixed stars  

XI – Transits and eclipses

XII – General reading of the nativity

XIII – The mundane houses

XIV – The foreign element in Astrology

          Rejection of the Occult Element, of the Symbolic element





quinta-feira, 7 de novembro de 2024

DAS DELÍCIAS DE ESCREVER ROMANCE HISTÓRICO (Ou: O Ovo do Cuco)






MILTON MACIEL     Photo by Roger Culos

O cuco é um diabo de um passarinho esperto. Não faz ninho próprio nem cuida das crias. Bota os ovos, devidamente camuflados, no ninho de outra espécie de pássaro, que vai chocá-lo e alimentar o filhote de cuco. Que sai do ovo antes dos filhotes legítimos e joga os ovos de onde estes nasceriam para afora do ninho, matando-os. Os pais adotivos o alimentam e ele cresce sozinho, fica enorme em 21 dias e se manda, vai viver sua vida.

Pois é, eu me sinto meio cuco quando escrevo romances históricos, coisa que adoro fazer. Primeiro vou para o ninho do pássaro historiador. E é ali que coloco meus ovos de cuco, de ficção. Explico melhor.

O historiador está completamente preso à realidade objetiva dos fatos históricos. Ele conta o que de fato aconteceu. Ou, ao menos, o que a sua pesquisa o leva a concluir, honestamente, que aconteceu. Não pode tomar licença alguma.

Já o romancista histórico chega ao ninho onde o historiador botou seus ovos cinza-chumbo da realidade e começa a entremeá-los com os seus próprios ovos multicoloridos da imaginação e da emoção. É meio-cuco. Se for cuco completo, joga fora do ninho todos os ovos do historiador e os substitui inteiramente por ovos imaginários. Eu prefiro ser meio-cuco. Deixo os ovos fundamentais da história, sem mudar sua posição. Atenho-me a personagens, datas e eventos reais. E, em cima e ao lado deles, coloco os meus.

O historiador escreve em seu livro o que aconteceu. Eu escrevo no meu, sobre o mesmo acontecimento, o que o personagem SENTIU, imaginou, sonhou, sofreu, riu, se emocionou, planejou. Dou-lhe VIDA, transformo-o em um ser real de carne e osso, ele que até então era só um ente histórico, formado de antecedentes, consequentes, datas e números. Uma múmia.

O engraçado, o divertido é que, para tornar meu personagem real, de carne e osso, bem como o leitor aprecia, eu fantasio e uso a imaginação. O personagem real histórico se torna o personagem real humano, na base da fantasia. Não é um paradoxo?

E aí vem o melhor da festa: a gente INVENTA personagens que não existiram e os coloca em ação com os personagens reais. É o máximo para o autor. Quem não lembra o bom Alexandre Dumas?  É claro que precisa haver coerência, muita pesquisa histórica, conhecimento total do que se sabe sobre os personagens e os acontecimentos reais, sua época, seus costumes, suas roupas, cabelos, adereços, maquiagens, sua religião, sua alimentação, suas tecnologias, suas necessidades e seus medos. Os personagens fictícios precisam encaixar-se dentro desse ambiente, desses cenários e desse modelo comportamental.

Mas, feito esse encaixe, a gente tem uma enorme liberdade para criar. Se o historiador descobriu que o rei deitou com a esposa do marquês, ele faz o registro secamente. Já eu entro na alcova real e ... sai de baixo! Ou de cima, conforme o gosto dos personagens. Só o bom senso e, necessariamente, o bom gosto, ditam os limites do que eu posso contar, como testemunha ocular do doce embate que sou.

Em meu romance histórico “O CERCO”, que se passa na Gália romana em 451 DC, o fato central é a batalha dos Campos Catalaúnicos, travada por gauleses, romanos, visigodos, alanos, burgúndios e francos, coligados, contra os hunos e seus aliados, gépides, ostrogodos, hérulos e alamanos. São reais o Imperador Valentiniano III, o general Flávio Aécio, e os reis de todos esses povos combatentes, a começar por Átila, rei dos hunos. É real o resultado final da batalha. Mas o resto...

Curti demais inventando três sacerdotisas celtas e um eunuco ostrogodo, quatro personagens femininas que são as grandes protagonistas desse entrevero do mundo dos machos guerreiros. São elas que salvam os francos e vencem a guerra.

O rei dos francos se apaixona desesperadamente pela sacerdotisa mais jovem. Ele é real. E acontece que a moça também é! Virou rainha dos francos de verdade, Vérica, esposa do rei Meroveu (Merovech, nome original).

Só não era sacerdotisa. Eu a fiz ser. E ela, que era para ser apenas uma personagem auxiliar, acaba virando a grande protagonista da história, tornando-se a figura principal, eclipsando todos os outros personagens masculinos e femininos, mais uma vez confirmando Jorge Amado, que sempre afirmou que é o personagem, não o autor, quem escreve o romance.

