ET DIEU CRÉA LA FEMME
(E DEUS CRIOU A MULHER)
Milton Maciel (do livro "OS MELHORES CONTOS DE HUMOR", E.A. - 2a. edição, 2026)
Deus olhava contrafeito para aquele estranho boneco de argila a quem ele infundira vida horas atrás, com um sopro bem dado em suas narinas ainda ocluídas. O pneuma divino, abrindo-as, deu vida imediata à bizarra criatura. O Criador estava pensando que não fora uma boa ideia inspirar-se no macaco como modelo para sua criação. O resultado acabara ficando muito feio e muito peludo.
E tivera que voltar várias vezes à etapa de
produção, por causa de óbvios defeitos. Na última vez, porque ia escapando o
rabo de macaco na nova criatura. Foi retirado a tempo, por inútil, segundos
antes do sopro vivificador.
Copiando ora partes de um gorila, ora partes de
um orangotango, o Criador foi fazendo sua escultura de barro, com evidente
prazer. Adorava moldar criaturas e infundir-lhes vida depois. Teve o cuidado de
corrigir um detalhe ainda: a bunda de orangotango, vermelha, tinha ficado
horrorosa na nova criatura, trocou-a pela de um bonobo que passava
ocasionalmente por ali. Ah, isso haveria de ser um problema depois! Pois veio
junto o incrível apetite sexual dos bonobos. Mas, na hora, o Criador não
se apercebeu disso.
Mas o tal ser, a quem ele resolveu classificar de HOMEM (Arcanjo Gabriel balançou a cabeça, detestando o nome: por ele, aquela aberração teria sido no máximo um princzalt, mas, afinal, o boneco era de Deus, paciência!), ficou com o gênio dos macacos também.
Nem bem levantou do solo de criação, já começou a coçar a
cabeça e reclamar de tudo: que o Paraíso era muito quente, que os outros bichos
olhavam para ele com olhares esquisitos, que se sentia discriminado e
perseguido, coisas assim. No segundo minuto entrou em crise existencial da
braba: tinha acabado de ver um casal de pacas transando, teve compreensão
instantânea do que aquilo significava e imediatamente sua porção bonobo se
manifestou.
Foi assim que, mesmo estando só como
manifestante, o homem realizou sua primeira passeata de protesto. Começou a
caminhar pra lá e pra cá na frente dos arcanjos e de Deus, fazendo gestos que
hoje seriam considerados obscenos, manifestando assim seu inconformismo com a
ausência de uma fêmea para fazer com ela aquele animado ritual das pacas.
Deus confabulou com seus arcanjos e considerou
seriamente desmontar aquele encrenqueiro imediatamente. Ora, era claro que ele
ia criar uma fêmea da espécie também, afinal fazia-o sempre, criava-os aos
casais, ora bolas! Mas resolveu ter um pouco mais de paciência e dar ainda uma
chance ao grosseirão que tinha criado.
– Gamaliel, ponha o homem para dormir
imediatamente com seu bafo. Vamos fazer uma fêmea para ele, mas eu vou usar um
atalho, não estou mais a fim de trabalhar tanto de novo. Afinal já vem aí o
sétimo dia e eu vou ser obrigado a descansar.
Arcanjo Gamaliel aproximou-se do bizarro
peludo, escancarou a bocarra e deixou sair seu bafo mefítico, causado por uma
incontrolável proliferação de tártaro angélico nos dentes amarelados. O bicho
caiu duro no chão. Então os anjos operários, indivíduos de menor hierarquia,
que ficavam com o trabalho sujo de limpar as galáxias, vieram apanhá-lo e o
colocaram sobre uma pedra chata, que serviria de mesa cirúrgica.
Uma digressão aqui se impõe, tenham paciência
os leitores e leitoras. É que os anjos estavam furiosos com seus superiores
hierárquicos, cogitando entrar em greve e até a aliar-se com seu antigo colega
Lúcifer. E a razão era mais do que compreensível: tinha acabado de entrar em
vigor a nova lei criada por Arcanjo Assexuel: Daquela semana em diante ANJO NÃO
TEM SEXO! Isso foi, mais tarde, mal compreendido pelos humanos
ignorantes.
