domingo, 19 de julho de 2015

CELEBRO A VIDA 
MILTON MACIEL

Celebro a Vida, com seus golpes torturantes,
que ao mesmo tempo me faz feliz, sem ais.
Trino às manhãs, com seus gorjeios esfuziantes
e canto a noite e seus encontros sensuais.

Há tanto encanto nesta vida assim a esmo,
sob as benesses de um planeta bom demais!
Canto os jardins, as montanhas e, até mesmo,
canto os amores delituosos e fatais.

Viver é mesmo uma aventura delirante.
Há o sofrer, há a alegria e muito mais:
Há o sentimento do amor febricitante
e o amor sublime, que vem de mães e pais.

É trabalhar, pra se tornar melhor que antes;
Serenidade... é viver como Deus quer.
Num mundo azul, de ambientes deslumbrantes,
vendo a beleza incomparável da mulher.


sábado, 18 de julho de 2015

MEU DEUS, QUE MARAVILHA!...     
MILTON MACIEL

Que bom é consumir-se em fogo que sufoca,
Que enche o peito, faz a alma incandescente;
Que faz crescer o que mais belo tem na gente,
Que o mais sublime sentimento nos evoca.
Tão bom saber que você não se equivoca,
Que, sim, é Amor o que seu coração pressente!

Sentir-se estremecer pela presença de alguém,
Ou ter o peito arfante só por nele ter pensado;
Ansiar, em sobressalto, por um instante dourado  
De estar bem perto dele, de impressioná-lo bem.
Deixar-se dissolver em um momento sem porém...
Meu Deus, que maravilha que é estar apaixonado!!!


quinta-feira, 16 de julho de 2015

MAR DE SOLIDÃO  
MILTON  MACIEL 

Nos ventos que correm por sobre as montanhas,
nas ondas que oscilam perenes no mar,
nos raios de luz que provêm das estrelas,
não vejo mais nada, senão teu olhar.

Se vivo, que importa, sem tua presença?
Se vejo, que adianta, sem ver teu olhar?
E agora que espero, em vão, tua lembrança,
não há nem  beleza, nem luz, neste mar.

Sozinho na praia, vagando na areia,
carrego um vazio que só faz aumentar.
Amargo me vejo, porque reconheço:
Perdi teu amor - eu não soube te amar!

Se agora me deixas e buscas tua vida,
que posso fazer, a não ser concordar?
Enquanto te tive fui fraco, insensível.
Agora tua ausência me faz delirar.

Enquanto caminho, sem rumo, na praia,
pergunto a mim mesmo onde posso chegar.
E as ondas respondem, incessantemente:
- Não há porto algum onde logres parar.

E, triste, definho ainda mais cada dia.
Só vejo o vazio do meu próprio olhar.
Estou só, te perdi... e agora percebo:
Minha solidão... é maior que este mar.


terça-feira, 14 de julho de 2015

KHIRBET KUMRAN – Nathan, o Zelote 
MILTON   MACIEL

   Do alto, à entrada da caverna, a velha contemplava a paisagem de Khirbet Qumran. A noite caia rápida e a visão da praia e da grande extensão de água à sua frente ia se fazendo mais e mais enevoada, aumentando a falta de nitidez com que as cataratas crescentes em seus olhos a castigavam. Mas nem toda a névoa deste mundo seria capaz de esconder dela o vulto odioso, inconfundível, que se aproximava do penhasco. Puxando um jumento, Shlomo, o publicano, caminhava lentamente pela praia, com seu passo oscilante de bêbado. Uma vertigem tomou conta da velha - quarenta anos de humilhação e maus tratos nas mãos daquele maldito marido assomaram à sua lembrança, enchendo de tristeza e revolta sua mente, até então envolta pela enorme paz do ambiente.

Ali, judiciosamente, a velha se dedicava a colocar os manuscritos dentro dos grandes vasos de argila. Os romanos avançavam cada vez mais e os líderes da comunidade essênia, receosos da destruição de seu grande legado, haviam decidido escondê-lo nas grandes cavernas de Qumran.

   Lágrimas assomavam aos olhos baços da pobre mulher quando algo lá embaixo despertou sua atenção. Da escuridão já quase plena, assomou um vulto por trás de Shlomo e o atacou com um enorme remo de barco. Um único golpe certeiro no alto do crânio, um ruído de pote quebrando, e o velho tombou pesadamente sobre os joelhos. O agressor agiu célere: arrastou o corpo para junto de um grupo de barcos distribuídos entre a areia e a água e o escondeu rapidamente, cobrindo-o com um grande monte de redes de pesca.