É dessa menina de 17 anos, sacerdotisa e guerreira, uma excepcional arqueira, que vai surgir depois, no futuro próximo, como neto seu, Clóvis, o rei dos francos Salianos (atual Bélgica), que vai unificar pela força todas as cinco tribos dos francos e dar origem REAL à nação moderna que se chama FRANÇA. Realidade e fantasia, em íntima mistura, são o cerne do romance histórico. Simples assim.

Mais uma vez o meu preito de gratidão aos historiadores que pesquisaram exaustivamente os fatos e que, desse rei e dessa rainha, conseguiram pouco mais do que comprovar sua existência real histórica, deixando-me livre para reinventá-los da maneira que mais entusiasma os meus leitores. Graças ao rigor dos historiadores, encontro um ninho onde colocar meus ovos de cuco. Gratidão eterna.

sábado, 19 de outubro de 2024

QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?

QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?

QUEM TEM MEDO DO LOBO MAU?

MILTON MACIEL

O PAPEL VITAL QUE O ANTAGONISTA TEM NA FICÇÃO (Escrita Criativa)

Pois é, imagine só a história de Chapeuzinho Vermelho ou a dos Três Porquinhos. Agora faça o seguinte: tire o Lobo Mau.

Resultado: acabou. Não tem mais história. Sobra a chatice da Chapeuzinho Vermelho passeando pela floresta e entregando a cestinha para a vovó. E a chatice dos porquinhos preguiçosos fazendo casinhas de palha ou de madeira. Cadê a emoção?

Existiria o enorme sucesso dos livros e filmes de O Senhor dos Anéis sem Sauron, sem Gollum? Ou os onze milhões de exemplares vendidos, só na noite do lançamento, do sexto e último volume da série Harry Potter sem o bendito Lord Voldemort?

E o que nos garante a imortalidade e reconhecimento internacional do mulato Pedro Arcanjo não é a luta obstinada que ele empreende, publicando livros, contra o preconceito – personificado no intransigente Dr. Nilo Argolo e no delegado Pedrito Gordo?

Faria sentido a figura de Mundinho Falcão se não houvesse Ramiro Bastos? Observe nesses dois personagens de Jorge Amado, em Gabriela, cravo  e canela, como o antagonismo é relativo. O coronel Ramiro Bastos é o status quo, representa o poder dos senhores do cacau, a estabilidade, a conservação. Para ele, Mundinho é o mal, o antagonista, o forasteiro inconveniente e desrespeitoso, que ousa afrontar o sistema político local. Para Raimundo Falcão, Ramiro Bastos é o mal, o antagonista, o chefe da oligarquia retrógrada que impede o progresso de Ilhéus.

Como o conflito é o que move qualquer história, o protagonista necessita desesperadamente de um antagonista para poder realizar sua saga. O antagonista é o verdadeiro motor da história, aquilo que a faz mover-se para a frente. Sem esse movimento, a história morre, o leitor abandona o livro, aborrecido.

Em toda boa história, aquela que prende o leitor ao livro, há pelo menos um problema central que o protagonista tem que resolver, para avançar no seu arco de personagem. Cabe ao antagonista dificultar essa resolução ou ser a origem do problema em si.

Contudo, protagonista não quer dizer vilão. O antagonista é só um opositor, ao passo que o vilão é um mau-caráter, é o mal em si. O médico e professor da Faculdade de Medicina Nilo Argolo é um profissional competente e respeitadíssimo. É seu preconceito racial que o faz um ferrenho antagonista de Pedro Arcanjo. Mas não o faz um vilão.

Já o delgado Pedrito Gordo é um vilão típico, um quase clichê. É violento, sádico e assassino.

Para deixar mais claro: Em Os Miseráveis, de Dumas, o Inspetor Javert é o grande antagonista de Jean Valjean. Mas representa a lei e a ordem, não é um vilão.

Em compensação, o eterno vilão Capitão Gancho é que dá movimento e colorido às histórias de Peter Pan.

Em resumo, nem todo antagonista é um vilão, mas quase todo vilão é um antagonista. Mas por que quase? Porque existem exceções. Um vilão pode ajudar o protagonista, por acaso ou por querer, mas isso não o faz menos vilão. Exemplo: em um dos meus contos a protagonista tem que se entregar aos desejos lúbricos do contador chantagista, que descobriu as falcatruas do pai dela, diretor de banco.

Mas, na hora H, o antagonista não aparece no motel. É que o chefe do tráfico local mandou executá-lo horas antes, por razões que nada têm a ver com a protagonista. Nesse caso, um vilão, que nem sabe que ela existe, acaba sendo solução e não antagonista.

E ainda há outra possibilidade, quando o vilão é o protagonista. Aqui a história é apresentada sob a ótica do homem mau, de uma tal maneira que o leitor acaba torcendo por ele. Isto não é incomum em romances de crime, em que o protagonismo pode ficar por conta de criminosos. Um bom exemplo é o Poderoso Chefão, de Mario Puzzo.