NÃO TEM aqui significa que NÃO PODE FAZER, não
é que não tenha os órgãos competentes. O Senhor acabou dando força para a Lei
daquele arcanjo sempre de mal com a vida, sempre a fim de, com o perdão da má
palavra, infernizar a vida dos anjos seus subalternos. Em vão Arcanjo Sensuel
tentou argumentar que aquilo criava um precedente perigoso, que a adoção do
celibato e da castidade forçados ainda ia acabar acarretando sérios problemas
entre os anjos. Mas não foi ouvido! De mais a mais, o sistema de governo ali não
era uma democracia. O Patrão decidia, estava decidido!
Aí o Lúcifer liderou uma revolta e foi embora
para Lanticiel, levando um monte de anjos e anjas com ele. E agora viviam
fazendo as maiores festas, para revolta e inveja dos anjos que tinham ficado no
Céu. Estes foram obrigados, pelo mesmo azedo Assexuel, a abandonar seus
instrumentos musicais favoritos, agora proscritos: cavaquinho, pandeiro, cuíca
e agogô. E foram obrigados a estudar Lira, uma terrível chatice.
Bem, digressão encerrada, voltemos ao homem
anestesiado. Pois Deus resolveu cortar caminho, criando a fêmea para o
encrenqueiro peludo sem rabo a partir de um pedaço do próprio corpo dele. O
Senhor acabara de inventar a CLONAGEM e ia fazer sua primeira experiência. O
duro foi decidir que parte do corpo ele retiraria. De início cogitou usar um
daqueles ridículos ovinhos que estavam ali de fora, muito mais fácil de
tirar.
Mas a equipe argumentou que aquilo era para
reprodução e, como era um alvo muito fácil para os animais predadores, por isso
mesmo é que tinham sido criados em duplicata, quando da invenção dos macacos.
Deus concordou. Seguiram-se momentos tensos de discussão, em que cada um
defendia a retirada de uma parte diferente. Por fim Deus se impacientou e
disse: uni-duni-tê-salamê-mim-güê. E assim, ao acaso, a escolhida
foi a costela.
Aí foi rápido: costela retirada, fêmea criada.
Mas ficou horrível: igualzinha ao macho encrenqueiro, inclusive nos pelos. Ora,
o Criador achava aquilo muito feio e resolveu que estava na hora de dar
uns retoques pra valer e aperfeiçoar muito mais a criatura, antes de soprar-lhe
vida. Mas que modelo copiar agora? Olhou longamente o bicho peludo deitado
sobre a pedra, puxando o maior ronco e se sentiu um escultor fracassado. Mas
mais um momento e todos se surpreenderam com a enorme gargalhada que Ele estava
soltando.
– O que foi Senhor? – perguntou Arcanja
Gabriela.
– Nada, nada minha filha. É que, para me
distrair um pouco enquanto pensava, usei minha capacidade de tudo ver e fui
rapidamente dar uma olhada no futuro dessa espécie. E até que não vai ficar tão
ruim assim, esses pelos ridículos vão cair quase todos com o tempo. Mas o que
me deu vontade de rir, foi que meus olhos caíram, ao acaso, num texto de
revista desses humanos (depois eu explico o que é revista, agora não temos
tempo) e ali estava escrito, assinado por um certo Millor Fernandes, o
seguinte:
“Quando Deus leu que criou o homem à sua imagem
e semelhança, Deus morreu de rir!”
Aí, lógico, todos explodiram na maior
gargalhada, Gabriela teve um ataque de riso difícil de controlar, chegou a
ficar sem fôlego, precisou um soprinho de Deus para ajudar. Imagine-se só,
aquele bicho estranho, feio e desconjuntado ser a imagem de Deus!
Mas Deus voltou a seu problema: que modelo usar
para aperfeiçoar a fêmea da espécie humana? Pensou, pensou, até que, de
repente, sua atenção foi chamada por um diálogo em sussurros, o que é de todo
inútil perto de quem tem clariaudiência absoluta. Deus ouviu:
– Não, Sapatiela, agora acabou! É fim mesmo. Eu
me decidi a continuar no céu e vou me submeter à nova Lei de Assexuel. Acabou!