A velha passou da surpresa e do susto para uma sensação de alívio e euforia. Ninguém precisaria lhe contar, havia presenciado tudo: o pesadelo chegara ao fim! Décadas de martírio estavam agora encerradas pelas mãos de um Anjo Vingador. Sempre tivera essa convicção: um dia o Senhor haveria de enviar um anjo para punir todas as incontáveis maldades de Shlomo. Por que tardara tanto?

   A velha então deixou-se cair de joelhos, suas lágrimas rolando abundantes agora, enquanto murmurava um rosário de preces e frases ininteligíveis, deixando sair do fundo do peito toda a emoção de que estava tomada. Toda ela parecia estremecer em convulsões, mas seus olhos, quando se abriam, revelavam toda a enorme, toda a indizível alegria de que se via inundada. Nessa situação ficou por longos minutos, até que sua atenção foi de novo chamada por movimentos de pessoas lá embaixo. 

Viu que um pequeno grupo de pescadores se encaminhava para os barcos. E notou que um deles ia direto para o tufo de redes empilhadas, formando um monte estranho à prática comum daqueles homens, o que lhes havia chamado a atenção ao chegarem.  A mulher se ergueu, alarmada. A violenta emoção de euforia deu lugar a um momento de preocupação. Logo os pescadores descobririam o corpo de Shlomo. E, pouco depois, perceberiam que um dos seus barcos havia desaparecido. Nele, o Anjo Vingador se evadira rapidamente da cena do crime.

A velha sentia–se tão imensamente grata a seu redentor que a última coisa que queria é que os homens saíssem à sua caça em seus pequenos veleiros. Acalmou-se um pouco ao lembrar que agora já era noite fechada e que, talvez, os homens custassem a perceber o furto do barco. Mas o que havia por baixo do estranho monte de redes estava para ser descoberto no instante seguinte: o homem já havia começado a remover as redes de cima e chamava, excitado e aos gritos, os seus companheiros.

Aquele a quem a velha chamara seu Anjo Vingador era Nathan da Galiléia. Um Zelote dos mais ativos e dos mais procurados por romanos e judeus, com cabeça a prêmio. Solitário por vocação, Nathan quase sempre agia sozinho. Por isso suas emboscadas e ataques não eram espetaculares. Ao contrário, resumiam-se a cuidadosos e bem planejados raides contra um único indivíduo. Passara, desta vez, quase uma semana à caça do velho publicano Shlomo, um cruel explorador do seu próprio povo, de quem arrancava escorchantes tributos que, depois, sonegava em parte aos romanos.

Shlomo fora a causa da desgraça de muitos homens e de suas famílias, nesse rol incluído o pai de Nathan. O velho Shaul, expropriado da maior parte dos seus bens, não havia resistido à tristeza e à humilhação. Embora a família contasse que ele caíra do penhasco, seus filhos perceberam que ele havia saltado para o fim, em desespero. Agora Nathan lhe fizera justiça.

Sem saber do drama da velha mulher do abutre publicano, via a si mesmo como um Anjo Vingador. Mas não apenas de seu pai, senão que de todo um povo massacrado e vilipendiado pelos invasores romanos e seu asseclas judeus, estes ainda mais odiosos por se locupletarem com as escassas sobras arrancadas a pulso de seus compatriotas. Justiçado Shlomo, escondera-lhe o corpo sob redes de pesca e fugira tomando um dos barcos a vela que estavam ali fundeados.

Agora seu olhar perscrutava o grande lago de Asfaltitus, ao qual os romanos preferiam chamar de Mar Morto.  Navegava na noite fechada, sem lua, na escuridão quase completa. Mas seus olhos habituados às longas espreitas nas noites de emboscada, seu passado de menino marinheiro e pescador no Lago de Genesaré, à beira do qual nascera em Cafarnaum, lhe permitiam navegar com segurança mesmo nessas condições. Os mistérios do lago, suas correntes, sua água espessa de sal, não lhe eram estranhos. Por ali já se deslocara em outras missões. Agora, deixando Khirbet Qumran, velejaria toda a noite e pelos dias seguintes, até alcançar o extremo sul do Asfaltitus, saindo dele na altura de Masada. Dali se esgueiraria mais uma vez pelas montanhas, chegando a Hebron e de lá, devidamente disfarçado, haveria de achar caminho para Jerusalém, onde esperava encetar um novo ataque, agora dirigido a um funcionário romano, cúmplice de muitos dos achaques de Shlomo.