Há não muito tempo tivemos mais um filme de sucesso, tendo o Coringa como protagonista, representado pelo excelente Joachin Phoenix. E você vê os espectadores torcendo pelo vilão, em que pese a escalada de suas violências. Méritos, no caso, de autor, roteirista, ator e diretor. E, convenhamos, dos valores éticos muito pessoais desses espectadores.

OUTROS TIPOS DE ANTAGONISTA

O vilão é apenas um caso especial de antagonista. Há muitos outros antagonistas possíveis, inclusive os não humanos. Exemplos:

- Homem contra natureza

Moby Dick, Tubarão, Os Pássaros, as formigas gigantes, o tsunami, o Krakatoa, o asteroide, o furacão. E por aí vai.

- Homem contra não homem

Os aliens, os marcianos, os zumbis, a múmia, o robô

- Homem contra a sociedade

1984, o Grande Irmão; o Sistema (Jogos Vorazes); a Matriz (Matrix); a República de Gileade (O Conto da aia); a Inquisição; a caça às bruxas;  o racismo; a xenofobia; o machismo; o preconceito sexual.

- Homem contra si mesmo

Este é um antagonismo complicado, embora mais do que familiar, porque todos nós o carregamos conosco internamente. E que é complicado também para o escritor, que tem que mostrar que o protagonista tem em si mesmo o seu pior inimigo; fica mais difícil impedir que o texto derrape num marasmo de lutas psicológicas internas, que roubam momento à trama.

Para dar ímpeto ao enredo e arrancá-lo da sonolência neste caso, o indicado é usar os relacionamentos e o mecanismo psicológico da projeção, de modo que o protagonista tenha que trabalhar seu problema e sua Sombra através de outros – que espelharão, em forma de gente, o que o protagonista tem que enfrentar e superar.

Por exemplo, delegar inconscientemente a qualquer parceiro ou esposa o papel de autoridade e de poder repressivo, deixando-se anular e sofrer por isso. Este pode ser o caminho que o protagonista precisa seguir para conquistar, através de sucessivos conflitos, a confiança em si mesmo, o amor-próprio e a independência.

Seja como for, quando você vai começar a construir seus personagens, sua tendência natural será deter-se no seu protagonista e fazê-lo o mais completo, o mais tridimensional possível. Pois essa é a hora de fazer a mesma coisa com o antagonista. Seja ele um amigo (da onça), o vilão ou o maremoto iminente.

Você precisa valorizar a compreender perfeitamente aquele que vai colocar pedras no caminho do personagem principal, seu protagonista. Tem que saber indicar ao leitor por que raios aquele sujeito vai fazer essa coisas, quais as suas motivações, anseios, medos e necessidades – uma vez que do ponto de vista dele, ele é que está certo e o protagonista é o errado.

Veja o quanto toda construção que Tolkien fez com seus hobbits e heróis dependeu criticamente de um muito bem formulado Sauron, seus servidores, seus anéis e seus orcs, a quem aqueles devem combater e derrotar.

Qualquer SunTzu moderno lhe dirá que é preciso conhecer muito bem o inimigo e suas forças antes de você poder preparar seus exércitos para enfrentá-los. Ora, escrever ficção também é uma forma de Arte da Guerra.

Portanto, de início e bem de início, trate de trabalhar bem, sem preguiça ou superficialidade, na formulação do seu – ou seus – antagonista(s). É, o protagonista pode ter que enfrentar não só o antagonista ético ou o vilão malvado. Ele pode ter que travar uma batalha interna de superação contra seus medos e contra parceiros que personificam esses medos, desencorajando-o e fazendo-o retroceder. E pode ter que fazer tudo isso em meio à seca cruel na caatinga ou às nevascas e avalanches nas montanhas geladas.

Mas, pelo menos, espero, sem batalhões de marcianos ou de mortos-vivos ao mesmo tempo – a menos que você seja um autor muito sádico.

Se você é um planejador ou um plotter, comece estabelecendo cuidadosamente as definições do protagonista e do antagonista lado a lado, ao mesmo tempo. Disponha os dois exércitos em campo muito antes que eles estejam prontos para a batalha. Você sabe onde quer chegar. A vantagem e que você está no controle o tempo todo.

Agora, se você é um intuitivo ou pantser, ponha o exército Brancaleone do protagonista em marcha e veja o que acontece cada vez que um novo inimigo aparece para dar combate. Então você se vira para achar uma solução de emergência e segue em frente até o obstáculo seguinte. Você não sabe onde quer chegar; ou até desconfia, mas não sabe como chegar lá.

E aí pode estar a sua força, porque o seu inconsciente sabe o tempo inteiro onde tudo isso, toda essa marcha desordenada, vai desembocar. A vantagem é que você acaba chegando lá de qualquer jeito e tem a deliciosa surpresa de descobrir, enfim, como sua história termina.