Não tem sexo mais, desista! Foi bom enquanto durou, mas agora é fim!
Arcanja Sapatiela olhou Arcanja Gabriela,
aspirando seu suave perfume de cravo (mastigava-o sempre, para não ter o
horrível tártaro de Arcanjo Gamaliel), admirou sua cor de canela, suas suaves e
generosas formas, cheias de curvas, onde seu olhos derrapavam inebriados. E
consolou-se. Já que estava acabado mesmo, deu meia-volta e foi-se embora em
passo acelerado.
Se se apressasse, ainda pegaria o expresso das
5 horas para Lanticiel, em menos de duas horas estaria com a turma do divertido
do Lúcifer. Isso se ainda pudesse comprar passagem para hoje! Desde a entrada
em vigor da nova Lei, os expressos para Lanticiel partiam lotados de anjos e
até dois arcanjos tinham sido vistos embarcando, disfarçados de anjos comuns.
Aquele rápido diálogo iluminou a mente do
genial Criador. Era isso! Por que não pensara antes? Olhando atentamente para
Arcanja Gabriela, Deus viu que ali estava o modelo perfeito para criar a MULHER
(já tinha decidido classificá-la com esse nome e Arcanjo Gabriel o achara
lindo!).
Então o Celeste escultor e modelista pediu para
Gabriela posar como modelo e começou o seu trabalho de correção das inúmeras
imperfeições da boneca de costela. Começou por arredondar-lhe e suavizar-lhe as
formas simiescas do rosto, até deixá-las idênticas às do rostinho perfeito de
Gabriela. Aí mandou a própria Gabriela passar as mãos a uns cinco centímetros
do corpo da mulher ainda sem vida e emitir aqueles raios azuis dos arcanjos e
arcanjas.
Perfeito, foi a primeira depilação da história
celeste! Lá se foram todos os pelos do corpo da mulher. Exceto de uma pequena
parte, porque Gabriela ficou com receio que passar a mão ali fosse considerado
infração à nova Lei do Anjo Não Tem Sexo.
Em compensação, ao olhar a horrível pelagem no
alto da cabeça da boneca de costela, a própria Gabriela teve um lindo gesto de
desprendimento: removeu de seus longos e perfumados cabelos uma madeixa inteira
e aplicou-a na cabeça da boneca. Imediatamente a pelagem escura foi substituída
por uma maravilhosa cabeleira idêntica à da arcanja. Deus adorou o gesto e o
resultado!
Mas quando viraram a mulher para depilá-la do
outro lado, foi que todos se deram conta do horror que era aquela bunda reta e
peluda, igual à do macho. Os pelos foi fácil remover, mas a nova modelagem,
inspirada nos glúteos esculturais de Arcanja Gabriela, levou muito tempo até
que o Divino Escultor conseguisse reproduzir. Mas no fim, todos balançando a
cabeça afirmativamente e se cumprimentando, realmente valeu a pena: uma
perfeição de traseiro, lisinho, brilhante, cheio de beleza.
Como último detalhe, viraram a boneca de frente
novamente e Deus começou a esculpir nela o busto perfeito de Gabriela. Foi
preciso tirar muito material da cintura, que era tosca e larga como a do homem,
para ter o que colocar no novo par de seios, lindos, torneados, muito mais
volumosos que os mamilinhos de gorila fêmea que estavam antes ali. Mamilos
foram deixados, é lógico, mas foram também torneados com extrema arte e
delicadeza pelo Senhor.
No final, todos ficaram extasiados com a
obra-prima do Criador. E Ele mais do que qualquer outro, é claro:
– Me superei! Melhor do que isso não consigo
fazer nunca mais! Então declaro encerrada minha carreira de criador. É bom
saber parar quando a gente está por cima! Amanhã é feriado, pessoal. Todo mundo
descansar!
E DEUS CRIOU A MULHER! Não a partir do rústico
macaco, mas a partir de um ser angélico perfeito: uma arcanja! Et Dieu Créa La Femme!

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