   Na noite densa, de poucas estrelas escurecidas pela névoa, Nathan olhava seu Lago Asfaltitus com amor e gratidão. Outros talvez nada pudessem ver, mas para o galileu, ele era totalmente perceptível: via suas águas serenas e escuras, os bancos de areia e os rochedos às margens, as raras fogueiras acesas, uma ou outra escassa casa ou grupo de casas iluminadas pelas lamparinas, nos quase inexistentes vilarejos situados sobre as escarpas. Mar Morto? Não. Mar cheio de esperança de vida enquanto por ali passassem, tudo arriscando, guerrilheiros patrióticos e corajosos como Nathan, o galileu - Nathan Zelote.


quarta-feira, 1 de julho de 2015

HARMONIA 
MILTON MACIEL                    

Harmonia!

É assim que vejo e sinto você desde o começo,
Quando por vez primeira envolveu-me a sua luz,
Luz que mostrou-se tão maior do que supus!

Desordem, sobressalto, no meu peito opresso,
Descria eu já da vida, ensimesmado e niilista...
Porem, quando pousei em você a minha vista,

Pensei: Meu Deus, quem será? Eu estremeço!
De você emanava luz de doçura e de harmonia,
E eu, cativo, passei a amar você desde esse dia.

A sua luz, o seu amor, me resgataram do tropeço,
Com você me reergui desde o primeiro instante,
Deixei de ser só um poeta avesso e delirante.

Estar com você marcou pra mim o recomeço,
Tudo em você me infunde paz, felicidade,
Tudo em você transcende a mera realidade:

Você: harmonia!


segunda-feira, 22 de junho de 2015

Ah, O AMOR ! Sarau Lítero-musical

O Escritor MILTON MACIEL lança seu quinto livro de poesias “Ah, O AMOR ! “, apresentando poemas e tocando trechos de músicas ao piano e harmônica, em perfeita interação com cada poesia.  Imagens, vídeos e as letras das músicas permitirão que todos possam cantar juntos e interagir com o programa.

Em JOINVILLE, na BIBLIOTECA ROLF COLIN. Dia 30/06, terça, às 19:30 hs
ENTRADA FRANCA
Programa
HARMONIA – poema (Largo de Xerxes – Handel)
CONTRAPONTO – poema (Concerto Italiano – Bach)
CÂNONE – poema  (Canon – Pachelbel)
ADÁGIO – poema (Sonata ao Luar – Beethoven)

    Vídeos: Ignacio, “Entendez-tu les chiens aboyer?” – Vangelis

Vamos cantar juntos:
RECOMEÇO – poema (De volta ao Começo – Gonzaguinha)
CRIANÇA INTERIOR – poema (Bola de meia, bola de gude  – Milton Nascimento)
SANTO POVO – poema (Dia de Santo Reis - Tim Maia)

Porto Seguro – samba – Milton Maciel
Agora Ela Vai Voltar – samba – Milton Maciel
Negra Velha – toada gaúcha – Milton Maciel

The Sound of Silence – Paul Simon
Scarborough Fair – folclore ingles


Participação especial do escritor Marinaldo de Silva e Silva, que apresentará: “Aula de leitura”- poema ; e “A Vida  e Suas Figuras” – texto.

domingo, 7 de junho de 2015

UM CONTO ERÓTICO “EXPLÍCITO” DEMAIS  
MILTON  MACIEL   

Uma relação mui caliente!

Há meses ele estava de olho nela. Na verdade, desde que aquela gata sensacional havia se mudado para o prédio ao lado. Ela era mesmo demais, capaz de deixar qualquer um enlouquecido. A prova é que ele não era o único a suspirar por aquela musa, os outros caras do pedaço também viviam a fim dela. E como condená-los por isso?  

Ele sacou logo de cara que a concorrência ia ser braba! E viu que ia ter que apelar para algum artifício, porque não podia ter garantia alguma que ela fosse dar bola pra ele, que dirá aquilo ele queria que ela desse!

Aliás, a rigor, ela não dava bola era pra ninguém. Uma esnobe, isso sim. E que esnobe!  Se chegava à janela da frente, ignorava solenemente os caras prontos a se curvar até quebrar a espinha por causa dela. Com ele, então, a coisa era pior.

Isso porque um dia, quando ela passeava sozinha pelo jardim da casa dela, ele havia se aproximado um tanto afoito demais. Sim era preciso reconhecer: faltara-lhe classe e compostura. Chegou muito rápido, sem entabular uma boa conversa, um bom papo de aproximação. Foi só se chegando, se chegando. E aí, de repente, vendo aquela carinha mimosa a poucos centímetros dele, vendo aquele corpo enlouquecedor tão ao seu alcance, não se segurou: avançou demais o sinal, fez uma manobra de aproximação brusca e definitiva. O resultado foi que experimentou a mão dela na sua cara, num tapa que lhe pareceu, psicologicamente, uma verdadeira patada, as unhas dela lanhando o seu rosto descarado.

Depois disso é que a situação ficou muito mais feia pra ele. Se antes o esnobava, agora ela simplesmente virava a cara quando ele aparecia. Era evidente que não gostava dele. Também, ele havia sido imprudente demais!

Dessa forma passou-se mais um par de meses. Ele suspirando por ela, ela nem aí para ele. Verdade seja dita, porém: não estava nem aí para os outros caras também, para os seus concorrentes. Por isso quando, numa certa tarde, ela apareceu no pátio de casa com uma atitude totalmente diferente, ele estranhou demais. Ao invés do ar esnobe ou indiferente de sempre, ela desta vez deitou-lhe uma mirada de derreter iceberg e Titanic ao mesmo tempo.

Ela estava deslumbrante, mais fascinante do que nunca. Movia o corpo perfeito como se dançasse uma música sutil e envolvente, que só ela podia ouvir. Num certo momento ela se deitou no gramado, voltou-se para um lado e para outro, num movimento enlouquecedor. Ah, que coisa do outro mundo aquela gata! Era, sem favor nenhum, a mais linda que ele já tinha visto em toda a sua vida de malandro namorador. Deixava todas as outras no chinelo. A cara, os olhos de mel, a boca, o corpo e o... o rabo , com o perdão da má palavra. Ah, mas só falando assim: aquele rabo o deixava enlouquecido.

Como agora, toda aquela provocação estava lhe dando nos bagos. Tendo certeza que ia levar um novo tapa na cara, ele resolveu arriscar tudo. Nunca fora covarde, ia partir pro tudo ou nada. Pensou: ou dá ou desce. Acreditando que ele ia ter que descer, que ela não dava coisa nenhuma.

Mas ficou estupefato ao ver que ela agora não o repelia. Pelo contrário, parecia que o chamava com olhar e a postura do corpo enlouquecedor. Ele perdeu todos os receios e, com isso, perdeu também todos os modos. Aproximou-se tanto a ponto de tocá-la e abraçá-la de leve. Ela não o repeliu. Parecia gostar. Ali pertinho, ele aspirou o suave aroma que vinha daquele corpo escultural. Estava bem diferente hoje daquele do dia em que levara o doloroso tapa. Era doce, suave, instigante. Afrodisíaco, sem dúvida!

Aquilo deu-lhe nos bagos, e ele perdeu todo o controle. Ainda tentou se segurar, cantando para ela, como para se dar tempo e poder ganhar um mínimo de autocontrole. Ela não pareceu surpresa e, contrário a toda expectativa dele, pareceu ter gostado do seu canto e da sua voz, que ele mesmo achava feia e desafinada, tipo taquaral inteiro rachado. Mas, se a gatinha estava a fim, não era ele que ia perder a oportunidade. Encheu os pulmões e desatou na cantoria mais alta e gritada que já tinha feito na vida. Para ele estava horrível, mas para ela parecia a mais delicada serenata, pois ela se aproximou ainda mais e começou a se esfregar nele, delicadamente.

Ele então sentiu toda a força da sua masculinidade intumescer e a enlaçou por trás. Ela aceitou a abordagem e então os dois explodiram numa cena de sexo intenso e explícito ali mesmo, em plena grama do pátio. Ele não parava de cantar, porque parecia que o seu canto tinha o condão de enfeitiçá-la e de excitá-la. Aproveitou-se da aceitação passiva dela e de repente, assim mesmo como estava, às costas dela, com uma brusca manobra muito bem feita, conseguiu penetrá-la com uma só e certeira estocada. Ela pareceu delirar, revirando os olhinhos de mel e soltando uma série de gemidos entrecortados.

Aquela seria a relação sexual mais perfeita de sua vida, teve convicção naquele momento. Mas houve algo que veio atrapalhar a perfeição’total, embora não chegasse a lhe tirar a sensação de euforia e vitória. Na hora H, quando ele se sentia esvair dentro das entranhas dela, sentiu como uma cachoeira de água fria caindo sobre suas costas. E, ao mesmo tempo, escutou uma voz de mulher aos berros:

– Seu Chico, Seu Chico, acode aqui rápido! O seu gato está pegando a minha gatinha, pobrezinha! Já joguei um balde d’água neles e não adiantou. Seu Chico, corre aqui, pula o muro, pelo amor de Deus. Que horror, como é que eu não vi que a Penélope tinha entrado no cio???